Mãetoristas
Sim, isso mesmo, mãetorista. Uma palavra esquisita que aprendi com meu amigo Tadeu. Poderia ser também paitorista ou mesmo irmãtorista. Tanto faz. Depende só de quem é o operador logístico da família do momento. E isso de levar os filhos para lá e para cá é coisa da modernidade. Quase uma ação automática de que sequer nos damos conta. Toma um tempo danado e quando acaba…
Modernidade
A paternidade (inclui a maternidade, ok?) hoje em dia está mais para uma matriz de agendas do que propriamente um modelo de educação pelo exemplo. Isso porque os pais, de maneira quase que automática, preenchem as agendas dos filhos com diversos compromissos extra classe. Ballet, ginástica, aula de música, de inglês, terapia, natação. A lista é inesgotável e, se pensarmos que no tempo ocioso as crianças e jovens ficam “conectados”, quanto mais atividade tiverem, menos tempo de tela terão. Mas quem leva essa piazada para lá e para cá?
Motoristas
A paternidade atual é muito participativa neste sentido. Se os pais se dessem conta do tempo em que passam dirigindo para todo o lado, levando seus projetos de adulto a todos os compromissos, dar-se-iam conta de que o interior do automóvel tornou-se a nova mesa da cozinha. Mas é claro, esse movimento todo é restrito a uma fatia da população que tem carro, que tem condições de dar formação extra-classe aos filhos. A restante, fica jogada à sorte e aos bons cuidados do anjo da guarda. Impossível fazer todos esses deslocamentos sem carro. Sem considerar que essas atividades, além de não serem baratas, continuam a ser um privilégio que separa, que segrega e que, lá na frente, continua a criar as tais diferenças de classe.
Ao fim
Mas chega um momento em que os 1,55 filhos do casal (são dados do Censo de 2022) crescem. Tiram carteira de motorista, deixam de fazer ballet, ginástica olímpica e aulas de inglês. Já são fluentes, o que lhes permite voar. O Atlântico deixa de ser nome de clube e passa ser o novo espaço que separa. Um oceano! No início, os pais sentem um tremendo alívio. Sobra tempo. Vivem uma sensação de liberdade que só a andro e a menopausa são capazes de arruinar. Até que vem o vazio. A silenciosa manifestação da ausência. Os casais brigam, por não mais saber o que fazer com a intimidade ampliada. Surgem os problemas, como se todo esse processo de construção fosse um castelo de areia, que a onda vem, lava e não traz nenhuma garrafa com uma “message in a bottle”, como costumávamos ouvir na voz do Sting.
Carpe diem
Mas a vida é assim. Ao menos para aqueles que optaram por contribuir com os 1,55 filhos da estatística. Aos demais, que não passam por isso, que não procriam, não sei nem o que dizer, pois me enquadro nessa categoria dos “paitoristas”. É cansativo, claro que é. Mesmo assim, o momento no carro é íntimo, privado. Permite que se possa conversar, aproveitar o tempo. Há que se desenvolver uma habilidade e, de vez em quando, manter dois ou três assuntos concomitantes, dependendo do número de filhos que são transportados no aproveitamento logístico. É verdade, ter família contribui para o aumento dos gases do efeito estufa. Concordo com os solteiros.
O trânsito como oportunidade
Cada “sessão família” que se passa dentro do carro depende das condições do trânsito. Se tá infernal, como nos dias de chuva, melhor ainda, sobra mais tempo, por mais que liguemos o botão da raiva. Assim nascem os fragmentos do dia. Eles geram pequenas fraturas de história. As “lascas” do convívio que, lá adiante, sentiremos falta. Nossa primeira experiência com o vazio. Pensando bem, para esse tipo de família o carro é como um divã familiar. Se os habitáculos pudessem falar diriam tudo o que fizemos pelos filhos. Um bom registro para que tenham gratidão, não pelo que fizemos por eles, mas pela oportunidade de terem nascido em uma família tão privilegiada.