Ainda explorando o interesse em torno do filme “Odisseia”, de Cristopher Nolan, e preparando uma aula a respeito, lembrei de um disco, um disco de vinil que tenho em minha coleção: a trilha sonora do filme “Dead Man Walking”, dirigido por Tim Robbins em 1995. Para esse filme, foi composta pelo músico e ator estadunidense Tom Waits uma canção chamada “The Fall of Troy”, “A Queda de Troia”.
Tom Waits, nascido em 1949, é um artista “cult”, de nicho, relativamente desconhecido, mas de enorme relevância musical. Para quem nunca ouviu Tom Waits, imagine uma mistura improvável de Bob Dylan, Leonard Cohen, Charles Bukowski e Kurt Weill — tudo atravessado por uma voz que parece ter vivido mais vidas do que o sujeito que a carrega. Ou, por outra: Tom Waits é como se Bob Dylan tivesse passado uma noite num bar com Leonard Cohen, lido Bukowski no caminho para casa e acabado tocando Kurt Weill num cabaré alemão em ruínas. Trago, aqui, para a apreciação do caro leitor/a, uma tradução bem livre que fiz da letra da canção, está bem?
“A queda de Troia. É assim com os homens, como com cavalos e cães: ninguém quer morrer/ Ethel e James morreram num jogo, com armas grandes demais para suas mãos/ Logo depois de Saint Charles, na terra de ninguém/ E vocês vão ter que achar o próprio caminho de volta, rapazes/ Vão ter que achar o próprio caminho de volta para casa/ O mais velho era Troy, um rapaz de dezoito anos/ Mataram-no a tiros, em março, num assalto/ Os irmãos dele partiram rumo ao inferno e à ruína/ Os assassinos de Troy nunca foram encontrados, dizem/ O jovem Nick simplesmente se perdeu naquele dia/ Agora vai ter que achar o próprio caminho de volta, rapaz/ Vai ter que achar o próprio caminho de volta para casa/ Por que fazer o jantar?/ Por que arrumar a cama?/ Por que voltar para casa, afinal?/ Porta afora, através do mato, há um mundo onde nada cresce/ É difícil dar graças/ É difícil sentar à mesa no lugar de quem está faltando/ Mamãe, cabelo preso, o rosto entre as mãos, olhando para a televisão, procurando respostas sobre mim/ Afinal, ela é só humana/ E está tentando achar o próprio caminho de volta para casa, rapaz/ Está tentando achar o próprio caminho de volta/ Minhas pernas doem, meu coração está em carne viva, e o poço está cheio de moedas.”
Sim, talvez seja preciso respirar fundo, mais de uma vez, antes de ler de novo a letra da canção. Não é incrivelmente bonito que Tom Waits tenha apanhado Troia e a retirado da Antiguidade sem destruí-la? Como, talvez, o próprio Ulisses de Nolan, dominado pela culpa, tenha desejado? Troia deixa de ser apenas a cidade de Homero e passa a ser o nome de um rapaz de dezoito anos, morto em uma rua qualquer. E, de repente, a Odisseia deixar de ser a viagem de Ulisses, passando a ser também a pergunta desesperada, devastada, devastadora, de quem ficou esperando: essa mãe, essa Penélope diante não de um tear, mas de uma tevê ligada para nada, para ninguém.
O “move” poético de Tom Waits transforma a história monumental no destino individual, prosaico, de uma vida “comum” (com em Brecht); desloca o campo de batalha para o mundo moderno – e, ao mesmo, tempo, é como se nos soprasse: “Olhem para isso. Tudo é sagrado. Tudo importa.” Se a Ilíada termina antes da queda de Troia, e se a Odisseia começa depois da guerra, Tom Waits parece escrever o que acontece depois de todas as epopeias, depois dois heróis, depois da História. Parece posicionar-se ali onde só resta alguém fazendo o jantar, onde resta uma cama arrumada, uma cadeira vazia. E onde resta alguém tentando encontrar o caminho de casa (Lulu Santos: luz acesa e rango no fogão).
Troia, Troy, guerra, morte, casa, mãe, mesa, ausência, Odisseia... e nós. Um livro abre outro livro; uma canção abre Homero; Homero e Waits abrem uma questão antiga e contemporânea. Se Homero descreveu como um homem volta para casa, Tom Waits pergunta o que acontece com uma casa, uma Ítaca inteira, o mundo todo, quando aquele homem não volta.