As datas de 27 e 29 de setembro, respectivamente o Dia Nacional da Doação de Órgãos e o Dia Mundial do Coração, chamam atenção para duas questões fundamentais, tanto o cuidado com a saúde cardiovascular, quanto a conscientização sobre a doação de órgãos. Entre as doenças cardíacas, estão aquelas presentes desde o nascimento, as cardiopatias congênitas.
Segundo a Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (SOCESP), o Brasil registra cerca de 28 mil novos casos de cardiopatias congênitas por ano. Desse total, a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) estima que 80% necessitam de cirurgia, metade delas ainda no primeiro ano de vida. Um artigo da SOCESP ainda indica que de 20% a 30% dos nascidos vivos com essas condições apresentam defeitos estruturais graves.
Cardiopatias congênitas
A médica cardiologista Dra. Ziliola Taglietti explica que a “cardiopatia congênita é o termo utilizado para descrever doenças do coração que estão presentes desde o nascimento, ou seja, são condições que se desenvolvem enquanto o coração do bebê está sendo formado durante a gestação”.
Os sintomas podem variar de acordo com o tipo e a gravidade, mas os principais incluem falta de ar, cansaço, respiração acelerada (taquipneia), dificuldade na alimentação, cianose (coloração arroxeada dos lábios e extremidades) e, em casos mais graves, desmaios.
Tipos mais comuns na infância
Os tipos mais comuns de cardiopatia congênita incluem diversas alterações estruturais no coração que afetam o fluxo sanguíneo e a oxigenação do corpo. A Comunicação Interatrial (CIA) é caracterizada por um buraco entre os átrios do coração, permitindo que o sangue passe de um lado ao outro. Já a Comunicação Interventricular (CIV) é um buraco entre os ventrículos, o que também pode comprometer o fluxo sanguíneo adequado. A Coarctação da Aorta é um estreitamento da principal artéria do corpo, dificultando a circulação sanguínea para os órgãos e tecidos. A Tetralogia de Fallot é uma condição mais complexa, envolvendo quatro defeitos cardíacos que afetam o funcionamento global do coração. A Estenose Pulmonar consiste no estreitamento da válvula pulmonar, o que dificulta a passagem do sangue do coração para os pulmões. O Defeito do Septo Atrioventricular é uma malformação nas paredes internas do coração, podendo interferir na sua função. Por fim, a Transposição das Grandes Artérias (TGA) é uma condição grave em que as duas principais artérias do coração, a aorta e a artéria pulmonar, estão trocadas de lugar, comprometendo a oxigenação adequada do sangue.
Algumas dessas condições exigem intervenção cirúrgica ainda no primeiro ano de vida, como a CIV, a Coarctação da Aorta e a Tetralogia de Fallot.
Detecção durante a gestação
O ecocardiograma fetal é uma das principais ferramentas para o diagnóstico precoce. “O ecocardiograma fetal contribui de modo fundamental para a detecção dessas anomalias cardíacas antes do nascimento, possibilitando o planejamento de cuidados especializados e de um parto numa unidade com recursos adequados”, explica a cardiologista.
Além dele, o ultrassom morfológico também pode levantar suspeitas de malformações. “Ele deve ser feito no primeiro trimestre por volta da 12ª semana. É recomendado fazer outro ultrassom morfológico entre a 20ª e 24ª semana de gestação”, acrescenta a médica.
Papel dos profissionais de saúde após o parto
Segundo a Dra. Ziliola, “o pediatra e o neonatologista têm papel crucial no pré-natal e acompanhamento das cardiopatias congênitas”. O neonatologista atua especialmente nas primeiras horas de vida, enquanto o pediatra participa da triagem inicial e do acompanhamento após a alta hospitalar.
O teste do coraçãozinho
Nas maternidades, o “teste do coraçãozinho” é um exame de triagem realizado entre 24 e 48 horas de vida, por meio da oximetria de pulso. “É um exame de triagem indolor realizado em recém-nascidos para detectar cardiopatias congênitas críticas”, diz a especialista. Se houver alterações, o bebê é encaminhado para a realização de um ecocardiograma.
Avanços tecnológicos e terapias menos invasivas
A Inteligência Artificial (IA) tem se tornado uma aliada no diagnóstico e no tratamento de cardiopatias congênitas. “O uso de IA pode ajudar a aumentar e otimizar o gerenciamento desses pacientes, melhorar a qualidade do atendimento, estender a expectativa de vida, economizar tempo para o médico assistente e diminuir os custos com saúde”, pontua a médica.
A cirurgia minimamente invasiva também tem se consolidado como alternativa às cirurgias abertas, com menos trauma cirúrgico e recuperação mais rápida. “A cirurgia minimamente invasiva mostrou-se uma estratégia promissora, trazendo vantagens na diminuição do tempo de hospitalização, perda de sangue durante a cirurgia e na incidência de complicações”, comenta.
No entanto, há casos em que a cirurgia aberta ainda é indispensável, como na Tetralogia de Fallot, Transposição de Grandes Vasos e Coarctação da Aorta.
Transplante cardíaco pediátrico
O transplante cardíaco infantil enfrenta um obstáculo importante: a escassez de doadores. “Os transplantes pediátricos de coração são difíceis e de longa espera principalmente devido à escassez de doadores pediátricos e também devido à necessidade de compatibilidade de tamanho e peso entre doador e receptor”, explica a Dra. Ziliola.
A médica reforça que a informação é essencial para mudar esse cenário: “A importância da doação de órgãos infantis deve ser estimulada pelos meios de comunicação em massa, pois a desinformação sobre a doação de órgãos pode deixar de salvar muitas vidas a cada ano”.
Conscientização e prevenção
A médica faz um alerta à sociedade a respeito dessas duas datas, lembrando da importância da doação de órgãos, principalmente quando se trata de crianças doadoras, por isso “queremos conscientizar toda a sociedade que este gesto nobre pode ajudar a salvar milhares de vidas e trazer uma nova perspectiva e esperança às crianças e suas famílias”.