“... a cheirosa comida de panela é um novo elemento de atração para o descendente teuto. Com as criações de terreiro, surge a galinha cozida, assada ou ao molho pardo. O leitãozinho assado, o queijo-de-porco, o torresmo, morcilha preta e a branca, a linguiça. Da fartura de carne bovina resultam o ensopado de aipim, o cozido com pirão, a rabada, o mocotó, o mondongo, o guisadinho com abóbora ou batata. Já ganham fama o bom mel, a laranja, a tangerina. Para a criançada fazem-se balas de mel... ou uma chupeta, em paninho, para o nenê não chorar...” – Barbosa Lessa.
Reminiscências
Quando aqui chegaram os colonos alemães, Erechim era a Grande Erechim. Muitos municípios, hoje emancipados, faziam parte do seu território. O processo de aculturação foi bastante mais rápido do que se possa imaginar. Para a agricultura foi necessária a derrubada de mato e de florestas. Sem a mínima infraestrutura, tudo teve que ser feito a partir do zero. Começaram a plantar nos solos arroteados, fruto da derrubada das florestas. Até conseguirem produzir comida suficiente para trocar por produtos industrializados, sofreram uma perda sensível na qualidade de vida.
Produtos da agricultura alemã
Trigo
O governo incentivava a produção tritícola e a região foi das maiores produtoras. Erechim chegou a ser a campeã de trigo, a nível nacional. Embora, as intempéries, doenças e degenerescências das variedades existentes. Sem dúvida, o trigo era a matéria prima para a fabricação do pão cotidiano. Falando em pão, não se deve esquecer o pão com chimia- “schimier” e para passar por cima da “schimier” nada melhor de que a “keeschmia”- requeijão. Keeschmia- como fazer: Deixar azedar o leite. Ele torna-se consistente e cria uma água amarelada- o soro. Derramar tudo dentro de um saquinho de pano, pendurar para escorrer o soro. Retirar a massa que resulta, colocar em vasilha, misturar um pouco de sal e mexer bem até ficar cremoso.
Milho, o rei da agricultura colonial
Os colonos alemães, já na chegada por aqui, fizeram dele sua principal cultura. Esta passou a ser conhecida como a monocultura do colono alemão. O motivo da preferência era o uso, em larga escala, na culinária. O gado consumia muito milho como forragem verde, os cavalos comiam os grãos que também alimentava os porcos. Nada se perdia da própria planta: a parte lenhosa, que restava depois da debulha da espiga, servia para fazer fogo, as folhas secas davam forragem para o inverno. As palhas, mais finas, que estão em volta da espiga, serviam para encher os colchões e para enrolar os cigarros tipo “palheiro”. Quanto às folhas grossas e aos caules, eram enterrados para proteger o solo contra a erosão. Diziam: “ se há milho, nós e o nosso gado estamos salvos”.
Mandioca
Ela foi uma importante cultura na agricultura teuto-brasileira na região. Além de seu uso como alimento diário, podia ser adicionado em até 30% à massa do pão. A preferência de que gozava a mandioca junto aos colonos, explica-se também pela facilidade de sua cultura.
Abóbora
Fazia parte do cardápio diário e de seus grãos era extraído um óleo de qualidade. A casca era alimento para os animais. Apreciavam muito os doces feitos com ela.
Cana-de-açúcar
Foi também grandemente cultivada, principalmente nas barrancas dos rios. A cana dá o açúcar bruto e o melaço, que se usava no café ou nas misturas, além de ser base da “schimier”. Esta era para cobrir o pão acompanhando a manteiga ou a nata. Era utilizada para fazer rapadura e fornecia a aguardente e o álcool.
Banha, o ouro branco
Produto natural da cadeia produtiva do milho e do porco. O milho como alimento animal transformado em gordura, banha, rendia três vezes mais dinheiro do que a sua venda na forma de grãos. A banha era obtida a partir da fritura das partes gordurosas, que produziam também o torresmo. O azeite não era conhecido naquela época.
Criações de terreiro
A galinha, patos, gansos e marrecos. A galinha era cozida e assada no forno a lenha – o “backofe” - ou ao molho pardo. As “gefildene hingele”- galinhas recheadas- eram consumidas somente aos domingos ou na forma de galinhada: galinha com arroz. As galinhas recheadas eram para ocasiões especiais. O gosto pelo bom preparo do recheio onde o tempero verde abundava, derivava também o fato de as galinhas serem criadas soltas. Galinhas que apanhavam muito sol, comiam muito verde, ervas e capim o dia todo. Quem não gosta de molhar o pão no molho de galinha cozida? Elas, sem dúvida, tinham melhor sabor do que os produtos de aviários, hoje. O ganso era criado e, na época do Natal, muito cuidado, pois era o prato principal do almoço natalino. O peru era criação americana.
Conservas
As conservas principalmente de pepinos, repolho- o chucrute- de cebola, de rabanete, de tomates eram feitas para serem consumidas no inverno. As despensas das avós e tias eram ricas em recipientes bem cuidados e guardados.
Conclusão
Hoje, muitos dos alimentos preparados pelos imigrantes alemães são conhecidos como “comida colonial”, tão ao gosto do homem da cidade, acostumado ou farto dos artificialismos culinários das lancherias. A “comida” deles recebeu um toque característico da época, do local onde viveram e do que produziram. Uma boa refeição era antecipada pelo hábito do chimarrão, uma cultura celebrada desde o primeiro dia que chegaram ao Rio Grande do Sul.