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Saúde

Ensino a distância na saúde: risco à formação ou avanço educacional?

Especialista alerta para os impactos negativos do EAD na formação de profissionais

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A psicóloga e doutora em Psicologia, Fernanda Grendene, coordenadora do curso de Psicologia da URI f
Por Marcelo V. Chinazzo
Foto Arquivo Pessoal/Fernanda Grendene

A expansão do ensino a distância (EAD) nos cursos da área da saúde tem gerado debates intensos sobre a qualidade da formação dos futuros profissionais. A psicóloga e doutora em Psicologia, Fernanda Grendene, coordenadora do curso de Psicologia da URI, alerta para prejuízos significativos que esse modelo pode acarretar na formação, especialmente em áreas que exigem vivência prática e desenvolvimento de habilidades interpessoais.

A formação prática depende da presença

Para Fernanda, a formação na área da saúde não pode prescindir do contato humano e das experiências práticas que o modelo presencial oferece. “Na área da saúde e humanas essas habilidades perpassam experiências práticas variadas e com grande carga horária nos currículos presenciais”, explica. Ela questiona: “Como avaliar o desenvolvimento nas práticas pelo ensino 100% EAD? Como os acadêmicos irão realizar seus estágios?”

Segundo a psicóloga, a principal perda se concentra no desenvolvimento da prática, que só ocorre por meio da interação direta com o outro: “Penso que um dos principais prejuízos é o desenvolvimento da prática que só é alcançado na interação com o ‘Outro’, no encontro presencial”.

Habilidades humanas que não se ensinam à distância

A psicóloga destaca que competências fundamentais para profissionais da saúde, como o gerenciamento das próprias emoções, liderança e trabalho em equipe, dependem da convivência e da prática presencial. “Na formação presencial, os espaços acadêmicos também se constituem como formativos, principalmente na área da Psicologia. Essas características e experiências se perdem num curso EAD”.

Ela acrescenta que, além das habilidades técnicas e teóricas, é imprescindível desenvolver capacidades relacionais: “O contato com o ser humano. Só aprendemos a ser humanos no contato com outros seres humanos. Na área da saúde isso é imprescindível. Quem escolhe a saúde, escolhe trabalhar com pessoas. Esse treinamento começa na graduação com presença”.

Consequências para o atendimento à população

O impacto da formação exclusivamente a distância se reflete diretamente no atendimento ao público. Fernanda vê um risco real de queda na qualidade dos serviços de saúde: “Acredito que houve uma distorção criada pelo crescimento acelerado do ensino remoto sem critérios adequados. Virou um modelo de negócio mercantilista que sacrificou a qualidade da educação em nome exclusivamente do lucro”.

A falta de vivência prática pode comprometer a formação profissional de maneira profunda. “A vivência clínica é indispensável para a construção do conhecimento e da experiência. Cursos 100% presenciais garantem maior qualidade da formação”, afirma.

Dados reforçam a preocupação. “De acordo com o Cofen – Conselho Federal da Enfermagem –, dados do Enade revelam o impacto negativo da modalidade EAD: das 692 graduações em Enfermagem avaliadas, apenas 1,3% atingiu nota máxima, enquanto 512 tiveram desempenho insatisfatório”.

Mudanças nas políticas educacionais

Sobre a decisão do governo de tornar obrigatória a modalidade presencial para cursos da área da saúde, Fernanda avalia como um passo essencial: “É um passo importantíssimo para garantir a qualidade da formação que as entidades estavam lutando há muito tempo. Mas a qualidade da formação também precisa ser mantida e garantida no modelo presencial. Não é porque é presencial que garante qualidade”.

Ela ressalta que as instituições ainda enfrentam desafios para se adequarem. “As instituições de ensino têm dois anos para se adequarem às novas exigências”, explica. No entanto, ela alerta que há sempre o risco de o mercado educacional tentar reverter essa conquista: “Sempre existe”.

Particularidades da Psicologia

No caso da Psicologia, os impactos de uma formação não presencial podem ser ainda mais profundos, afetando não só a técnica, mas também a ética e o vínculo emocional com os pacientes. “Acreditamos que a Psicologia se constrói com presença desde a formação. O vínculo e a relação humana são centrais à prática da profissão e precisam ser experimentados desde a formação com presença”, enfatiza Fernanda.

Ela conclui afirmando que o estágio presencial é essencial para desenvolver a sensibilidade e a escuta terapêutica: “A relação-terapêutica em toda sua complexidade se aprende nas práticas de estágio”.

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