A mais antiga profissão
Há coisas na vida que só se vendem porque há quem as consuma. Soluções que, a princípio, não precisariam fazer parte do cotidiano. As prostitutas e os lares de idosos, por exemplo. A mais antiga profissão e o envelhecimento humano são provas de que o tempo e os fatos não se pode contrariar, apenas compreender. Dos cabarés aos lares de idosos. Tudo é questão de tempo. Para um cronista, acostumado a querer simplificar o que é demasiado complexo ou a complicar o óbvio, trata-se de um assunto que guarda alguma relação.
Semelhanças
Em primeiro lugar, o tema merece respeito. Até porque as prostitutas são, antes de tudo, mulheres. Questão de princípio. E os lares? Bem, os lares, por serem negócios e não pessoas, também merecem esse cuidado. Como sabemos, não causa espanto a mais ninguém quando ouvimos alguma notícia relatando que há casas de repouso que maltratam os idosos. Da mesma forma, infelizmente, não nos estranha saber que há pessoas que fazem o mesmo às prostitutas.
Sociologia
Trata-se de um debate sociológico. Se nos perguntarmos “por que razão existem prostitutas”, certamente encontraremos a mesma resposta ao trocarmos o termo “prostitutas” por “lar de idosos”. Enquanto negócio ou oportunidade, ambos buscam atender a uma demanda: a necessidade daqueles que não têm tempo. A primeira existe desde os tempos bíblicos. O sexo fácil, tipo “pesque e pague”. Sem amor, sem perguntas, unilateral, simplesmente para satisfazer os instintos, como bichos. A segunda, um fenômeno da modernidade, é fruto do envelhecimento, da longevidade e da baixa taxa de natalidade das últimas décadas. As duas acabam por ser soluções para o triste flagelo da solidão.
As portas
O tempo é imbatível. Logo ali estaremos, todos nós, inadvertidamente, a bater às portas dos lares. Os mais afortunados farão de suas próprias moradias, casas adaptadas para o que restar da jornada. Outros, menos favorecidos, correm o risco de serem “resgatados”, institucionalizados. Mas não adianta. É paradoxal ver que certos homens que fizeram uso da prostituição para aliviar suas tensões acabem nas mãos do serviço social ou de lares inescrupulosos. Em uma situação de hipossuficiência, os idosos estão sempre vulneráveis e podem ser vítimas de maus-tratos, abusos, tal e qual as prostitutas do seu tempo.
Reformas
Deixemos as prostitutas de lado. Sou daqueles que ainda sonham com uma reforma de valores. Menos moralismo sobre as mulheres pode, inclusive, reduzir a prostituição. Mais atenção à família tende a produzir mais cuidado aos idosos. Tudo depende de reforma. Reforma íntima, primeiramente. É preciso, pelo exemplo, mudar certos conceitos de vida em sociedade, como a estimulação ao consumo excessivo, a sensualização, o desrespeito à Natureza e a degradação da família. Sem reforma íntima e autoconhecimento não evoluiremos. A maçã lá está, morde quem quer. A boa e velha lei de causa e efeito. É a vida, mas bem que poderia ser chamada de morte, porque lá no fim, para os que insistirem em viver assim, tudo volta a ser pó.