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Saúde

Os desafios invisíveis da maternidade

Entre o amor profundo e o esgotamento escondido, tem-se a verdade de ser mãe

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Marjana Gasparin coloca que: “A carga mental refere-se às tarefas e responsabilidades que muitas vez
Luciana coloca que “foi a melhor escolha que eu fiz, a melhor decisão que eu tomei na minha vida e e
Por Marcelo V. Chinazzo
Foto Arquivo pessoal

A maternidade, frequentemente romantizada como uma fase de plenitude e realização, pode carregar também um fardo silencioso e invisível. Transtornos como a depressão pós-parto, a ansiedade materna e a sobrecarga emocional atingem milhares de mulheres, principalmente aquelas que vivem a experiência da maternidade sozinhas, como mães solo ou independentes. Especialistas e mães compartilham as dores e os aprendizados de um desafio muitas vezes solitário, onde o amor pelo filho não exclui a exaustão e a necessidade de apoio.

Quando os sinais não gritam

Os sintomas da depressão pós-parto nem sempre se manifestam de forma óbvia. Irritabilidade constante, sensação de esgotamento, isolamento social e uma tristeza silenciosa podem ser sinais ignorados. Para a psicóloga Marjana Gasparin, a empatia é a chave para reconhecer e ajudar sem invadir o espaço da mãe. “Ouvir com atenção, oferecer ajuda prática e encorajar o cuidado profissional são gestos essenciais. Muitas vezes a mãe está ali, cumprindo todas as tarefas, mas emocionalmente esgotada e invisível”.

Pamela: quando o amor pelo filho é a única âncora

Pamela Souza, mãe solo de Luís Felipe, hoje com 18 anos, viveu na pele esse esgotamento silencioso. Descobriu a gravidez aos 23 anos e enfrentou não apenas a ausência do pai do filho, mas também a cobrança emocional daqueles mais próximos. “Nunca tive espaço ou apoio para cuidar da minha saúde mental. Ser vulnerável não era uma opção”, lembra. A pressão da família, especialmente da mãe, minava qualquer tentativa de acolhimento. “Se eu chorasse, ouvia: ‘deveria ter pensado antes’. Minha missão era calar o que sentia”.

Mesmo reconhecendo os sinais de exaustão e desejando ajuda profissional, Pamela evitou buscar suporte por medo de ser vista como fraca. “Estava sempre cansada e doente, mas sem opção de escolha. Me deixei por último durante anos.” Hoje, ela transforma essa dor em acolhimento. “Em mim, meus filhos têm colo, têm apoio e escuta ativa. Sem julgamentos”.

A carga invisível e os ideais inatingíveis

Além da solidão, há uma pressão simbólica sobre as mulheres: a da mãe perfeita. “Aquela que não reclama, que concilia tudo com leveza, sem olheiras ou falhas. Isso é uma idealização cruel”, explica Marjana. Ela alerta para os danos emocionais desse modelo inalcançável. “A comparação gera culpa, baixa autoestima e, em casos graves, transtornos psíquicos”.

Para desconstruir esse padrão, a psicóloga propõe mais diálogo sobre as dificuldades reais da maternidade, valorização da imperfeição e criação de redes de apoio. “Não existe uma única forma de ser uma boa mãe. A maternidade real é feita de erros, acertos e constantes ajustes”.

Luciana: uma maternidade escolhida com muito amor, fé e coragem

A história de Luciana Grzybowski é marcada pela coragem de realizar um sonho: ser mãe independente. Aos 47 anos, engravidou por fertilização e hoje cuida da pequena Chloe, de 8 meses. Ela destaca que sua escolha nunca foi um plano de vida, mas uma decisão consciente diante da ausência de um parceiro com quem construir uma família. “Sempre sonhei em casar, encontrar alguém. Mas esse alguém não veio. E meu tempo biológico estava acabando. Então, escolhi ser mãe independente.”

Luciana é muito feliz com sua escolha e reconhece que os primeiros dias foram desafiadores. “O puerpério é um turbilhão hormonal. Chorei, me senti sozinha, mesmo com minha mãe ao lado. Mas já sabia que isso poderia acontecer e procurei aceitar essas emoções”. A mãe foi seu principal suporte. “Mais do que um parceiro, o que precisamos é de alguém que diga: ‘estou aqui’. Isso faz toda a diferença”.

Ela ressalta a importância de estar emocionalmente preparada para essa jornada. “Fazia acompanhamento com psicanalista antes mesmo da gravidez. A saúde emocional precisa ser cuidada antes, durante e depois da gestação”.

A força da fé no caminho da maternidade

Pamela e Luciana destacam a importância da espiritualidade durante o processo da maternidade, afirmando que a fé em Deus foi essencial para enfrentar os desafios, desde a fertilização até o nascimento da filha. Ambas ressaltam que o cuidado integral — físico, emocional e espiritual — foi fundamental, e que confiar em Deus e colocar a gestação em Suas mãos trouxe paz e esperança. Para elas, reconhecer a soberania divina e acreditar que Ele conhece e atende os desejos mais profundos do coração foi determinante para viver esse sonho com confiança e gratidão.

 

A falta de políticas e a força das redes

Tanto Luciana quanto Pamela enfatizam o papel vital das redes de apoio, sejam elas familiares, sociais ou profissionais, na saúde mental materna. Para Marjana, ainda há muito o que avançar nas políticas públicas. “Falta investimento em prevenção e acesso universal à saúde mental. Precisamos de campanhas, presença de psicólogos nas unidades de saúde e programas que envolvam toda a comunidade”.

Ela reforça que é preciso mudar o olhar sobre a maternidade. “Falar sobre os erros, os cansaços e os medos não diminuem o amor. Ao contrário, mostra o quanto essas mulheres estão dispostas a aprender e cuidar, inclusive de si”.

Uma mensagem para o Dia das Mães

Às vésperas do Dia das Mães, Marjana deixa uma mensagem tocante: “Queridas mães, saibam que vocês vão errar. E tudo bem. Questionar-se é parte do caminho. É esse processo que forma uma mãe que ouve, que acolhe e que permite que o seu filho exista como sujeito.”

Luciana reforça: “Ser mãe independente exige coragem. Mas valeu cada passo. A Chloe é a melhor escolha que fiz. E, sim, muitas mulheres que querem ser mães: isso é possível”.

Pamela finaliza com força e ternura: “Fui ensinada a não sentir. Hoje, ensino meus filhos a sentir, a se acolher, a ter colo. Aprendi que a mãe que cuida de si, cuida melhor”.

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