Em vez de presentear com flores, reveja suas atitudes naquele momento em que seu colega de trabalho fez comentários sobre o corpo de uma mulher, sem pudor algum, e você ouviu calado.
Em vez de dar um bombom, lembre daquele dia em que você reduziu o posicionamento de uma mulher a uma “crise de TPM”.
Em vez do cartãozinho com frase pronta, reflita sobre quantas mulheres você admira, exceto mãe, irmãs, esposa...
Em vez de um jantar em restaurante caro, pergunte-se: quantas vezes na semana você dividiu os afazeres da casa sem transferir toda a responsabilidade do lar para a sua companheira?
Em vez de dar um vestido lindíssimo, o que você fez quando viu um conhecido “cantar uma novinha”?
O 8 de março, Dia Internacional da Mulher, assim como tantas outras datas, virou sinônimo de “dar de presente”. Mas não se trata de um dia comemorativo, como o Dia das Mães. Há tempos ocorre um apagamento do que essa data significa. Oficializada pela Organização das Nações Unidas na década de 1970, ela marca conquistas sociais, políticas e econômicas das mulheres e reforça a luta contra a desigualdade de gênero e a violência. O dia simboliza a força, a persistência e as greves de trabalhadoras do início do século XX, para que mulheres hoje pudessem usufruir dos seus direitos, que mesmo conquistados arduamente, vivemos em xeque.
Se hoje as notícias nos aterrorizam com a crescente onda de feminicídios no Brasil, imagine um período em que os direitos dessas mulheres eram inexistentes. Quantas lutaram para conquistar o mínimo? Quantas morreram injustamente? E, ainda assim, mesmo depois de tantas batalhas, muitas de nós continuam sendo mortas, violentadas, agredidas.
Há quem defenda penas mais severas, concordo. Há quem fale em pena de morte para agressores, mas matar esses homens diminuiria a violência de gênero? Não. Enquanto a ideia do feminino ser visto como inferior permanecer enraizado na sociedade, as mulheres continuarão morrendo.
Enquanto homens se protegerem nessa rede confortável de silêncio, presenciando comentários, piadas e comportamentos que diminuem mulheres sem dizer nada, continuarão alimentando a ideia de que têm autoridade sobre nós.
Enquanto um homem receber mais do que uma mulher exercendo a mesma função.
Enquanto a mulher seguir sendo a principal responsável pela casa e pela criação dos filhos.
Enquanto meninos forem ensinados a rejeitar tudo o que é associado ao feminino.
Agressores continuarão existindo.
A luta por dignidade e respeito é diária. Passou por minhas avós, por minhas tias, por minha mãe, por minhas amigas. Passa por mim. Mulheres atravessadas todos os dias por um sistema que ainda nos mede, nos julga, nos silencia.
Então, em vez de flores, mude a postura.
Em vez de presentes, mude o comportamento.
Respeito não se entrega em embalagem. Se pratica todos os dias.