A retina é uma fina camada de células localizada no fundo do olho e tem papel fundamental na formação da visão. É ela que recebe a luz e transforma essa informação em imagens que serão interpretadas pelo cérebro. "Por isso, a gente diz que a retina tem a maior função do nosso olho e desempenha o papel mais importante, porque é nela que se forma a visão", explica o médico oftalmologista Dr. Bruno Baldissera Toquetto, especialista em retina e vítreo da Clínica CODI.
Segundo o especialista, uma comparação simples ajuda a entender essa função. Em uma máquina fotográfica, a retina seria o sensor responsável por captar as imagens. Já em um carro, ela pode ser comparada ao motor, por ser a estrutura que permite o funcionamento adequado da visão.
Diabetes compromete os vasos sanguíneos da retina
Com o passar dos anos, principalmente quando o diabetes permanece descontrolado, a doença provoca alterações nos vasos sanguíneos, especialmente nos de menor calibre. Como a retina possui uma extensa rede de pequenos vasos, ela acaba sendo uma das regiões mais afetadas.
Esses vasos tornam-se frágeis, favorecendo pequenos sangramentos e vazamentos de líquido no fundo do olho. Entre as principais complicações está o edema macular, caracterizado pelo inchaço da mácula, a região central da retina responsável pela visão de detalhes.
Principal causa evitável de cegueira em adultos
A retinopatia diabética é considerada atualmente a principal causa evitável de cegueira em adultos. De acordo com o Dr. Bruno, estima-se que mais de 580 milhões de pessoas convivam com diabetes em todo o mundo, número que pode chegar a aproximadamente 850 milhões até 2050. A tendência de crescimento preocupa porque a doença pode provocar diversas complicações quando não é controlada adequadamente.
Entre as pessoas com diabetes, aproximadamente uma em cada quatro desenvolverá algum grau de retinopatia diabética. Também há estimativas de que um quarto desses pacientes poderá perder parte da visão ao longo da vida. "E a gente sabe que 90% disso seria evitável se fosse feito o controle certo, se fosse feito a investigação certa, os exames oftalmológicos anuais e periódicos. Por isso que isso é um problema de saúde pública, porque isso gera transtornos para o paciente, familiares, para a saúde pública, porque vai gerar problemas futuros. E a gente aqui está falando só do olho, só que como a gente tem vasos em todo o corpo, acaba afetando todo o corpo, então, fora o olho, tem várias outras coisas que o diabetes pode afetar", afirma o médico.
Alguns pacientes apresentam risco maior
Embora qualquer pessoa com diabetes possa desenvolver retinopatia diabética, alguns fatores aumentam esse risco. Pacientes com hipertensão arterial, colesterol elevado, doenças cardiovasculares, tabagismo e hábitos de vida pouco saudáveis apresentam maior probabilidade de desenvolver alterações na retina. Gestantes também merecem atenção especial, já que as mudanças hormonais da gravidez podem acelerar o aparecimento ou a progressão da doença.
Doença pode evoluir sem apresentar sintomas
Um dos maiores desafios da retinopatia diabética é que ela pode permanecer assintomática durante bastante tempo. Nas fases iniciais, pequenas hemorragias fora da região central da retina não costumam provocar alterações perceptíveis na visão. Por isso, muitos pacientes acreditam estar com os olhos saudáveis enquanto a doença avança.
Quando surgem os primeiros sintomas, geralmente a retinopatia já está em estágio mais avançado. Dr. Bruno explica que o principal sintoma inicial é a baixa visão. Além da visão embaçada, manchas escuras podem surgir quando a mácula passa a ser comprometida pelo edema ou por outras alterações decorrentes da doença.
Consulta não deve esperar os sintomas
As recomendações variam conforme o tipo de diabetes. Pacientes com diabetes tipo 1 devem realizar avaliação oftalmológica cinco anos após o diagnóstico. Já quem recebe diagnóstico de diabetes tipo 2 deve procurar um oftalmologista imediatamente, mesmo sem apresentar qualquer sintoma. "Não precisa ter nenhum sintoma. Quando é descoberto o diabetes, o ideal é que já se faça uma consulta para ver se não tem alterações no fundo do olho", salienta o oftalmologista.
Após essa primeira avaliação, o acompanhamento anual é indicado para todos os pacientes com diabetes bem controlado. Caso exista retinopatia diabética, os retornos passam a ser definidos conforme a gravidade do quadro, podendo ocorrer a cada seis meses, três meses ou em intervalos ainda menores durante o tratamento.
