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Expressão Plural

Morrer

teste
Gerson
Por Gerson Egas Severo
Foto Arquivo pessoal

Há um trecho de “Quincas Borba” (1891) em que Machado de Assis, o bruxo do Cosme Velho, deita ao chão o acervo humano inteiro de tentativas, bem ou mal sucedidas, não importa, de se lidar racionalmente com o problema da morte: o médico de Quincas Borba, havendo-lhe dito que sua doença “iria saindo devagar”, revela, no entanto, a Rubião, que o levara até a porta da casa, que o doente “estava perdido, completamente perdido”, mas “para que tornar-lhe a morte mais aflitiva pela certeza?” Rubião pondera que para Quincas, que tivera o engenho e a arte de inventar sozinho toda uma filosofia – o Humanitismo -, “morrer é negócio fácil”, ao que o médico, voltando-se antes de sair, obtempera, sintético e sem metafísica como o José de Drummond: “Filosofia é uma coisa, e morrer de verdade é outra. Adeus.”

Shinzen Young, em perspectiva budista, conclui um poema assim: “E o passamento é só mais uma respiração/ Mostrando-nos o caminho.” Just another breath: ah!, os budistas e sua ênfase na respiração: um inspirar, um expirar – e pronto: um ôpa!, um atravessamento (uma marola?), mas nada de extraordinário. De todo modo, como diz um outro verso, este de uma canção (Luís Nenung), o essencial é que possamos/ saibamos “sair sem tropeços no final da festa.”

O que pensar? O que dizer? O que fazer, para que lado nos virarmos em nosso desamparo? Estejamos, esta é minha ideia, com o também pouquíssimo metafísico Deng Ming-Dao:

“O que fazer quando aqueles de quem gostamos muito estão prestes a morrer, enquanto nós continuamos a viver e a trabalhar? Podemos nos sentir tentados a nos entregar a nossos sentimentos de injustiça, tristeza ou medo, mas devemos, primeiro, pensar nos que estão morrendo. Temos o dever de estar com eles.

Não deixe que ninguém morra sozinho. Não importa quão ironicamente o seu viver possa ser comparado ao morrer alheio, atue por eles quando eles não podem mais atuar. Se eles procuram algum modo de lidar com seu fim iminente, você não precisa de palavras floridas. Apenas estar com eles, talvez segurando as suas mãos, é eloquência suficiente. A morte pode estar próxima, mas qualquer parcela de tempo antes dela é preciosa.

A importância da vida não diminui diante da morte. Basta estar atento e validar. Afinal, a morte nos aguarda a todos. Unicamente o valor que damos a cada minuto determina a qualidade da vida. Se podemos admitir isso, nenhuma vida é arruinada pela morte.”

Quer dizer: tudo o que podemos fazer, talvez, é esse oferecer a nossa mão. Que, pensando bem, é tudo o que podemos fazer em vida, também.

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