Antes de debruçar-me na continuação da proposta de debater sobre a preservação de documentos em papel e documentos digitais, fruto das tendências atuais de sustentabilidade e economicidade que buscam diminuir impressões, e a produção de documentos em papel, relato aos leitores um “puxão de orelhas” do Me. Ernesto Cassol, na data em que a primeira parte deste tema foi publicada: palavras mais, palavras menos, “Henrique, tenho um elogio, uma crítica e uma pergunta...” Neste momento, respirei fundo e preparei-me.
O elogio: que bom que você trata todos como conhecedores da Escola Rankeana.
A pergunta: O que tu entendes por Escola Rankeana.
A crítica: Deverias explicar o que é a Escola Rankeana para teus leitores.
Minha(s) resposta(s): para falar das teorias de Ranke, eu precisaria de um artigo. E, eu a compreendo como uma concepção que sobrepujou o que seria uma Escola Alemã de Pensadores sobre a História, e que Ranke seria o expoente, mas não o único a pensar os processos históricos (acontecimentos) por meio dos documentos oficiais de uma determinada sociedade. Ou seja, uma história dos grandes líderes, essencialmente política e masculina.
Dito isso, passo a segunda parte de nossa discussão, com o a seguinte assertiva: O advento do documento digital nos fez compreender bem claramente que um documento não é um artefato com conteúdo e entorno de limites fixos. Um documento digital é definido diferentemente de um documento físico; ele pode remeter a outros documentos através de links, é variável e mutável, fluído e instável (KETELAAR, 2018, p. 196).
Nesta perspectiva, todos os documentos podem ser Historicizados. De maneira que aqueles grupos que normalmente eram / são subalternizados, tem a possibilidade de construir suas próprias narrativas, realçando elementos normalmente silenciados pela historiografia oficial. Pode também reconstituir trajetórias de personagens que não ocuparam cargos, mas que fizeram a diferença nas comunidades que atuaram.
Da mesma forma, Cox (2017, p.?) aponta que “a facilidade com que hoje as pessoas enviam fotografias digitais de suas vidas diárias e momentos mais íntimos por meio da internet e as postam em páginas pessoais eletrônicas é muito mais que apenas um passo adiante na evolução de nosso caso de amor com a fotografia e deixa claro que não há sinais de diminuição na maneira como interpretamos e lembramos nosso passado através do registro visual”. Rompe com a “sacralidade” (ritualística) das fotos e sua dificuldade ao acesso (eram caras e existiam poucos profissionais).
Todavia estes avanços pressupõem a adoção de um rigor metodológico para a análise destas fontes – não que as demais não precisem, mas estas estão mais suscetíveis à interferências, manipulações e apagamentos devido aos avanços tecnológicos e as ferramentas de edição de texto, imagem, áudio e vídeo (para ficar nos mais conhecidos).
Por fim, respeitando-se o rigor científico, estas fontes são ferramentas inesgotáveis de construção e reconstituição de processos históricos, narrativas, trajetórias e coleções.
Referências
COX, Richard. Arquivos Pessoais: um novo campo profissional – leituras, reflexões e reconsiderações. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2017.
KETELAAR, Eric. (Des)construir o arquivo. In: HEYMANN, Luciana; NEDEL, Letícia (org.). Pensar os arquivos: uma antologia. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2018.