Exames são rápidos e ajudam no diagnóstico precoce
O diagnóstico começa durante uma consulta oftalmológica convencional, por meio da avaliação do fundo do olho e do mapeamento de retina, exames rápidos e indolores que exigem apenas a dilatação da pupila com colírio.
Outros exames também auxiliam na avaliação da doença, como a retinografia, que registra imagens do fundo do olho para comparação ao longo do tempo; a angiografia fluoresceínica, realizada com contraste para analisar a circulação dos vasos; e a tomografia de coerência óptica (OCT), capaz de visualizar detalhadamente as camadas da retina e acompanhar o edema macular.
Controle do diabetes
Manter a glicemia controlada continua sendo a principal medida para reduzir o risco de retinopatia diabética, mas não é a única. O controle da pressão arterial, colesterol, doenças cardiovasculares, alterações da tireoide e outros problemas de saúde também influencia diretamente na evolução da doença. Além disso, abandonar o cigarro e adotar hábitos saudáveis ajudam a reduzir o risco de agravamento.
Tratamentos
Os tratamentos atuais são baseados em três principais recursos: aplicação de laser, injeções intraoculares de medicamentos antiangiogênicos e cirurgia de retina.
O laser continua sendo uma ferramenta importante para interromper a progressão da doença, já as injeções de medicamentos antiangiogênicos representam um dos maiores avanços da oftalmologia nas últimas décadas, principalmente para pacientes com edema macular.
Segundo o especialista, além de controlar a doença, essas aplicações conseguem recuperar parte da visão comprometida em muitos pacientes. Nos casos mais graves, quando há grandes hemorragias, descolamento de retina ou outras complicações mecânicas, a cirurgia passa a ser indicada. "Mas geralmente a cirurgia é um estágio que a gente não quer chegar, mas hoje com as técnicas cirúrgicas mais modernas, a gente consegue até devolver a visão para o paciente", aponta.
Diagnóstico precoce aumenta as chances de preservar a visão
Quando o tratamento começa nas fases iniciais, a possibilidade de evitar a perda visual é bastante elevada.
Segundo o médico, identificar precocemente os pacientes que necessitam de laser ou das aplicações intraoculares permite controlar a doença antes que ocorram danos permanentes. "Talvez esse seja o mais importante de tudo, consultar antes de acontecer alguma coisa no fundo do olho".
Inteligência artificial amplia a detecção precoce
Os avanços mais recentes estão relacionados tanto aos medicamentos quanto às tecnologias de diagnóstico. Novos antiangiogênicos permitem intervalos maiores entre as aplicações e oferecem melhor controle do edema macular.
Outra inovação é o uso da inteligência artificial na análise de fotografias do fundo do olho. Em regiões com menor acesso a especialistas, essa tecnologia já consegue identificar sinais iniciais de retinopatia diabética e encaminhar os pacientes para atendimento especializado.
Injeções no olho são seguras e praticamente indolores
Apesar de despertarem receio em muitos pacientes, as aplicações intraoculares são realizadas com anestesia local, em ambiente adequado e utilizando agulhas extremamente finas. "E quando aplicado com profissionais dedicados, que sabem o que estão fazendo, é muito tranquilo para ser feito", lembra o médico.
O número de aplicações varia conforme a resposta ao tratamento. Alguns pacientes necessitam de três injeções mensais, enquanto outros precisam de um acompanhamento prolongado, com aplicações periódicas ao longo dos anos.
Também estão em estudo dispositivos implantáveis capazes de liberar o medicamento lentamente, reduzindo a necessidade de injeções frequentes. A tecnologia já é utilizada em alguns países, mas ainda não possui aprovação para uso no Brasil.
Prevenção continua sendo o melhor caminho
Para o especialista, o cenário atual da oftalmologia permite evitar a maior parte dos casos de cegueira relacionados ao diabetes, desde que o diagnóstico seja realizado precocemente e o tratamento seja iniciado no momento adequado.
"Hoje com tanta tecnologia, com tanto tratamento novo e medicamento novo que tem, a gente não pode perder a visão de um paciente com retinopatia diabética ou num paciente diabético, porque se a gente prevenir e vier consultar o quanto antes, a gente consegue salvar o olho desse paciente, a gente consegue melhorar a visão", conclui Dr. Bruno.