Às 11h45 dessa sexta-feira, dia 20 de março, houve uma mudança de estação: entramos no outono. Não é incrível esse tipo de precisão? Trata-se de um fenômeno astronômico, e essa hora “exata” está relacionada ao tempo que a Terra leva para fazer uma volta completa em torno do Sol – um pouco mais de trezentos e sessenta e cinco dias. A ciência é a arte da aproximação. Do eureca, da verdade, das verdades, do ponto exato.
Carlos Drummond de Andrade, preocupado com outras ordens de precisão, escreveu que o outono é mais uma estação da alma do que da natureza. E não é mesmo? A cigarra de Esopo e de La Fontaine concordaria com o poeta. A formiga, entretanto, que cheira o outono, bota as mãos na cintura e começa a armazenar alimentos para o inverno, diria, presumivelmente, que se trata de uma estação da natureza. Ponto.
Um poeta do norte do mundo, W. B. Yeats, por sua vez, escreveu (troquei o “outubro” do original por “abril”, está bem?): “As árvores desvelam sua beleza de outono/ Os caminhos da floresta estão secos/ Sob o crepúsculo de abril, a água/ Reflete um céu manso.” Matsuo Bashô, um mestre da concisão (que “tem pátios pequenos” e é uma das faces da precisão), mandou a braba neste haikai: “Este caminho!/ Ninguém nele/ Escuridão de outono.” Nos dois casos, não há ninguém: só o poeta e sua pena. Sua pena!
Perto de Bashô filosófica e esteticamente, temos Deng Ming-Dao e o chamado à apreciação:
“Apreciação
O Sol hoje se ergueu e se pôs em doze horas.
Colhemos peras douradas de ramos arqueados.
Escalando mil degraus até alcançar um templo rústico,
Fizemos nossas oferendas aos deuses.
Caindo a noite, sentamo-nos em cálido companheirismo.
A Lua crescente juntou-se ao nosso círculo.
Água gotejante do rio de tranças prateadas
Que colocamos borbulhando em um pote de barro.
Não é fácil fazer um bom chá,
Mas esse pote tem uma história venerável:
Certa vez, um sábio penhorou seus livros por ele.
Agora ele confere o sabor da antiguidade.
O equinócio de outono é o momento de refletir sobre a vida. Se usufruímos uma colheita abundante, expressamos nossos agradecimentos. Se o ano até então foi difícil, ficamos felizes com o que temos e resolvemos fazer melhor assim que houver oportunidade. A apreciação da vida não exige riqueza nem abundância. Exige apenas gratidão pela beleza do mundo.”
A reflexão nos exorta a fazermos uma parada. Uma parada para estarmos cientes da mudança de estação e para celebrarmos a colheita, tanto de forma literal como metafórica. Uma xícara de chá antes de voltarmos para o corre do mundo – formigas sem consciência de classe.