O roteiro de estudos à Alemanha, propiciado pela parceria Unimed Federação/RS e Sescoop – RS, nos levou a latitudes e altitudes desconhecidas, às vezes de ar rarefeito. Portanto, a viagem e seus ensinamentos não devem ser entendidos às pressas, movidos pelo afã de terminar a tarefa o quanto antes, pois tal comportamento causará efeitos semelhantes aos provocados pelo Mal da Montanha, conjunto de sintomas que acometem principalmente os viajantes egressos das planícies pampeiras, afeitos às simplificações que não exigem reflexão, apegados ao passado que se oferece de forma didática, sem exigir quase nenhum esforço, e que, subitamente, decidem escalar o pico de Zugspitze, nos Alpes Bávaros.
Não será difícil que, após um início paradisíaco, na região de Stuttgart, o estudante temporário da Universidade de Tübingen, ainda hipnotizado pela beleza local, passe a sentir tonturas, fadiga, dificuldade para respirar e, a depender de sua pressa ou imaturidade em adquirir saber, experimente grande confusão, além de perceber-se incapaz de andar em linha reta para o futuro. Será compreensível que, sofrendo desse mal, o aprendiz tenha medo de prosseguir, prefira retornar ao seu cotidiano conhecido e às problemáticas breves, que se resolvem com facilidade.
Não haveria, contudo, erro pior que retornar aos seus limites, não exigir nada de si mesmo. Seria como recusar ver a realidade sob uma nova perspectiva – aquela que só os lugares mais altos do saber oferecem aos olhares cansados das mesmices. Cientes desse fato, devemos chegar a outra conclusão: principiamos uma jornada rigorosa, que além da aclimatação gradual, exige o destemor de avançar por territórios inóspitos tais como nossos métodos de gestão, principalmente no que tange ao gerenciamento de recursos e obediência rigorosamente germânica ao previamente planejado.
Se em missões anteriores ao Vale do Silício (2019) aprendemos sobre a simplificação de processos com uso da digitalização e inovação constante na gestão dos negócios; ou se em Israel (2022) levamos um verdadeiro banho de propostas de tecnologias entrantes; ou mesmo na excursão à Inglaterra (2023) presenciamos a assertividade da Atenção Integral à Saúde aplicada de forma efetiva e eficaz; ora na Alemanha aprendemos sobre a necessidade vital de mantermos um orçamento equilibrado e controlado sob pena de comprometer a sustentabilidade do Sistema de Gestão dos planos ou seguros de Saúde.
Desse modo, continuamos nossa eterna jornada “em busca do tempo perdido”, sempre agarrados à vertigem das novas experiências que vivenciamos em países desenvolvidos, e ao olhar para o passado invisível e decifrá-lo, trazendo-o ao presente, vislumbrando e construindo um futuro mais previsível e seguro às partes interessadas. Afirmo que todos os conhecimentos adquiridos nessas missões internacionais estão sendo aplicados e são fundamentais para a sobrevivência e pujança das cooperativas médicas do Rio Grande do Sul.
Portanto, devemos agradecer e apreciar o trabalho e os investimentos propiciados pela Unimed Federação/RS, nas figuras do Presidente Nilson May e do Diretor José Milton Mirenda; da Ocergs/Sescoop-RS, representada pelo Presidente Darci Hartmann e Superintendente Mario De Conto; ao Dr. Erno Harzheim e demais colegas, que de forma incansável e inteligente, com suas intervenções, propiciaram um excelente ambiente para o aprofundamento de conhecimentos técnicos e práticos de grande valia.
Por fim, deixo uma história da tradição judaica que aprecio muito – e que, de certa forma, resume as nossas viagens de estudos no exterior: um estrangeiro visita um rabino muito sábio e lhe pergunta: “Mestre, o que é melhor, a bondade ou a inteligência? ” O rabino responde: “Claro que a inteligência, meu filho, pois ela é o centro da vida”. Há um momento de silêncio. O rabino parece pensar. E antes que o estrangeiro agradeça e vá embora, o rabino completa: “Mas, se você só tem a inteligência, sem bondade, é como se você tivesse a chave do quarto que está no centro da sua casa, mas tivesse perdido a chave de entrada”.
Ao transportar a experiência da viagem de estudos, aprendemos com os alemães, conhecidos por sua praticidade e ciosos de suas responsabilidades, que, de certa forma, para bem exercermos a arte médica, necessitamos o controle das chaves da cura e do cofre, pois na mutualidade dos planos de saúde, uma não funciona sem a outra.
Assim, nós, médicos, dirigentes e estudantes, procuramos trazer conosco sempre as duas chaves que exigem do nosso ofício de curar: bondade e inteligência.