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Opinião

Fronteiras Simbólicas e as (i)migrações no Alto Uruguai Gaúcho (II)

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Henrique Trizoto
Por Henrique Trizoto
Foto Arquivo pessoal

A análise dos fluxos (i)migratórios no Alto Uruguai Gaúcho chega a sua segunda parte, em que abordaremos a vinda de Haitianos e Senegaleses, principalmente. Esta nova leva de imigrantes é fruto dos processos políticos ocorridos principalmente após a redemocratização no Brasil.

Moreira (2010 p. 117) assinala que “com a redemocratização, novos componentes domésticos aliados a fatores políticos externos propiciaram o posicionamento favorável ao tema dos refugiados. A questão entrou no debate nacional atrelada ao tema dos direitos humanos em destaque na cena internacional”. Destaca ainda o envolvimento “das instituições religiosas que tiveram atuação importante na fase de transição do fim do regime militar e o percurso em prol da recuperação da democracia. Também foi relevante a participação da agência da ONU nesse processo”

Dados da Agência Brasil, apontam que “atualmente 1,3 milhão de imigrantes residem no Brasil. Em dez anos, de 2011 a 2020, os maiores fluxos foram da Venezuela, Haiti, Bolívia, Colômbia e Estados Unidos”. O avanço dos números é nítido e ocorre em larga escala: o “número de novos refugiados reconhecidos anualmente no país saiu de 86, em 2011, para 26,5 mil em 2020. As solicitações de reconhecimento da condição de refugiado também aumentaram, passando de cerca de 1,4 mil, em 2011, para 28,8 mil, em 2020. No Alto Uruguai Gaúcho este processo temos destaque a presença de Senegaleses e Haitianos. Antagonicamente a (i)migração ocorrida no século passado, ainda não estão disponíveis dados oficiais do número de (i)migrantes que chegaram até a região.

Moraes et.al (2013, p.106) assinala que os “(...) os haitianos procuravam o Brasil para reconstruírem suas vidas, em sua maioria, possuem algum grau de qualificação profissional, portanto não são refugiados iletrados e sem preparo. Muitos deles possuem curso técnico, curso superior e falam até três idiomas, entre eles o espanhol e o francês. O mercado de trabalho brasileiro, entretanto, os exploram, principalmente aqueles que aqui estão em condição ilegal, com mão de obra barata e não raramente, com poucos direitos trabalhistas empregados".

Muitos destes imigrantes são vistos no trabalho informal nas ruas da cidade de Erechim, vendem óculos, roupas, calçados e acessórios (principalmente), uma segunda parcela é vista trabalhando em empresas com atividades insalubres. Um traço cultural marcante é que normalmente os homens se inserem no mercado de trabalho. Todavia, em todo o Brasil os (i)migrantes haitianos e senegaleses enfrentam o estranhamento: “a sociedade brasileira, quando sente uma aversão ao estranho, quando tenta ‘se defender de uma invasão estrangeira’, prática na grande maioria das vezes condutas direcionadas a alienígenas que possuem a cor da pele negra” (CRUZ NETO, 2017, p. 51). 

Falar deste assunto é tocar em feridas abertas da sociedade, é sensível e complexo. Da mesma forma que a primeira leva de imigração foi irreversível, esta leva provavelmente também será. As alterações sociais, econômicas e políticas também levarão à uma bricolagem na cultura brasileira. A grande questão é, estamos preparados?

Referências

BRASIL, Agência. Número de novos imigrantes cresce 24,4% no Brasil em dez anos: atualmente 1,3 milhão de imigrantes residem no Brasil. 2021. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2021-12/numero-de-novos-imigrantes-cresce-244-no-brasil-em-dez-anos.

CRUZ NETO, Reinaldo Venâncio da. No Brasil, xenofobia tem cor e alvo: a realidade do deslocamento humano de haitianos ao Brasil, através do Estado do Acre, pós-catástrofe natural no Haiti em 2010. 2017. Dissertação de Mestrado em Direito. Universidade de Brasília: Brasília, 2017.

MORAES, Isaias Albertin de; ANDRADE, Carlos Alberto Alencar de; MATTOS, Beatriz Rodrigues Bessa (Org.). A imigração haitiana para o Brasil: causas e desafios. Revista Conjuntura Austral, Porto Alegre, v. 4, n. 20, p.95-114, 2013. Bimestral.

MOREIRA, Julia Bertino. Redemocratização e direitos humanos: a política para refugiados no Brasil. Revista Brasileira de Política Internacional. P. 11-129, 2010.

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