Com a tecnologia cada vez mais presente no cotidiano das famílias, é fundamental refletir sobre os impactos do uso excessivo de telas no desenvolvimento infantil. Estudos apontam que a exposição prolongada a dispositivos eletrônicos está relacionada a atrasos na linguagem, na coordenação motora e nas habilidades sociais, especialmente durante os primeiros anos de vida.
A fisioterapeuta neurofuncional e pediátrica Camile Madalozzo Bresolin, com vasta experiência na área infantil, explica que a primeira infância, fase que vai do nascimento até os seis anos de idade, é marcada por importantes aquisições motoras, cognitivas, sociais e afetivas. “Nos primeiros dois anos de vida, há um pico de aprendizagem devido à maturação do sistema nervoso central e às sinapses cerebrais. Todo estímulo que a criança recebe no ambiente em que está inserida determina o seu desenvolvimento e a qualidade do aprendizado”, afirma.
Segundo Bresolin, o problema das telas está no tipo de estímulo oferecido: passivo e repetitivo. “Quando expomos a criança às telas, ocorre a distração passiva, ou seja, limitamos os tempos de atividades ativas, piorando o desenvolvimento físico, psíquico e emocional, pelo fato de a tela ser um estímulo pobre quando comparado ao brincar, à leitura e a outras interações do ambiente”, alerta.
Coordenação motora: uma construção em etapas
Desde o nascimento, o desenvolvimento motor da criança avança progressivamente. Inicialmente, os movimentos são reflexos, mas aos poucos evoluem para ações voluntárias, como sentar, engatinhar, andar, manipular objetos, entre outros.
Bresolin destaca que a coordenação motora pode ser dividida em dois tipos: a grossa, que envolve grandes grupos musculares e movimentos amplos como correr ou pular, e a fina, relacionada a movimentos mais delicados e precisos, como desenhar, escrever e manusear pequenos objetos.
Brincar é essencial
Permitir que a criança explore o mundo ao seu redor de forma ativa é um passo fundamental para seu desenvolvimento. Brincadeiras ao ar livre, jogos com os amigos, atividades em família e momentos de leitura são mais do que diversão, são oportunidades de aprendizado e construção de vínculos.
“É importante salientar que o desenvolvimento da criança é determinado pelo ambiente em que está inserida e pelo afeto das pessoas que estão ao seu redor”, reforça Bresolin.
Quanto tempo de tela é seguro?
A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) estabelece recomendações específicas de acordo com a faixa etária:
- Menores de 2 anos: nenhum contato com telas;
- De 2 a 5 anos: até 1 hora por dia;
- De 6 a 10 anos: entre 1 e 2 horas por dia;
- De 11 a 18 anos: entre 2 e 3 horas por dia.
O uso excessivo de telas pode afetar várias áreas do desenvolvimento. De acordo com a fisioterapeuta, “crianças com exposição prolongada a telas têm maior propensão a atrasos de linguagem, dificuldade de concentração e aprendizagem, com consequente diminuição no rendimento escolar e problemas comportamentais”. Ela ainda destaca que esse hábito está ligado à obesidade infantil, especialmente quando há o costume de usar telas durante as refeições, o que compromete a atenção aos sinais de saciedade.
“O uso indevido desses objetos também altera o sono, reduz as habilidades de interação social e interpessoal, e dificulta o manejo das emoções e conflitos, dentro do ambiente familiar, escolar e na comunidade, podendo impactar até a vida adulta”, finaliza.