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Saúde

O papel do psicólogo no desenvolvimento infantil vai além do diagnóstico

Especialista erechinense defende avaliação cuidadosa e integrada para compreender os desafios e potencialidades das crianças

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Suélen explica que no desenvolvimento infantil uma coisa está interligada na outra, por isso, é impo
Psicóloga Suélen Razzia. Foto: Arquivo Pessoal/Suélen Razzia
Por Marcelo V. Chinazzo
Foto Divulgação

Hoje, dia 27, é o Dia do Psicólogo e quando o assunto é o desenvolvimento infantil, a presença deste profissional, faz-se ainda mais necessária, especialmente diante da crescente preocupação com diagnósticos como o Transtorno do Espectro Autista (TEA), Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e, mais recentemente, altas habilidades ou superdotação.

A psicóloga Suélen Razzia, que atua com psicoterapia e neuropsicologia infantil, destaca que é preciso compreender integralmente a criança, considerando não apenas sintomas, mas todo o seu contexto de vida.

Limite entre o desenvolvimento típico e o diagnóstico

Segundo Suélen, é natural que as famílias se perguntem como diferenciar comportamentos próprios do desenvolvimento infantil de sinais que possam indicar alguma condição neuropsicológica. A resposta está em uma avaliação criteriosa e profunda.

“O que eu acho que é importante é que todo o processo de avaliação tem que ser muito detalhado, aprofundado e considerar a criança na sua integralidade. Porque o desenvolvimento infantil é diretamente afetado por uma série de fatores”, afirma.

Além dos fatores genéticos e neurobiológicos, a criança é também moldada por influências emocionais, sociais e familiares. Por isso, comportamentos disfuncionais podem ser tanto um sinal de alerta quanto uma resposta a contextos adversos, como negligência, violência ou estresse emocional.

“A criança não consegue nomear o que sente como um adulto. Muitas vezes, o comportamento é a forma de se comunicar. Então, vai começar a manifestar alguns comportamentos que vão nos chamar a atenção e a gente vai entender o que eles estão querendo comunicar”, explica Suélen.

Marcos do desenvolvimento

Apesar da famosa frase “cada criança tem seu tempo”, a psicóloga esclarece que esse desenvolvimento ocorre dentro de faixas de normalidade. Há, sim, marcos esperados, como andar e falar, e atrasos nesses pontos podem sinalizar a necessidade de intervenção.

“Hoje a gente entende que não existe mais isso de ‘vamos esperar’. Uma criança com 1 ano e 6 meses já deve produzir várias palavrinhas. Uma com 2 ou 3 anos que não fala, já está em atraso”, exemplifica.

Ela ressalta, no entanto, que “ter atraso não significa que tem diagnóstico”. Mas, se há prejuízo ou sofrimento, o ideal é intervir precocemente, aproveitando a plasticidade do cérebro infantil, especialmente nos primeiros seis anos de vida.

Diagnóstico precoce x diagnóstico precipitado

Com o aumento do acesso à informação e à visibilidade dos transtornos do neurodesenvolvimento, também cresce o número de diagnósticos, muitos deles equivocados.

“Sim, precisamos olhar para o que a criança está manifestando, mas sem desconsiderar o que é parte do crescimento”, destaca Suélen.

Ela alerta para a chamada patologização da infância que é o enquadramento de comportamentos naturais como doenças. Diagnósticos como TDAH, autismo ou superdotação não são doenças, são condições que acompanham o indivíduo ao longo da vida. Por isso, um diagnóstico equivocado pode trazer consequências graves.

“Quando se olha somente pelo óculos do diagnóstico, se esquece de olhar o tanto de evolução e habilidades que essa criança também tem”, afirma. O estigma pode afetar a autoestima, o aprendizado e o relacionamento da criança com a escola, a família e os colegas.

A importância do diagnóstico correto

Um diagnóstico adequado e precoce, por outro lado, pode ser um divisor de águas. Nos primeiros anos de vida, o cérebro é altamente responsivo a estímulos, então “quanto antes a gente chega, mais eficazes essas intervenções são”, aponta a psicóloga.

Esse suporte deve incluir a família, a escola e os profissionais de saúde. “O trabalho com crianças é sempre um trabalho em equipe. Não é só o pai e a mãe trazerem a criança aqui. Tem o movimento dos pais, da escola, todo mundo tem que estar integrado”, reforça Suélen.

O desafio de identificar altas habilidades

Superdotação e altas habilidades também merecem atenção e, muitas vezes, são mal interpretadas como desinteresse, hiperatividade ou até problemas comportamentais. “Às vezes, o conteúdo da escola é muito fácil, e essa criança se desmotiva. Isso interfere na interação com os colegas e no desejo de estar naquele ambiente”, explica.

A avaliação neuropsicológica, nesse caso, é fundamental. Ela ajuda a identificar não apenas o potencial, mas as áreas em que a criança precisa de apoio, inclusive emocional. E sim, uma criança pode ter superdotação e autismo ao mesmo tempo. “A gente pode ter comorbidades, como uma criança com transtorno do espectro autista e, junto, altas habilidades”, esclarece.

Quando o diagnóstico vira justificativa

Outro ponto abordado por Suélen é o uso do diagnóstico como “bengala” para justificar comportamentos, o que pode banalizar a condição de quem realmente convive com ela.

“A gente banaliza o diagnóstico real. E quando usa isso como justificativa, a gente não se responsabiliza pelas coisas que faz e sente”, afirma.

No caso das crianças, isso pode impedir que a família enxergue possibilidades de evolução. No caso dos adultos, significa fugir do processo de autorresponsabilização. “O problema do diagnóstico como justificativa é que a gente se tira do lugar de responsabilidade”.

A psicologia como aliada do desenvolvimento infantil

O acompanhamento psicológico pode oferecer suporte tanto em situações com diagnóstico quanto nas dificuldades normais do crescimento. “A infância é uma fase de descobertas, e nesse caminho, ela pode encontrar desafios. A psicologia pode ser uma grande aliada para ajudar a criança e a família”, reforça Suélen.

Ela defende um olhar atento, mas cauteloso. “Essa questão dos diagnósticos serve como alerta, mas não para patologizar. É entender onde essa criança está com dificuldade e como podemos ajudá-la”.

A comunicação entre escola, família e profissionais é essencial. “Às vezes, as famílias têm receio de ser chamadas na escola, mas isso significa que a escola está atenta. E falar a mesma linguagem ajuda muito”, orienta.

Para crescer com autonomia e confiança

A psicologia, seja através da psicoterapia ou da avaliação neuropsicológica, tem um papel crucial em garantir que a criança se desenvolva de forma funcional, emocionalmente equilibrada e com autonomia.

“Acho que a psicologia tem muito a contribuir para o desenvolvimento infantil, seja diante de um diagnóstico ou não. Mesmo para lidar com as coisas que são inerentes ao desenvolvimento infantil e, que, por si só, já é muito desafiador”, conclui Suélen Razzia.

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