As cuecas do compadre
Dos tantos objetos que podem indicar traços da personalidade humana, poucos têm o privilégio de mostrar como o sujeito é em sua intimidade. No caso das mulheres, há tantos sinais que seria impossível descrevê-los sem cometer graves erros. Já no caso dos homens, em especial, há um objeto que pode dizer muito sobre a personalidade masculina. Falo das cuecas. Por estarem sempre “por baixo”, às escondidas, podem também ocultar traços da personalidade.
O meu compadre
Tenho um compadre que gostava de cuecas largas, dessas folgadonas. Quando éramos jovens e íamos à praia por uns dias, era inevitável não reparar naqueles trapos estendidos no varal. Os mais distraídos poderiam confundí-las com panos quaisquer. Quem as via de longe, certamente não as notava. Pareciam fronhas velhas. Enquanto todos os amigos eram normais nesse quesito, o compadre era totalmente diferente. Quiçá poderia ser um traço da sua personalidade e, pensando bem, as cuecas folgadonas até que diziam um pouco sobre como gostaria de levar a vida, se fosse um homem realmente livre.
Casamento
O tempo passou. Cada um seguiu um caminho. Vida de verdade. Deixei de ver suas cuecas estendidas no varal. Até que chegou o dia do seu casamento. O primeiro dos três. No salão do Atlântico, depois da cerimônia, nós, os velhos amigos, decidimos lhe aprontar uma sacanagem. À força, retiramos suas calças e sapatos para fazer um leilão e arrecadar fundos para serem gastos na lua-de-mel. Mas não deu certo. A cueca que usava era tão feia, mas tão feia, que decidimos devolver-lhe as calças. Era vergonhoso demais vê-lo vestindo aqueles farrapos, ainda mais num dia tão especial. Prova de que mesmo com o passar dos anos, o compadre insistia naquele feitio de cueca.
Mudança
Certa vez, como de costume, fui visitá-lo em Erechim. Vivia com a segunda companheira. Numa manhã de sábado, acabei o acompanhando até uma loja de roupas. Como havia sido contratado para um novo trabalho, era preciso comprar roupas novas, condizentes com seu novo salário em dólares. Porém, havia algo de estranho naquelas compras. Junto das camisas, calças e casacos, havia cuecas de verdade. Novas, bonitas, mas completamente diferentes daquelas que ele sempre usou. Até me questionava: onde comprava aqueles farrapos que lhe davam tanto conforto? Seja como for, aquelas cuecas “da moda” me deixaram com uma certa dúvida, mas poderia ser um sinal dos tempos.
A verdade
Passados alguns meses, descobri que o compadre tinha deixado da comadre. Pelo que me contaram - os dois - separadamente, ele havia encontrado bem mais que um novo emprego. Um novo amor. Foi quando lembrei da história das cuecas. Certamente, para não passar vergonha com a nova companheira, o compadre fez questão de investir na intimidade. Fiquei triste com o desenlace dele com a comadre, é fato. Mas faz parte. A gente não manda no coração. Pensando bem – e isso deve valer para homens e mulheres – como pode uma simples cueca dizer tanto sobre o que se passa em nossa intimidade?