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Opinião

Estamos prontos para o futuro que estamos criando?

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Marcelo V Chinazzo
Por Marcelo V. Chinazzo – Pai do Miguel e do Gael, jornalista e escritor
Foto Marcelo V. Chinazzo

O avanço da tecnologia é algo que ainda me impressiona e, em alguns momentos, até assusta. A mim, particularmente, assusta tanto quanto perceber que nós, seres humanos, parecemos ter pausado nosso processo evolutivo, tropeçando nos mesmos erros de sempre, com violência, guerras, muita intolerância e pouca empatia e respeito. É como se estivéssemos com um pé no futuro e o outro preso no lamaçal de um passado distante que insiste em se fazer presente e, o que é pior, fazendo desse retrocesso uma escolha “consciente”.

Outro dia, li uma frase bem interessante que dizia mais ou menos assim, “onde dialogam pessoas sábias, opiniões diferentes não geram conflitos, geram novas ideias”. Pena que o que vejo no dia a dia são mais conflitos, poucas ideias e nenhum sábio. Vejo pessoas defendendo seus pontos, não com argumentos sólidos, mas baseadas em conceitos extremistas negando o óbvio enquanto o reafirmam. Mas não é exatamente sobre isso que quero falar.

Essa questão toda a respeito das tecnologias, me fez lembrar de um clássico filme, se não me engano, de 1985, o “De volta para o Futuro”. Enquanto passeavam pelo ano de 2015, viam carros voadores e outros avanços. Ok, 40 anos depois ainda pecamos em algumas coisas, mas certamente, o filme não tinha pretensão de cravar previsões, mas sim, mostrar as inúmeras possibilidades que teríamos devido a capacidade evolutiva e intelectual do ser humano e algumas coisas se concretizaram, outras nem tanto e outras nem ousaram prever. E o que realmente me chama atenção é perceber o quanto, em termos técnicos, nós avançamos e, ao mesmo tempo, o quanto retrocedemos como humanidade.

A inteligência artificial é prova disso. Vem evoluindo a passos largos, escreve, compõe músicas, faz diagnósticos médicos, recria vozes, imagens, memórias, entre outros. Mas e nós? Não estamos deixando que ela faça tudo por nós? Por que não evoluímos na mesma velocidade? Por que o avanço tecnológico parece caminhar em direção oposta ao desenvolvimento humano? Não deveríamos andar lado a lado?

Nas últimas semanas, vi pessoas conhecidas e desconhecidas, usando IA para recriar momentos com entes queridos, abraçar a criança que foram, ou realizar o sonho de estar ao lado de um ídolo e junto com isso, agradecimentos por poder reviver algo tão simbólico. Confesso que fiquei tentado a experimentar, mas na mesma proporção da tentação, vem o medo e não é tanto de vazamento de dados ou algo do tipo, mas o medo de que, em vez de diminuir a saudade, ela aumente.

A tecnologia tem despertado uma fome constante por “mais”, mas também alimenta memórias e desperta vontades, como a de revelar fotos novamente ou ouvir um vinil. Ela tem inúmeros poderes, por isso, acredito que há alguns limites que precisamos estar atentos. Por mais que aplicativos hoje consigam simular abraços em vídeos ou imagens, trazer alguém de volta à vida continua sendo impossível.

Será mesmo que a tecnologia substituirá totalmente a humanidade em algum tempo? Afinal, se o ser humano parar, quem continuará alimentando a máquina? É fundamental manter o equilíbrio, nem os humanos devem perder sua capacidade crítica e sensível, nem as máquinas devem ser confundidas com seres capazes de sentir. O risco é duplo, de um lado, o emburrecimento humano por excesso de dependência e de outro, a humanização exagerada das máquinas. Precisamos de cautela para que não nos tornemos insensíveis como algoritmos e para que a tecnologia continue sendo uma ferramenta, não uma (l)imitação de nós mesmos.

Talvez, no fundo, o que mais nos impulsiona a evoluir esteja justamente na dor e na beleza de sermos imperfeitos e finitos. A tecnologia seguirá avançando, mas precisa que a humanidade a acompanhe, mesmo que não se admita. E então? Vamos acompanhar esse ritmo ou continuar presos num looping de ódio, intolerância, individualismo e retrocesso?

A pluralidade existe e é necessária. Temos os loucos em suas pontas e os que tentam chama-los para a razão; temos os que se perdem e os que encontram e, todos fazem parte do processo. Por isso, talvez a verdadeira revolução ainda seja e, precise ser, a humana.

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