21°C
Erechim,RS
Previsão completa
0°C
Erechim,RS
Previsão completa

Publicidade

Opinião

Empreendedorismo e Escolarização, quais as relações?

teste
Alencart Loch e Rodrigo Sartorio.jpeg
Por Alencart João Loch – Coordenador Regional de Educação Adjunto – 15° CRE; Rodrigo Sartorio – Analista de Educação – 15°CRE – Erechim
Foto Arquivo pessoal

  Uma opinião comum em relação ao que é ensinado nas escolas é de que os tópicos e conteúdos não servem para a vida, para empreender ou para uma boa inserção no mercado de trabalho. Podemos analisar essa crença de diferentes formas.

Não estudamos algo apenas para aplicar, mas, primeiramente, para desenvolver áreas do cérebro, tornar nossos sistemas cognitivos mais sofisticados e, por último, para se apropriar dos conhecimentos seculares que a escolarização propicia. Exemplo vem do ensino de matemática: alguém imagina ser um empresário ou colaborador bem sucedido, e pertencer a uma empresa em crescimento e expansão sem saber a tabuada, regra de 3, juros simples e compostos, matriz de custos, equações?

            O mesmo vale para os jogos, de normas e regras, cognitivos, didáticos e, discussões em grupos organizados sobre história, geopolítica, ciências, são treinamentos de habilidades e competências para antecipar resultados danosos dos atos, treinar a frustração, enfrentar um dilema moral, buscar a solução para um problema, e que o cérebro esteja preparado para isso. É o “pensar fora da caixa”. Alguém imaginaria empreender, em um mundo globalizado, sem conhecimentos sobre geopolítica, história e seus impactos na economia?

            Outro aspecto importante, que advém do anterior, é que a escolarização produz discernimento. Quando estudamos os conteúdos escolares, como história, geografia, literatura, as linguagens em geral (Língua Portuguesa, Língua Estrangeira, Artes, Educação Física), exercitamos habilidades e áreas do cérebro necessárias para, por exemplo, distinguir fato de opinião, a habilidade com maior dificuldade nas provas avaliativas externas da educação básica. Porque no mundo das redes sociais, tudo é fato, tudo é apresentado como verdade. Isso tem impacto negativo no exercício da cidadania, no cuidado com os filhos, com a própria saúde. Sabemos, por exemplo, que a falta de habilidades leitoras e interpretativas amplas na população aumentam os gastos com saúde e dificultam a prevenção e cura de doenças simples.

            Habilidades leitoras e interpretativas são fundamentais na leitura de manuais e textos próprios da vida empresarial, são imprescindíveis para compreender um material de tributação ou, a implementação de um sistema de gestão. Ainda mais básico, pode facilitar a organização de produtos nas prateleiras de um estoque e de serviços em uma dada empresa.

            Com o advento das redes sociais digitais e do chamado empreendedorismo, perece que todo mundo vai virar influencer e empresário, e o mais interessante, sem saber matemática, sem saber escrever corretamente e, sem habilidades leitoras sofisticadas e discernimento acerca das informações recebidas. Nem vamos tratar do absurdo que é comparar o mundo perverso e consumista das redes sociais, com a importância dos ambientes educacionais formais.

            Para os professores e professoras, que trabalham com estudantes desmotivados e com ideias equivocadas sobre empreendedorismo e mercado de trabalho, resta destacar a importância da aquisição de habilidades, vestindo conteúdos com uma roupagem empreendedora, de mudanças para a vida. É o mesmo conteúdo trabalhado, mas mostrando as habilidades adquiridas e, inclusive, seu caráter prático, para a vida de empreendedor, quando possível.

            Para muitas famílias, a inserção dos jovens no mercado de trabalho, muitas vezes, não é escolha, mas necessidade. Em um passado recente, ter os filhos formados, com mais estudos do que as gerações anteriores, era um esforço supremo e uma meta para qualificação e inserção positiva no mercado de trabalho, hoje, em muitos lares, a escola e os estudos são meros depósitos, uma burocracia imposta, sem a dimensão da importância da escolarização com excelência para as vidas cotidianas, para a saúde, bem-estar, diminuição da violência e para alavancar as famílias em termos socioeconômicos, seja como colaboradores ou como diretor executivo de uma empresa.

            Para concluir, é bem verificada a máxima de que sociedades mais literárias são sociedades menos violentas. Literatura psicologicamente rica. De preferência, livros físicos, para dirimir os efeitos detratores e desmotivadores dos aparelhos digitais. Não à toa, muitos países ricos e bem desenvolvidos estão paulatinamente retirando interfaces digitais das aprendizagens nas escolas, tendo o letramento digital incluso no currículo, mas de maneira objetiva e pontual, com caráter formador, já que não pretendemos criar novas gerações sem tais saberes e práticas.

            A escolarização é o caminho mais correto, ainda que não o mais imediato, para formar empreendedores, cidadãos e seres humanos, o ponto de convecção das nossas misérias todas.

;