No dia 28 de março, o SUTRAF Alto Uruguai completa 23 anos de atuação, momento que marca uma trajetória construída a partir da organização coletiva, da luta por direitos e do compromisso com a agricultura familiar na região.
Uma história que começa antes de 2003
Fundado em 28 de março de 2003, o SUTRAF Alto Uruguai é resultado de mais de seis décadas de organização sindical da agricultura familiar. Sua origem está ligada ao chamado Novo Sindicalismo, que, a partir do final da década de 1970, passou a questionar o modelo assistencialista e construir um sindicalismo combativo, baseado na participação e na luta por direitos.
A partir da união de sindicatos municipais e da mobilização das famílias agricultoras, foi construída uma organização regional forte, capaz de representar a categoria e disputar políticas públicas nos âmbitos municipal, estadual e federal.
Hoje, o SUTRAF representa mais de 14 mil famílias agricultoras e é reconhecido como uma das maiores organizações da agricultura familiar no Brasil.
Conquistas que mudaram a vida no campo
Se hoje a agricultura familiar tem direitos, políticas públicas e reconhecimento, isso não aconteceu por acaso. Tudo é resultado da organização coletiva e da luta sindical.
Entre as principais conquistas estão a Previdência Social Rural, que garantiu aposentadoria para homens e mulheres, salário maternidade e pensão; o Sistema Único de Saúde (SUS); o PRONAF, que viabilizou o acesso ao crédito; e o seguro agrícola, fundamental para proteger a renda das famílias diante das perdas climáticas.
Essas políticas têm impacto direto na vida das famílias e na economia regional. Só a Previdência Rural movimenta cerca de R$ 550 milhões por ano no Alto Uruguai. Outra conquista importante é a habitação rural. Ao longo dos anos, foram construídas mais de 3.100 moradias no meio rural na região, garantindo dignidade, segurança e melhores condições de vida para quem vive e produz no campo.
História construída com luta e organização
O coordenador geral do SUTRAF Alto Uruguai, Alcemir Bagnara, destaca que a trajetória sindical reflete a resistência da luta no campo. “Os 23 anos do SUTRAF Alto Uruguai representam muito mais do que uma data. Representam uma história construída com luta, organização e participação das famílias agricultoras. Ao longo dessa trajetória, nada veio fácil. Cada direito que hoje faz parte da vida de quem vive no campo - como a aposentadoria rural, o acesso ao crédito, o seguro agrícola e outras políticas públicas - é resultado direto da mobilização e da organização coletiva. Essa caminhada foi construída por muitas mãos, por homens e mulheres que deixaram suas propriedades e suas famílias para lutar por um futuro melhor, enfrentando dificuldades e, muitas vezes, até a falta de reconhecimento. Por isso, este também é um momento de agradecer a todos os agricultores e agricultoras, lideranças, mulheres e jovens que ajudaram a construir essa história. E reafirmar que, diante dos desafios que seguem no campo, é a organização que vai continuar garantindo direitos e construindo um futuro melhor para a agricultura familiar.”
Além disso, o sindicato teve papel fundamental na organização da produção, no fortalecimento de cooperativas, agroindústrias e espaços de comercialização, aproximando quem produz de quem consome e fortalecendo a renda das famílias.
Organização que se constrói no dia a dia
A força do SUTRAF não está apenas nas grandes mobilizações, mas também no trabalho de base, construído diariamente nas comunidades.
Hoje, o SUTRAF está presente em 26 municípios e conta com 20 sedes municipais, distribuídas em toda a região: Aratiba, Áurea, Barra do Rio Azul, Campinas do Sul, Centenário, Cruzaltense, Entre Rios do Sul, Erebango, Erechim, Erval Grande, Estação, Floriano Peixoto, Gaurama, Getúlio Vargas, Itatiba do Sul, Jacutinga, Marcelino Ramos, São Valentim, Severiano de Almeida e Três Arroios.
Essa estrutura garante a presença do sindicato no dia a dia das comunidades, aproximando a organização das famílias agricultoras e fortalecendo o trabalho de base com a promoção de diálogo, atividades e prestação de serviços.
Foi essa organização que permitiu que a agricultura familiar deixasse de ser invisível e passasse a ser reconhecida como uma categoria produtora de alimentos, social, econômica e política.
Desafios e caminhos para o futuro da agricultura familiar
Mesmo com avanços importantes ao longo dos anos, os desafios seguem sendo grandes e cada vez mais complexos.
As mudanças climáticas, com estiagens frequentes e eventos extremos, impactam diretamente a produção e a renda das famílias agricultoras. Ao mesmo tempo, o aumento dos custos de produção, a instabilidade dos preços e as dificuldades de acesso e continuidade de políticas públicas colocam em risco a sustentabilidade da agricultura familiar e a qualidade de vida de quem vive no campo.
Diante desse cenário, o papel da organização sindical segue sendo fundamental. Nos últimos anos, o SUTRAF esteve na linha de frente na mobilização contra a retirada de direitos, como nas lutas contra a reforma da Previdência, além de atuar na construção, negociação e apresentação de pautas para enfrentar crises e garantir condições para as famílias agricultoras.
Mais do que resistir, o momento também exige construir novos caminhos.
O sindicato vem atuando na construção de alternativas para fortalecer a autonomia das famílias, especialmente por meio da mudança no modelo produtivo. Iniciativas como o SPDH+, a homeopatia e o uso de bioinsumos apontam para um sistema mais sustentável, com redução de custos, menor dependência de insumos externos e maior cuidado com o solo e a saúde.
Também seguem como desafios centrais a reconstrução e o fortalecimento de políticas públicas, a garantia de renda, o acesso à terra e a permanência das novas gerações no campo.
Mais do que nunca, será a organização coletiva que permitirá enfrentar esses desafios, melhorar a qualidade de vida no meio rural e construir um futuro sustentável para a agricultura familiar.
Uma história construída por muitas mãos
Os 23 anos do SUTRAF Alto Uruguai representam a continuidade de uma história feita por homens e mulheres que se organizaram, lutaram e conquistaram direitos. Uma trajetória que mostra que nenhum avanço veio por acaso - tudo foi resultado de organização, mobilização, participação e luta coletiva. E que segue sendo construída todos os dias, com o mesmo compromisso: fortalecer a agricultura familiar, garantir dignidade para quem vive no campo e produzir alimentos para toda a sociedade.