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Saúde

Dia do Orgulho Autista reforça a luta contra a desinformação

Brasil lidera em fake news sobre autismo e especialista alerta para os riscos e reforça a importância da informação com base científica

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Que neste Dia do Orgulho Autista, a celebração venha acompanhada de empatia e ações concretas por um
Por Marcelo V. Chinazzo
Foto Divulgação

Neste 18 de junho, data em que o mundo celebra o Dia Mundial do Orgulho Autista, o Brasil encara um paradoxo inquietante: enquanto se busca visibilidade, respeito e inclusão para a população neurodivergente, o país também desponta como um dos epicentros da desinformação sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA).

Falsas promessas de cura, tratamentos “milagrosos” e teorias conspiratórias vêm comprometendo diagnósticos, atrasando intervenções e colocando vidas em risco. E tudo isso com um alcance impressionante.

O avanço alarmante da desinformação no Brasil

Um estudo inédito realizado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) em parceria com a Associação Autistas Brasil revelou que mais de 58 milhões de mensagens sobre autismo circularam no Telegram entre 2019 e 2024. A desinformação teve um crescimento explosivo de 15.000% nesse período. Quase metade (46%) dessas mensagens partiram de grupos brasileiros, colocando o país no topo da disseminação de fake news sobre autismo na América Latina.

“Hoje, a poucos cliques, temos acesso a um mundo de informações, mas nem sempre conseguimos filtrar o que é verdadeiro. Muitas vezes, seguimos profissionais apenas por número de seguidores, e isso é um risco enorme”, alerta o neurologista infantil e adulto Dr. Marcus Vinícius Abatti.

Um espectro amplo, não um estereótipo

Segundo o Censo Demográfico de 2022, 2,4 milhões de pessoas no Brasil receberam diagnóstico de TEA, o equivalente a 1,2% da população. A prevalência é maior entre os meninos (1,5%) do que entre as meninas (0,9%), sendo mais comum na faixa etária de 5 a 9 anos (2,6%).

Mas números por si só não traduzem a complexidade do espectro. “Muitos dizem: ‘Mas ele conversa, brinca... não parece autista’. Isso é um equívoco. O autismo é um espectro. Existem diferentes níveis de suporte, e cada criança é única”, explica Dr. Marcus. Ele também rebate o discurso de que “autismo virou moda”: “Hoje, temos mais ferramentas e mais capacitação profissional. Isso é progresso, não modismo”.

O perigo das falsas curas

O impacto da desinformação não é apenas conceitual. Ele é físico, emocional e social. Dietas extremas, substâncias não aprovadas por órgãos sanitários e “terapias alternativas” sem evidência científica invadem o imaginário de pais aflitos em busca de respostas.

“Essas práticas desviam famílias de caminhos seguros, atrasam intervenções e colocam vidas em risco”, afirma Dr. Marcus. “Autismo não é uma sentença. Tenho pacientes adultos no espectro que são médicos, engenheiros, pais, mães. O diagnóstico não limita, ele liberta, quando acompanhado de suporte adequado”.

A força do Orgulho: entre afirmação e resistência

O Dia Mundial do Orgulho Autista, criado por autistas para autistas, vai além da celebração: é um grito de afirmação de identidade. “Para o MOAB e para as pessoas autistas, essa data representa a afirmação de que ser autista não é um defeito, mas uma forma legítima de ser no mundo”, destaca Andressa Vieira, coordenadora do MOAB Regional Alto Uruguai (Movimento Orgulho Autista Brasil).

Segundo ela, o orgulho é o oposto da vergonha. “É um dia em que celebramos as potencialidades, a diversidade e a singularidade das identidades neurodivergentes, rompendo com a lógica do capacitismo que insiste em nos rotular apenas pelas dificuldades”.

Ocupar espaços para transformar políticas

Para Andressa, ocupar espaços sociais, políticos e educacionais é uma das formas mais eficazes de construir uma sociedade mais inclusiva. “Cada cadeira ocupada em conselhos, audiências ou escolas por uma pessoa autista ou uma mãe atípica é um ato político. É sair da invisibilidade e afirmar: ‘Estamos aqui, existimos e temos o direito de decidir sobre nossas vidas’”.

No MOAB Regional Alto Uruguai, essa ocupação é ativa. O projeto “Cuidar do ser: do nascer ao envelhecer” aposta na articulação com outros setores e na construção de redes regionais para influenciar políticas públicas com base em vivências reais. “Ocupar é resistir, e resistir é construir justiça social”, resume.

Combater o preconceito com informação e escuta

Frente a tantos mitos, o MOAB aposta na informação acessível como ferramenta de transformação. A atuação inclui rodas de conversa, palestras, formações e articulação com profissionais de saúde, assistência social e educação. A linguagem é sempre acolhedora e próxima das famílias.

“Mostramos que o autismo não tem cara. Há diversidade dentro do espectro e o respeito precisa vir antes do julgamento”, afirma Andressa. “Formamos lideranças, escutamos mães, pais e cuidadores, e damos voz aos próprios autistas para que sejam protagonistas. Informação é autonomia e com autonomia, combatemos o preconceito na raiz”.

Políticas públicas, educação midiática e responsabilidade coletiva

A batalha contra a desinformação também exige ação institucional. Projetos como o PL 2630/2020, conhecido como “PL das Fake News”, voltaram a ganhar força no Congresso, com foco na responsabilização das plataformas digitais e proteção de usuários vulneráveis.

Organizações da sociedade civil têm pressionado para que o projeto contemple diretamente a desinformação sobre saúde e deficiências. Além disso, cresce a demanda por educação midiática nas escolas, capacitação de profissionais e garantia de acesso a diagnósticos e terapias baseadas em evidências.

Celebrar é também se comprometer

O Dia Mundial do Orgulho Autista é um lembrete poderoso de que inclusão real exige empatia, escuta, informação de qualidade e compromisso coletivo. “Informar é incluir. Se a gente não entende, a gente exclui. Quando há empatia e informação, tudo muda, nas famílias, nas escolas e na sociedade”, afirma Dr. Marcus.

No Brasil de hoje, onde milhões de mensagens falsas circulam como verdades absolutas, celebrar a neurodiversidade é também um ato de resistência.

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