Foi quando tinha cerca de dez anos que Mônica Martins de Araújo, hoje com 27, descobriu o apreço pela leitura. Com carinho, ela ainda recorda o nome da professora que lhe instigou o gosto pelos livros. “Eu devia estar na terceira série do ensino fundamental e lembro que uma professora chamada Rosane deixou na minha casa uma caixa cheia de livros e gibis. Passei as férias inteiras lendo aquelas obras e desde então, nunca mais parei”, lembra.
Moradora de Campinas do Sul, a jovem conta que era acostumada a frequentar a biblioteca da escola. No entanto, após terminar o ensino médio, Mônica precisou lidar com um vazio que logo foi suprido. “Quando acabaram as aulas, não tinha mais onde retirar livros, o que foi muito triste para mim. Felizmente, pouco tempo depois foi inaugurada a Biblioteca Pública do município, o que, para minha alegria, permitiu que eu continuasse com minhas leituras”, relata.
O exemplo de Mônica mostra a importância das bibliotecas públicas para o acesso à leitura o que, infelizmente, ainda não é realidade em todo o país. Dados do novo cadastro de bibliotecas públicas do Ministério da Cultura apontam que 112 dos 5.570 municípios brasileiros não contam com espaços públicos de leitura, embora o Brasil disponha de 6.701 bibliotecas públicas já cadastradas e em torno de 3 mil comunitárias.
Bibliotecas públicas no Alto Uruguai
Uma pesquisa feita pelo jornal Bom Dia no Alto Uruguai mostra que a grande maioria dos municípios da região possui espaços públicos voltados à leitura. Das 32 cidades consultadas, 31 possuem bibliotecas públicas. Em algumas delas, as bibliotecas funcionam junto às escolas, como é o caso de Barão de Cotegipe e Viadutos o que, no entanto, não impede o acesso a estes espaços por parte da população.
O único município que afirmou não ter uma biblioteca pública foi Benjamin Constant do Sul. Entretanto, a auxiliar administrativa da Secretaria municipal de Educação, Vanessa Stieven, destacou que embora as bibliotecas das escolas sejam de uso exclusivo dos alunos, em caso de necessidade, a população pode procurá-las para ter acesso às obras literárias.
Aratiba: média de dois novos livros por dia
Aratiba é um dos bons exemplos quando o assunto é leitura. Com seus 6,5 mil habitantes, o município possui em sua biblioteca pública um acervo com 15 mil livros; 3 mil periódicos e 1,5 mil gibis. A secretaria municipal de Cultura, Juventude e Desporto, Maristela Malaquias destaca que constantemente são adquiridas novas obras a fim de complementar o acervo. “Temos em média dois livros novos por dia”, garante.
No ano passado o local recebeu investimentos de reforma e ampliação para abrigar as novas obras e receber os cerca de 2,2 mil associados, além da população que frequentam o espaço diariamente. Maristela destaca ainda que o público mais assíduo é formado por estudantes, o que, segundo ela, é justificado pelo incentivo à leitura que é dado nas escolas. “Como as bibliotecas das escolas têm obras diferentes, seguidamente os professores trazem seus alunos à biblioteca pública, incentivando neles também a procura por livros durante as férias”, pontua.
A secretária destaca ainda que os jovens também são frequentadores e, em sua maioria, buscam pelos best sellers. “Além disso estamos implantando computadores com acesso à internet para que o local sirva também para pesquisas e realização de trabalhos”, completa.
Campinas do Sul: livros de todos os gêneros

Com livros de todos os gêneros, a biblioteca pública de Campinas do Sul recebe investimentos bimestralmente por parte da Secretaria Municipal de Educação, afim de que o acervo de obras seja renovado. O espaço conta ainda com 15 computadores com acesso à internet para pesquisas, além de uma funcionária que orienta os visitantes.
O local é frequentado constantemente por Mônica, personagem que abre esta matéria. Ela conta que antes de iniciar os estudos no curso de Licenciatura em História na Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) visitava a biblioteca de maneira mais assídua. Porém, o grande número de leituras teóricas a fez deixar de lado os livros de assuntos variados. “Hoje frequento mais nas férias, quando posso dar ‘uma arejada’ nas leituras e aproveitar as obras da biblioteca", conta.
Para a estudante, é indispensável que existam espaços públicos para a leitura nos municípios. “Não basta haver o incentivo à leitura nas escolas se, fora dela, não há como acessar os livros. É fundamental que existam bibliotecas como oportunidade para a população, seja para leituras recreativas ou mesmo para quem busca expandir horizontes”, pontua.
Erechim: mais de 130 visitantes diariamente
Com um acervo que ultrapassa os 30 mil exemplares, a biblioteca de Erechim recebe diariamente mais de 130 visitantes, número que chega a 200 em períodos de férias. O agente executivo do local, Fernando Barp, afirma que atualmente o espaço conta com 7,2 mil associados e obras de diferentes gêneros literários.
Entre os visitantes mais assíduos estão os jovens. “A maior procura é por livros de autores de sucesso, porém, para cada idade há um perfil. Enquanto os mais jovens buscam os best sellers, as crianças vão em busca dos livros infantis e os idosos optam pelos romances”, explica, ressaltando que o público infantil é bastante expressivo.
Barp salienta ainda que há também um grande número de universitários que procuram o local em busca de obras acadêmicas para a realização de trabalhos de faculdade. “Há também adolescentes que vêm ler ou retirar livros de literatura clássica. Assim aproveitam as leituras para estudar para vestibulares”, completa.
Viadutos: em breve um novo espaço

Atualmente a biblioteca pública de Viadutos funciona junto à Escola Municipal da cidade, na qual são os estudantes os principais visitantes. A maior parte do acervo é composta com obras destinadas aos públicos infantil e juvenil. Entretanto, ainda neste ano há previsão de inauguração de uma nova biblioteca que está sendo construída na Estação Ferroviária, junto com o futuro museu da cidade.
Para atuar no local, um bibliotecário, Thiago Menezes Cairo, já foi contratado. Hoje ele atende na biblioteca da escola e explica que no novo espaço haverá obras destinadas a todos os públicos. “Será uma biblioteca muito interessante, em um espaço diferenciado. Serão organizadas campanhas de incentivo à leitura para que este local seja amplamente visitado”, adianta.
Principal equipamento cultural que o município deve ter
De acordo com o diretor de Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas do Ministério, Volnei Canônica, o país não tem bibliotecas em número suficiente para atender a população. Ele destacou que a biblioteca é o principal equipamento cultural que o município deve ter e precisa ser preservado. “É o equipamento cultural que hoje chega ao maior número de pessoas. Não temos tantos museus quanto bibliotecas. Também não temos tantas salas de cinema. Então, cortar recurso para as bibliotecas é realmente cortar o maior e, às vezes, o único equipamento cultural que aquele município dispõe.” *Colaborou: Tiago Alves da Silva
