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Opinião

Quanto vale uma vida?

Vale um par de tênis, um celular, um metro de lenha, um palmo de terra, nada!

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Roberto Ferron
Por Engº Florestal Roberto M. Ferron – Consultor Florestal/Ambiental
Foto Roberto M. Ferron

Diariamente temos visto e ouvido coisas absurdas sobre a banalização da vida humana. Ocorrem fatos absurdos, irreais, inimagináveis, de uma crueldade que remonta à “era medieval” ou aos filmes de horror, que nos deixam chocados, abismados e atônitos. E qual o motivo dessa selvageria, que ceifa vidas, destrói famílias, deixa filhos órfãos ou pais sem filhos? E a sociedade, representada pela maioria das pessoas de bem, desprotegida, não tem mais a quem recorrer? Ou tem? Me parece que a justiça virou uma injustiça.

Certos casos, a gente só via em filmes, ou no meio das favelas e mazelas, ou em outros países. Agora, não. O fato ocorre na sua casa, na vizinhança, na escola, no clube, na rua, na praça ou em qualquer lugar. Tem gente que diz que isso é fruto da marginalização dos pobres, da exclusão por parte da sociedade.

Os mais recentes que vieram à minha mente são: a formação de gangues em bairros, que se matam entre si; grupos que se formam nas torcidas de futebol e marcam ou promovem brigas para se digladiarem em luta corporal com o intuito de ferir e matar; filhos matando os pais e avós para ficarem com a herança ou roubarem o dinheiro e/ou para comprar drogas, inclusive de baixo valor; pessoas da família ou conhecidas estuprando crianças e adolescentes, e depois matando-as; assaltos à luz do dia para roubar o celular, tênis e veículo, acabando em morte, pois muitas vezes o assaltante, mesmo consumando o roubo, mata a vítima indefesa, sem o menor constrangimento ou pudor; e assim há muitos fatos e relatos.

Mas vou me deter nestes dois últimos desta semana. Primeiro, o do agricultor Valdemar Both, que foi morto por integrantes da PATRAM – Patrulha Ambiental da Brigada Militar de Santa Maria. Seu Valdemar tinha 54 anos, pai de família, agricultor, lenhador, muito bem-quisto na sua comunidade, homem de bom coração, que ajudava a todos. Sua vida foi ceifada porque houve denúncia de que estaria incorrendo em crime ambiental, e foi abordado pelos membros da PATRAM dentro de sua propriedade, em um galpão onde estava cortando lenha de eucaliptos. Vejam bem, lenha de eucaliptos! Ao saber que seus equipamentos de trabalho, uma motosserra e uma serra circular, seriam apreendidos, no vídeo que circulou nas redes sociais, vê-se sua imagem indo para dentro do galpão onde estavam os policiais, e falando reiteradamente que “só sabia trabalhar, que estava trabalhando, que não aguentava mais”. Após, ouviu-se a voz de uma mulher, certamente uma policial, que começou a discutir com ele, e este se exaltou, gritando mais forte. Depois, ouviram-se três disparos, e o seu lamento ao ser atingido. E mais uma vida foi-se de forma banal e brutal, ceifada por quem deve proteger a vida, as pessoas de bem. Pelas imagens, vê-se que à frente do galpão havia uma pilha de lenha de eucaliptos. Estes fatos estão descritos na matéria do jornal Gazeta do Povo do dia seguinte.

O diretor da Associação dos Produtores e Empresários Rurais (APER), entidade representativa dos produtores da região de Santa Maria, Sr. Arlei Romero, relatou que “a tragédia envolvendo Valdemar Both mostra um drama comum entre os agricultores gaúchos: a desproporcionalidade no uso da força por parte da Patrulha Ambiental. Muitos produtores se queixam da forma como os agentes agem quando visitam a propriedade para alguma verificação, tratando o produtor rural como se fosse um bandido”. A entrevistada, Engenheira Agrônoma Luciane Agazzi, produtora rural da região, declarou, entre outros fatos, que “se não tiver crime, eles tentam inventar um para autuar, para dar multa”.

E isto é fato recorrente em todo o Estado. Que o digam os profissionais – engenheiros florestais, agrônomos e biólogos – que trabalham em projetos de licenciamento e de recuperação ambiental. Em muitas situações comentadas por agricultores fiscalizados e/ou penalizados, eles (a Patram) agem como se fossem “Deus”, que tudo sabem, que chegam armados como se estivessem em busca de um delinquente, bandido, oprimindo o proprietário, muitas vezes em frente à família (esposa e filhos), e já taxando-os de criminosos por terem realizado uma ação ou atividade dentro de sua propriedade rural. Eu, ao exercer minha profissão por mais de 30 anos nesta área, ouvi dezenas de relatos e fatos absurdos.

Vale ressaltar que esses policiais não têm formação profissional na área rural e ambiental, apenas recebem treinamento dos órgãos ambientais municipais, do Estado e da federação. Eis a questão posta acima: como diferenciar um monte de lenha de espécies nativas (angico, guajuvira, bracatinga), de espécies exóticas (eucaliptos, uva-do-japão, ligustro), ou simplesmente permitidas para corte, derrubada e uso como lenha, palanques e madeira serrada?

Outra triste tragédia ocorreu no município de Estação, na Escola Municipal Maria Nascimento Giacomazzi, onde um adolescente de 16 anos invadiu a escola com um facão, adentrou uma sala de aula e desferiu diversos golpes nos alunos, crianças e na professora que tentou impedi-lo. No ataque, matou uma criança, feriu outras duas e a professora. “A Justiça determinou a internação provisória do adolescente de 16 anos apreendido pelo ataque. A medida tem duração de 45 dias, segundo estabelece o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Mais detalhes não foram divulgados porque está em segredo de justiça”.

A pergunta é: por que chegamos à banalização da vida?

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