A curiosidade nos leva a descobertas interessantes.
A curiosidade sempre foi em mim, um oceano sem medidas. Tudo merecia um “por quê?” ou um “como?”, ainda hoje.
Quando bem garotinha, intrigava-me as lágrimas vertidas por alguém. De onde sairia tanta água? Qual o sentir - doer ou arder - que provocaria a abertura da torneira que cada um devia ter dentro de si?
No desenrolar da vida fui aprendendo, sentindo e concordando ou negando. Percebendo tudo.
Ao nascer, há a expectativa de se ouvir o choro do bebê. Quando ele brota vigoroso, há alívio, pois significa que saiu de pulmões fortes.
A mãe chora sofrida durante o parto, mas o pranto se transforma em lágrimas de alegria ao ver seu bebê. Com diferença de minutos, tudo muda!
Nas lembranças de meninice, havia uma oração que dizia ser nossa vida “um vale de lágrimas!”. Quantas perguntas fiz a uma catequista sobre o assunto!
Eu não sabia nadar, temia a água funda. O que seria do meu caminhar nesse vale? As respostas não me satisfaziam nunca.
Fui encontrando e enfrentando o referido vale ao longo da vida.
As lágrimas começaram a brotar, teimosas, muito cedo. Com motivo ou às vezes sem.
Lembro uma vez por mês, resmungávamos, mas não adiantava chorar. Meu pai nos colocava de pé, minha irmã e eu, e dizia “fechem o nariz com os dedinhos e engulam rápido”. Colocava uma generosa colherada de óleo de rícino em nossa boca. Para tentar minorar o suplício, nos oferecia meio copo de guaraná Antártica. Não eliminava o gosto do óleo.
Lágrimas brotavam, às escondidas. As sensações começavam a ser compreendidas. Não tomei guaraná desde a adolescência. Más lembranças, não me permitem.
Caminhando, vivendo, aprendendo, fui percebendo o porquê do choro. Tempos anteriores eu acreditava no que dizia a ciência de sermos seres constituídos de grande porcentagem de água. Conclusão simplista demais.
Quando chegou a hora das partidas de seres queridos. Quando houve o encontro com as traições, humilhações, os usos indevidos de nossas obras, não houve quem fechasse a torneira. Lágrimas doloridas ou raivosas brotaram do mar infindo de meu ser. Lágrimas que se transformaram em pranto incontido.
Durante o segundo grau, uma colega chorava ao receber notas ruins, levando um generoso professor a torná-las melhores. Comentava-se na sala “são lágrimas de crocodilo!”. Eu, já raciocinava: crocodilo? Preciso entrevistar um e fazê-lo derramar uma lágrima para crer! Sim, pois, no meu futuro de pesquisadora pertinaz e responsável, quanta lágrima eu vi brotar ao gravar entrevistas principalmente com descendentes de imigrantes e com os inúmeros imigrantes que tive a graça de ouvir suas histórias. Era o pranto real, emocionado de seres com imensa humanidade e milhares de perdas e ganhos. Não eram lágrimas hipócritas e superficiais.
Eu sempre observava atores e atrizes, quando choravam. E, analisava: não é pranto. É uma lágrima artificial, afirmando-me com certeza de que ao verter um pranto doloroso ou de linda emoção, até o nariz chora. O nariz também demonstra sentimento. Quando o nariz não umedece, é porque faltou a real emoção. Talvez, ai caiba o dito: lágrima de crocodilo!
Hoje sei distinguir lágrima de pranto e aprendi a causa. Choramos por sermos humanos, com ternura, generosidade e raiva, não somente por sermos constituídos por tanto por cento de água.
Depois de tanto questionar, aprender, desaprender, equivocar-me, retroceder, esperar, não conseguir, sentindo que por vezes não valeu a pena, chorando rios, percebi que foi o meu lacrimejar que me conduziu até o meu agora. Não é lamento. É simples constatação.
Porém, o lamentável, o pior dessa chegada de caminhada é constatar o desinteresse assustador pelo labor dos antepassados, o pouco valor ao patrimônio, a família, a ética, enfim os valores que foram a lastro das sociedades.
Hoje, no meu agora, choro de vergonha do apocalipse intelectual em que foram esmagadas inúmeras nascentes brilhantes inteligências.
Choro todas as lágrimas e o pranto mais verdadeiro, assistindo nossa incapacidade de interromper a queda de nossas fortalezas morais, intelectuais, e de nossa coragem. Choro a vergonha de perceber a atmosfera inadmissível onde existe a aceitação do desrespeito, da falta de cultura, da moral, da religiosidade e do desmanche de nosso idioma.
Mas, também há muito pranto e lágrimas na esperança de um novo porvir.