Esse final de semana foi um pouco diferente, posso dizer que foi o final de semana do amor. Em um dia, a comemoração de uma Bodas de Ouro e no outro, o Dia das Mulheres.
Cinquenta anos de casamento não são cinquenta dias e ao longo desse tempo, muitas coisas aconteceram, momentos bons e também difíceis. Hoje em dia, relações tão duradouras se tornaram mais raras por diversos motivos e um deles é que, cada vez menos as mulheres aceitam violência, traição e falta de respeito, o que é extremamente positivo, válido e necessário, afinal, não faz tanto tempo assim, os casamentos eram arranjados, davam plenos poderes aos maridos, anulando e maltratando as mulheres em todos os sentidos, com raras exceções. É também por essas razões que o dia 8 de março ainda se faz tão necessário. Não se trata apenas de comemoração ou presentes, algo que, talvez, muita gente ainda não tenha entendido. Por outro lado, quando presenciamos momentos como uma relação bonita, de amor, construída ao longo do tempo e, apesar dos pesares, genuína e respeitosa, é preciso comemorar.
Uma relação matrimonial pode ser composta por dois homens, por duas mulheres ou por um homem e uma mulher, o que realmente importa é que se amem, se respeitem e sejam felizes, porém, é sempre construída por duas pessoas e nunca dará certo se for feita por apenas uma delas. O Dia das Mulheres, nesse sentido, é semelhante, é um dia dedicado para as mulheres, mas também precisa ser construído pelos homens. De nada adianta criarmos mulheres fortes se essa força for resultado da violência que nós, homens, cometemos. Que elas sejam fortes, sim, mas não pelo medo que sentem de nós, e sim simplesmente por serem fortes. Que elas nunca mais precisem se defender dos homens, porque estamos criando meninos conscientes e respeitadores. Também não adianta incentivarmos mulheres a se sentirem capazes de tudo se, todos os dias, as descapacitamos com atitudes e comportamentos. Que sejam capazes não apenas por se sentirem assim, mas por realmente serem, sem precisar provar nada a nenhum de nós, porque estamos criando meninos que potencializam a capacidade de uma mulher e não a diminuem apenas por serem mulheres. O Dia das Mulheres jamais será plenamente feliz enquanto os homens não forem educados de forma diferente, longe do machismo que ainda mata todos os dias.
No mesmo momento em que se educa uma menina para ser forte, deve-se educar um menino para respeitá-la. Quando se educa uma menina para ser capaz, é preciso educar um menino para incentivá-la. Quando se educa uma menina para desenvolver autoestima e confiança, também é necessário educar um menino para reconhecer e valorizar as qualidades das mulheres.
E quando se educa uma menina para ser firme e dizer não, é fundamental educar um menino para ouvir e respeitar esse não e compreender que ele não tem poder sobre ninguém. Um não, não é o fim do mundo, é apenas um limite e aprender a lidar com limites também faz parte do crescimento emocional.
Precisamos criar meninas e meninos que se respeitem mutuamente, que reconheçam suas qualidades, trabalhem seus defeitos, compreendam suas emoções e cresçam juntos. Talvez assim possamos, um dia, desejar um feliz Dia das Mulheres sabendo que a violência de gênero e o feminicídio ficaram como uma parte obscura, porém superada, da nossa história. Utopia? Talvez. Mas não custa acreditar. Tenho um filho menino e procuro fazer minha parte todos os dias, educando-o para respeitar as mulheres e para desenvolver inteligência emocional ao lidar com seus próprios sentimentos e frustrações. Se cada um fizer a sua parte, acho que podemos, sim, sonhar.
Mas voltando ao amor, aquele que já dura há cinquenta anos e também aquele que precisamos cultivar nas relações e na forma como acolhemos as mulheres, Freud dizia que o amor é uma das forças mais vitais da natureza e, pensando bem, é preciso muita força para unir personalidades diferentes. Não me refiro a uma força que obrigue ou imponha algo sem consentimento, mas uma força positiva, a de manter duas pessoas diferentes, que querem estar juntas, lado a lado, descobrindo no dia a dia como seguir assim, alimentando o amor e o respeito que já existem, apesar das diferenças. Quando Lacan afirma que “amar é dar o que não se tem a alguém que não o quer”, a frase pode soar pessimista ou até um pouco sem nexo, mas talvez ela apenas nos lembre que o amor verdadeiro não se constrói exibindo qualidades como se fossem troféus na estante, muitas vezes, é justamente ao compartilhar nossas faltas e vulnerabilidades que uma relação se fortalece.
Para além de cientistas, psicólogos, pesquisadores e poetas, um matemático já dizia que todo vetor se define por intensidade, sentido e direção e, talvez o amor também funcione assim, com intensidade para sustentar o vínculo ao longo do tempo, com direção para que duas vidas caminhem com um propósito comum e com sentido para lembrar, mesmo nas diferenças, por que escolheram seguir juntas. E, assim como nos vetores, quando duas forças caminham na mesma direção, o resultado não é divisão, é movimento. Por isso acredito que homens e mulheres devam caminhar juntos, com apoio e respeito mútuo, tanto nas relações amorosas quanto nas sociais. E cabe a nós educarmos as próximas gerações para isso. Afinal, como já comentei outras vezes, a educação de uma geração ainda ecoa nas próximas três.