Pernas de boneca
Corria o ano de 1978. Era um dia relativamente quente, apesar de inverno. A família reunida em torno da mesa para, ao fundo, assistir à Seleção de Coutinho numa pequena televisão. Ao meu lado sentou-se uma jovem - hoje - senhora. Meus quatro anos e pouco não me impediram de reparar no que se passava ao meu lado: um par de pernas. Pernas de boneca.
As pernas
Não havia nada de lascivo em meu olhar de criança. Era mesmo uma enorme curiosidade. Como poderia uma mulher ter pernas de boneca? A cena inspirou-me a ter uma experiência sensorial. Era preciso passar minha pequenina mão para confirmar o que meus olhos instigavam. A dona das pernas? Minha futura tia, que no ano seguinte se casaria com meu padrinho Valdir. Ela tinha as pernas encobertas por uma meia-calça que davam essa impressão de “pernas de boneca”. Estavam todos atentos ao jogo, de forma que só eu reparava no contorno dos membros inferiores daquela jovem. Quatro anos se passaram e só então pude entender o porquê de não repararem nela. Foi a Copa da Espanha que me fez perceber que também amamos o futebol, especialmente quando este é envolto na beleza, a exemplo do que foi a Seleção Canarinho de 1982.
As time goes by
Esta música, cantada por Frank Sinatra, começa dizendo: “You must remember this. A kiss is still a kiss, a sigh is just a sigh”. Na tradução diz que “você deve lembrar disso. Que um beijo é sempre um beijo e um suspiro é sempre um suspiro”. E lá se vão quatro dúzias de anos desde o meu primeiro encontro com minha então “futura dinda”. E nunca mais esqueci daquele dia. Como diz a canção “com o passar do tempo”, nossa relação selava, naquela cena, um amor muitas vezes difícil de ser explicado. Do casamento nasceram meus primos e afilhados, uma viuvez temprana, um neto cheio de vida e muitas histórias, sempre permeadas com muito amor.
A metamorfose
Revelada a razão das pernas de boneca, o “suspiro” cantado por Sinatra foi confirmado com o beijo de despedida. Desde aquela tarde, naquela cena inusitada de criança, nasceu uma relação de amizade, uma reciprocidade de silêncio, tolerância, afeto e amores em comum, como o ensino e a família. Lembro de folhear os livros de geografia que ela guardava num quartinho de azulejos amarelos que ficava ao lado do renovado banheiro cor de vinho. Minha “tia-madrinha”, pelo exemplo que dava, foi uma enorme incentivadora em meus estudos. Hoje, pós-doutora em educação, é referência por onde passa, mas naquele tempo da Copa de 78, dirigia um fusca “cor de cocô” (como eu costumava chamar). Foi com aquele carro que enfrentou as difíceis estradas do magistério. Mal saberia onde a docência seria capaz de a levar.
Trajetória
Minha dinda é um grande exemplo de mulher. Sua experiência de vida foi sempre marcada por perdas, enfrentamentos, desafios e diversidade. A resignação, a fé e a religião sempre estiveram ao seu lado em décadas de trabalho junto às obras de Santa Paula Frassinetti. Ela até chegou a ser colega de meu chefe, o Padre Marcos Sandrini, nos estudos que realizavam na PUC. Ligações e coincidências que me fazem lembrar o quanto as crianças são influenciáveis, tanto para o bem, quanto para o que não é lá tão bom. No fundo, tudo isso que aqui disse, de nada importa ao leitor, senão fazê-lo voltar no tempo, nem que seja com o recurso das copas do mundo, dos fuscas cor de cocô e dos azulejos de antigamente. Para ser sincero, a memória é o instrumento que colore o nosso passado, que nos defende da saudade. Esta, quando bate, derrama todo o amor que temos guardado cá dentro.