Saindo do armário
Os mais ácidos dirão que suspeitavam ou mesmo que já sabiam. São sempre os donos da verdade. Por outro lado, quem me conhece, ao menos um pouco, há de estranhar minha confissão pública. Certos mesmo, estarão meus amigos íntimos, os verdadeiros guardiões de minha memória. Felizmente, chegou a hora de tornar pública a minha escolha: saí do armário!
Significado
Os afoitos já devem ter parado a leitura no primeiro parágrafo. Azar deles. Perderão meu testemunho sobre o significado desta expressão. Muito utilizada para descrever o ato corajoso em que os homossexuais tornam pública a sua opção, é por vezes utilizada de forma pejorativa. Só quem já saiu do armário pode descrever a tremenda sensação de alívio que se tem ao abrir mão do silêncio. Deve ser realmente sublime poder andar por aí li-vre-men-te (ou com a mente livre) e dizer que ama alguém do mesmo sexo ou, que tem uma forma diferente de praticá-lo. Sim, porque amor e sexo são coisas distintas e, que de vez em quando, ocorrem em simultâneo (o que é maravilhoso), mas isso é assunto para outro dia.
Outros armários
Mas há outros armários em nossa vida e que vão muito além da nossa opção sexual. Há o armário da política, por exemplo. Acontece quando o sujeito simpatiza com uma ideologia mas a família ou os colegas de trabalho são de outra. Além de outros, há também o mais importante dos armários: o do coração. É incrível como tem gente que passa pela existência sem dizer sequer um “eu te amo”. Vá lá, para a pessoa com quem trocamos intimidades, nos limites desta, é uma coisa, mas dizer “eu te amo” para um amigo ou uma amiga é realmente um sinal de que você saiu do armário. Melhor dizendo, abriu o armário, esse conjunto de costelas enrijecidas pelo tempo e que, em vez de guardar, esconde o seu coração, isolando-o do mundo.
Saí do armário
Eu perdi a vergonha. Perdi o medo também. A porção de cabelos brancos que ostento me habilitaram ao exercício desta escolha. E como disse, não é uma opção sexual, não! É uma opção de vida! Escolher amar é a chave para a elevação do nosso espírito. Amar as pessoas, amar os animais, a natureza, amar a si mesmo e as nossas próprias limitações. Isso sim é dar um salto quântico e libertador de nossa existência temporária aqui na Terra. Poder chegar ao umbral e dizer, como a velha canção do Nenhum de Nós… Eu amei…. (o que eu sinto a respeito dos homens, é estranho, é estranho como é frio, é estranho como eu perdi a fé, é estranho, como é estranho, perguntar o nome). Não deve haver nada mais constrangedor do que morrer sem ter amado. Fechar os olhos e suspirar, lembrar que amou, é algo que as palavras não conseguem descrever.
Daqui em diante
Então hoje, ainda que meu coração tenha se acostumado a deixar um espacinho para raiva, para o ciúme e algumas outras emoções negativas e sombrias, decidi que vou amar e amar muito. Cansei de pensar com a lógica dos racionais, embora continuo acreditando nelas. Elas ajudam, sim, mas apenas a dar o próximo passo. Não nos levam além. E como é para lá que vamos, para o além, não me resta outra ferramenta senão o amor. Só ele liberta. Estou livre, saí do armário, mas antes de morrer, quero encher o saco de muita gente com essa conversa. Amem, amém!