Sabe aqueles dias em que acordamos e pensamos no que vamos fazer de diferente, que faça valer cada minuto e que dê resultados inesperados? Pois é, este foi um dia em que foquei em fazer algo diferente e, para tanto, fui até a comunidade de ciganos que está acampada junto a antiga estação férrea de Erechim. Hoje ocupada por eles e por indígenas oriundos do município de Charrua se torna um verdadeiro bairro em pleno centro da cidade.
Mas, diferente como muitos falam na cidade, de que o local é insalubre, não tem higiene ou estrutura, para quem conhece a fundo e saboreia um bom café com membros da comunidade, que na realidade são todos uma única família, se depara com algo bem diferente, ou seja, organizado, limpo, com suas regras e, principalmente, com os filhos na escola.
Enquanto os homens seguem a labuta para vender produtos na cidade, as mulheres ficam em casa, ou seja, nas barracas individuais de cada família, cuidando do lar e as crianças têm seu tempo de lazer e educação escolar. Ou seja, tudo segue a normalidade como se fosse uma casa ou um apartamento fixo, mas não, como o próprio cigano fala, a vida é nômade, livre de locais fixos, ou seja, alguns meses aqui, outros acolá neste Brasil afora.
Mas para sabermos mais sobre a comunidade que hoje está em solo bota amarela, falamos com o chefe da família de ciganos André Galvão, 28 anos que garantiu que a família cigana vem a Erechim já faz 50 anos, ou seja, já criaram laços por aqui, possuem imóveis de aluguel e compram e geram renda no comércio local, seja lojas de vestuários, supermercados, fruteiras, lojas de veículos e outros tantos estabelecimentos do comércio. Como ele mesmo diz, temos recursos para comprar imóveis, mas preferimos a liberdade de estarmos em vários lugares. “Somente em uma única compra nas Casas Rayon gastamos aproximadamente R$ 15 mil”.
“Temos um forte vínculo com Erechim, com muitas amizades que seguem ao longo dos anos, seja no comércio como na política (vereador Claudemir de Araújo). Aqui é nosso lugar, não pegamos nada de ninguém, ou seja, chegamos, ficamos um tempo e depois vamos embora”. Em Erechim faz três meses que estão acampados e vivem como uma espécie de cooperativa, vendendo tapetes, panelas e colchas. “Tudo aqui vem do nosso ganha pão”.
Dentro da comunidade, André destaca que todo mundo trabalha e todas as crianças estão na escola. De Erechim a rota escolhida é Porto União no Paraná, onde já estão com local garantido pela prefeitura municipal daquele município. “Somos itinerantes, não temos um lugar fixo, não conseguimos viver preso dentro de uma casa”.
Mas, como é a vida de um cigano, tipo aquele que víamos em filmes e novelas de dramaturgia? Para André o preconceito ainda é muito grande. “Quebra uma coisa foi o cigano que fez”. Para ele muitas pessoas não sabem de seus costumes e de suas leis. “Já houve alguém que chegou aqui e quis nos tirar, mas nós ficamos pouco tempo, e neste tempo nós pagamos água e luz para a prefeitura para termos nossa estrutura para viver, pois é nossa casa, sem falar que temos uma história com Erechim desde que montávamos acampamento no bairro Presidente Vargas. Somos uma família só, não temos desgarrados em nosso acampamento, viajamos todos juntos, ninguém larga um do outro. Quando alguém vem a falecer é enterrado no cemitério da cidade onde se encontra e como de costume dos ciganos, todos os pertences são queimados, não deixando rastro para trás. Um ritual que acontece desde a saída do povo cigano na antiga Roma, Itália. Minha mãe e meu tio estão enterrados em Erechim”.
Com relação as crianças, André destaca que elas aprendem a cultura desde cedo e que até os 18 anos ficam na responsabilidade dos mais velhos, após isso podem seguir seu caminho para escolher novas alternativas ou continuarem a seguir com a comunidade na vida nômade. “Damos toda a educação para que possam escolher o que ser na vida, seja médico, professores ou qualquer outra profissão”.
Origem dos ciganos na humanidade
Os ciganos, também conhecidos como povo romani, têm origem na região do noroeste da Índia, mais especificamente em áreas que hoje correspondem aos estados de Rajasthan e Punjab. Essa origem foi comprovada por estudos linguísticos (a língua romani tem raízes no sânscrito) e pesquisas genéticas modernas
Migração ao longo dos séculos
Por volta dos séculos IX e XI, grupos começaram a migrar da Índia em direção ao Ocidente. O trajeto mais aceito foi: Índia, Paquistão e Irã, depois passaram pelo Império Bizantino, chegando à Europa por volta do século XIV.
Por que migraram?
Não existe uma única resposta definitiva, mas os principais fatores foram as invasões e conflitos na Índia medieval, busca por sobrevivência e deslocamentos forçados ao longo do caminho
Quando chegaram à Europa, os ciganos foram inicialmente associados ao Egito, daí vem o termo “gypsy” (de “Egyptian”), embora isso esteja incorreto. Com o tempo foram se espalhando por vários países, mantiveram tradições próprias e desenvolveram diferentes subgrupos culturais
Principais grupos ciganos
Ao longo da história, surgiram diferentes ramificações: Roma (maior grupo, espalhado pela Europa), Sinti (mais comuns na Europa Central) e Calon (presentes em países como o Brasil)
Perseguições históricas
A história dos ciganos também é marcada por discriminação, expulsões e perseguições na Europa, escravidão em países do leste europeu e genocídio durante a Segunda Guerra Mundial. No Brasil, os primeiros grupos chegaram ainda no período colonial, muitas vezes enviados por Portugal.