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Opinião

Memórias de Viagem: Itália- Terra de Origens (Parte II)

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Marlei Klein
Por Marlei Klein
Foto Divulgação

“A alma humana projeta-se nos lagos, nas montanhas, no clima, na cara das outras pessoas, na língua falada, na comida, nos túmulos, nas ruas, nas esquinas. Ela se projeta nas histórias, na música, nas tradições”

Reminiscências

Os italianos, que aqui chegaram, vieram de lugares empobrecidos. Eram vindos principalmente da região do Vêneto, Norte da Itália. O grande êxodo começou nos anos finais do século XIX. O fato de o trabalho na terra simbolizar a miséria e as duras condições de vida, que as famílias sofreram, as fizeram buscar lugares melhores. Mais de 7 milhões migraram entre 1860 e 1920. Os motivos para abandonar a Itália foram a unificação das províncias e a industrialização, assim muitos ficaram sem trabalho.

O governo brasileiro precisava de mão de obra por conta da abolição dos escravos, para garantir fronteiras e para a colonização. Começou a fazer propaganda do brasil, principalmente nas regiões empobrecidas da Itália, e começou a financiar a vinda dos italianos. Antes de embarcar, passavam por exame médico. Deveriam ter boa saúde física e mental. Embarcavam somente os aptos. Naquela época, a tuberculose era a doença comum e que mais matava.

A dureza da viagem

Da Itália para o Brasil um navio a vapor levava, em média, 40 dias para fazer a travessia. Partiram, principalmente, do porto de Gênova. Para embarcar chegavam por trem, mas antes venceram caminhos com carroças e até a pé. Abandonaram familiares, residências e carregaram filhos a tiracolo. Seus poucos pertences vinham em baús de madeira e trouxas de pano. Não esqueceram sementes e pequenos ramos, principalmente de videira.

A comida e a água, durante a viagem, eram escassas. A bordo, a língua tornava-se incompreensível. Havia a mistura de dialetos vênetos e lombardos. Mas, a esperança por uma vida melhor ajudava a enfrentar as dificuldades. Quando chegaram, em cartas aos que ficaram, relataram o Brasil como um lugar de fartura.

A saga da família de Giovanni e Thereza Zanella

Região do Vêneto- Cismon Del Grappa

O nome desse local é por estar próximo ao Monte Grappa.  Conheci essa comuna e lá voltei mais duas vezes. Passando por belas rodovias, por entre montanhas, chega-se, por trem também, a esse bucólico e lindo lugar com não mais de seiscentos habitantes. Numa das visitas era inverno e nevava. Dela vieram meus avós maternos, Giovanni e Thereza. Sempre fiquei emocionada. Conhecer e rever o local de onde se originou a família, deixou-me muito curiosa. É um lugarejo calmo, onde ao lado da via principal, há um paredão, uma montanha alpina, que quase não deixa o sol passar, quando é verão. No inverno, a neve chega até o meio da porta das casas. Fica próximo da fronteira com a Áustria. Muitos dos nossos antepassados são de origem austríaca. Cismon começou a ser habitado por volta do ano 1127.

A casa da família da minha avó

A família da avó Thereza é Rizzon e do avô Giovanni é Zanella. Em Cismon, encontrei um primo da minha mãe, o Alfredo, que contou a história da família. Mostrou os lugares onde viveram. A casa da Família Rizzon ainda lá está. Fechada desde que vieram para o Brasil, em 1893. O número da mesma é 27. As famílias eram parentes e vizinhas. Uma casa ficava defronte a outra, numa pequena pracinha com uma bica de água. A casa dos Zanellas, hoje está habitada por herdeiros que lá permaneceram. A casa dos Rizzon é de pedra e possui um porão, onde ficavam os animais no inverno. O primeiro andar era para a cozinha e salas. O segundo andar era para os quartos. Defronte, há um paredão, da montanha, com alguns degraus escavados. Por eles subiam para levar o gado, no verão.

Em Cismon, muitas casas permanecem fechadas, pois são das pessoas que imigraram e os descendentes não lá voltaram, inclusive a casa da minha avó. O governo italiano não se apropria das mesmas. É uma cidadezinha limpa, agradável, onde a fiação elétrica é subterrânea. Nossa Senhora do Pedancino é a padroeira e sua linda igreja fica no alto de uma escadaria. No Brasil, a família construiu uma capela para  a mesma.

Giovanni e Thereza

As dificuldades de sobrevivência os fizeram partir, juntamente com outras 50 famílias. Eram quase crianças. O nono com 16 anos e a nona com 11 anos. Vieram com os pais e uma “nonneta”. Saíram do porto de Gênova e chegaram ao porto de Santos. Ficaram uns dias na hospedaria do imigrante e partiram, em vapor menor, para o Rio Guaíba e depois para São Sebastião do Caí. Receberam terras na serra, em Antônio Prado, distrito de Nova Roma do Sul, hoje município, na Linha Barata Góis. Em 1897 casaram. Ele com 20 anos e ela com15. Tiveram uma família de 15 filhos. Por volta de 1920, vieram para Erechim e se estabeleceram no Bairro Três Vendas, com casa de comércio. Minha mãe Thereza, o mesmo nome da nona, foi a décima terceira dos filhos. Nasceu em 1918, em Antônio prado. Era um bebê quando chegou aqui. A nona faleceu em 1956 e o nono em 1963.

Conclusão

A pobreza absoluta é o grande móvel desse episódio chamado imigração italiana. Ao conhecer o lugar de onde vieram meus avós maternos, tive saudades deles e imaginei como foi a vida por aquelas longínquas e desconhecidas paragens. Foram heróis, que aventuraram para o melhor. Tiveram sucesso e deixaram uma descendência orgulhosa de suas origens. Conhecendo a origem compreendi melhor a visão e a vontade que tiveram de buscar, no desconhecido, uma vida melhor. Seus descendentes herdaram a vontade ao trabalho e foram moldados em uma fé e esperança irredutíveis.

 

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