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Saúde

Saúde mental depende de cuidados diários para prevenir quadros mais graves

Mudanças de comportamento e sofrimento persistente podem indicar a necessidade de apoio antes de uma crise

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Acompanhamento profissional ajuda a amenizar o sofrimento psicológico, pois ajuda no desenvolvimento
Por Marcelo V. Chinazzo
Foto Divulgação

O mês de setembro traz à tona a discussão sobre a saúde mental, conscientizando, através do conhecido Setembro Amarelo, sobre a prevenção ao suicídio. Há também um dia específico que aborda esse tema sensível, hoje, dia 10, é considerado o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio. Tratado como um problema de saúde pública, o suicídio está relacionado a fatores psicológicos, biológicos, sociais e econômicos e exige ações permanentes de prevenção.

O comportamento suicida pode envolver pensamentos sobre a própria morte, com ou sem planejamento, tentativas e episódios de autolesão. Cortes, queimaduras e mordidas, por exemplo, podem ser utilizados para lidar com sofrimento emocional intenso mesmo quando não existe intenção de morrer. Essas práticas são mais frequentes na adolescência e podem estar associadas a um risco maior de tentativa de suicídio.

Para a psicóloga Fernanda Lira, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e com atuação clínica junto a adolescentes e adultos, cuidar da saúde mental não significa eliminar problemas ou buscar uma felicidade permanente. “Manter a saúde mental em dia não significa viver em um estado constante de felicidade ou ausência de problemas. Na prática clínica e no dia a dia, significa desenvolver flexibilidade cognitiva e resiliência para lidar com os estressores, expressar e regular emoções de forma saudável e reconhecer os próprios limites”, explica.

Segundo a profissional, a saúde mental também está relacionada à maneira como pensamentos e comportamentos interferem nas relações, no trabalho e nos estudos. “Não existe divisão real entre corpo e mente: a saúde é integral. Quando cuidamos da mente, estamos prevenindo adoecimentos físicos e garantindo que a pessoa consiga usufruir de qualidade de vida em todas as suas esferas”.

Efeitos no corpo e na rotina

O sofrimento psicológico prolongado pode repercutir em diferentes aspectos da saúde física. Estresse, ansiedade e depressão podem manter o organismo em estado contínuo de alerta ou exaustão, afetando processos relacionados ao sono, alimentação e funcionamento do corpo.

“A mente e o corpo estão em constante comunicação. Quando enfrentamos quadros prolongados de estresse, ansiedade ou depressão, o organismo permanece em um estado contínuo de alerta ou exaustão, alterando a produção de hormônios como cortisol e adrenalina”, coloca Fernanda.

As consequências podem incluir insônia, sono não reparador, perda ou aumento do apetite, tensão muscular, dores de cabeça e nas costas e desconfortos gastrointestinais. Também podem ocorrer impactos nos sistemas cardiovascular e imunológico. No cotidiano, o sofrimento pode aparecer ainda como dificuldade de concentração, queda de rendimento, conflitos nos relacionamentos e isolamento.

Sinais podem aparecer antes de uma crise

A procura por atendimento psicológico não precisa ocorrer apenas quando o sofrimento chega a um nível considerado insuportável. Mudanças persistentes no comportamento e na rotina podem indicar a necessidade de atenção.

“O acompanhamento psicológico não deve ser encarado apenas como uma intervenção emergencial, mas também como prevenção e fortalecimento”, afirma a psicóloga.

Entre os sinais que merecem atenção estão alterações persistentes no sono ou no apetite, irritabilidade frequente, oscilações bruscas de humor, cansaço emocional, desânimo, falta de energia para atividades simples, preocupação excessiva e pensamentos acelerados. A perda de interesse por atividades que antes proporcionavam prazer, o isolamento social e a dificuldade recorrente de concentração também pode indicar que algo não vai bem.

Prevenção exige acompanhamento contínuo

A prevenção do suicídio depende de acompanhamento e de uma rede capaz de identificar precocemente situações de sofrimento. A Atenção Primária à Saúde, por meio das unidades básicas, tem papel na identificação de sinais de risco e no encaminhamento para outros serviços quando necessário. A rede de atenção psicossocial também integra esse atendimento.

“Prevenção é cuidado contínuo”, afirma Fernanda. Para ela, fortalecer vínculos, falar sobre sofrimento sem julgamentos, manter hábitos de autocuidado e procurar ajuda profissional diante de mudanças persistentes são medidas que podem contribuir para reduzir o agravamento dos quadros.

A prevenção também passa por hábitos que ajudam a preservar o bem-estar, como sono adequado, atividade física, descanso e lazer. O desenvolvimento de habilidades para reconhecer emoções, estabelecer limites e praticar autocompaixão pode ajudar a lidar com situações difíceis. A manutenção de vínculos com familiares, amigos e espaços comunitários amplia as possibilidades de apoio.

Em situações de risco de suicídio, a orientação é não deixar a pessoa sozinha e procurar atendimento de saúde imediatamente. Também é necessário reduzir o acesso a meios que possam ser utilizados em uma tentativa. “A prevenção é uma responsabilidade compartilhada: envolve a própria pessoa, sua rede de apoio e os serviços de saúde”.

Quando procurar ajuda

Nem sempre é fácil identificar a gravidade do próprio sofrimento. A ausência de uma crise evidente, porém, não significa que a busca por atendimento deva ser adiada.

“Perceber que a nossa saúde mental não está bem nem sempre é simples, mas o corpo, os pensamentos e o comportamento costumam dar sinais de que algo precisa de atenção”, explica Fernanda. “Não precisamos esperar o sofrimento se tornar grave para buscar ajuda. Se algo está causando angústia, persistindo ou interferindo na vida cotidiana, já é motivo suficiente para procurar apoio profissional”.

Familiares e amigos podem contribuir observando mudanças de comportamento, oferecendo escuta sem julgamentos e incentivando a busca por atendimento especializado. Falar sobre sofrimento, desesperança ou pensamentos relacionados à morte também deve ser levado a sério.

No Brasil, o Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece atendimento pelo telefone 188. A assistência também pode ser procurada em unidades de saúde, serviços de atenção psicossocial e com profissionais de psicologia e psiquiatria.

Prevenção não termina em setembro

No Rio Grande do Sul, as taxas de suicídio estão entre as mais altas do país. Por isso, o enfrentamento do estigma relacionado à saúde mental não deve ficar concentrado em campanhas de setembro. A prevenção depende de políticas e ações permanentes de saúde, educação e assistência social.

As condições em que as pessoas vivem também interferem na saúde mental. Acesso à educação, alimentação, trabalho, moradia e atendimento de saúde, assim como o enfrentamento da violência e da discriminação, fazem parte desse contexto. Situações como racismo, bullying, violência contra mulheres, abuso sexual, negligência contra idosos e discriminação contra pessoas LGBTQIA+ podem aumentar a vulnerabilidade ao sofrimento psicológico.

A comunicação sobre suicídio exige responsabilidade, com prioridade para informações que promovam a vida, orientação sobre onde buscar ajuda e cuidado para não expor detalhes desnecessários sobre mortes. Mais do que uma campanha anual, a prevenção depende de condições para que as pessoas reconheçam o sofrimento, encontrem acolhimento e tenham acesso ao atendimento antes que uma situação se transforme em crise.

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