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Opinião

Erechim, meu avozinho

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Joemir Maria Camargo Rosset
Por Joemir Maria Camargo Rosset
Foto Divulgação

O dia amanheceu lindo. O céu tem um azul diferente. É o mesmo azul da minha infância. Um pouco mais escuro. Talvez porque eu estou vendo com os olhos fechados. Vejo com os olhos do coração. Pena que não consigo ver tudo como antigamente. Minha memória está fraca. Sumiram as borboletas coloridas que dançavam sobre as flores do jardim. Sumiram as andorinhas que passavam em voos rasantes pela minha cabeça... E os corvos? Onde estão os corvos para eu contá-los: Gosto! Desgosto! Gosto! Desgosto! Gosto!...

Nem ouço mais o canto do sabiá na laranjeira. E aquela cigarra irritante que zunia no meu ouvido? Sumiu...Tenho saudades daquela cigarra.

Lembranças. Apenas lembranças de coisas que eu vi, ouvi e quase esqueci. Porém, há coisas que eu vivi e jamais vou esquecer.

Era março de 1964. Meu coração estava acelerado. O medo e a ansiedade me deixavam calada. Segurava firme a mão de meu pai. Na hora da despedida pensei que minha mão estava colada na dele. Tremia. Um “até logo! Te pego na saída”, me deixaram mais calma. Foi meu primeiro dia de aula.

No meio da manhã senti uma saudade tão grande de minha mãe...Meu coração ardeu muito. Uma voz doce cochichou-me no ouvido que aquele era meu primeiro passo para o futuro.

Foram tantos cochichos, sussurros, contos de fada, cinderela, Rapunzel...Ela foi a professora mais amada que eu tive.

Um dia, aquela voz se calou. Desmancharam a escola e, naquele lugar, surgiram muitas casas populares e uma Brigada Militar. A cidade estava crescendo consideravelmente.

Meus pais decidiram que eu não podia estacionar no primeiro passo a caminho do futuro.           No ano seguinte, eu já andava sem a mão protetora do pai e podia chegar tranquilamente à nova escola.

Na sala, muitas vozes doces formavam o quadro de professores da época. O primeiro grande gesto que aprendi foi juntar as mãos e orar antes de iniciar a aula.

No pátio um espaço enorme era lugar de correrias, gritarias e brincadeiras de roda. Meninos e meninas, com os mais diversos apelidos, gargalhavam por qualquer motivo e a maldade não fazia parte dos pensamentos. Todas as mãos se uniam, indistintamente, e brincar era a melhor diversão.

Mas, um dia, por mérito, troquei de escola... E a escola, por coincidência, trocou de nome. Tudo se acabou.

Agora, eu era uma adolescente que ainda brincava de boneca, corria descalço pelas ruas, usava saia vermelha e gravata da mesma cor. Meias que cobriam a barriga da perna e sapatos pretos.

O vestuário, que fazia parte do uniforme, não era motivo de vergonha e sim de orgulho. De longe a escola era identificada pelas meninas de gravata e saia vermelha. Vieram os primeiros amores, os primeiros segredos e as primeiras e verdadeiras amigas para sempre.

Três anos se passaram. Durante esse período aconteceram as mudanças na lei do ensino. Fora os acentos ortográficos! “Ele” era uma colega de aula e “Ele” era uma letra do alfabeto. A diferença estava apenas na pronúncia da palavra.

Foi um tempo difícil, mas passou.

Incrível! Nem de acreditar! É sina! Mudei de escola e o ginásio também mudou de nome. Tudo muda por onde passo.

No ano seguinte, eu usava saia azul marinho com quatro pregas. Troquei a gravata vermelha por um exagerado laço que ficava pendurado no pescoço.

Novas amizades, muitas peraltices... Hora de esconder a calça comprida na mochila para vestir na saída da escola. Fugir às escondidas pela porta da frente ou pular o muro, só pelo prazer de andar no elevador do prédio mais alto que estava em construção. O primeiro de doze andares.

Uma volta na avenida, um sorvete e uma passadinha na Catedral para apreciar a pintura em ouro atrás do altar. Orar e pedir perdão pelos pecados cometidos em grupo, também eram motivos para entrar na igreja.

Depois tudo voltava ao normal! Viva a santidade estudantil!

Um dois! Esquerda, direita! Sentido! Essas palavras faziam parte dos ensaios que se repetiam a semana inteira ao redor do quarteirão. Elas serviam para evitar o descompasso das batidas no desfile de Sete de Setembro.

A bandeira do Brasil tremulando no mastro e o Hino Nacional ecoando na garganta dos verdadeiros patriotas que sentiam orgulho de seu país, eram exemplos de bons estudantes.

Tudo passou como tudo passa.

Enfim, estou formada! Tenho diploma com registro na universidade da vida. Sou engenheira e arquiteta de sonhos.

Tinha certeza que meu primeiro projeto seria uma escola que nunca fosse desmanchada; que tivesse um pátio onde meninas e meninos rodassem de mãos dadas e dessem boas gargalhadas ouvindo seus próprios apelidos, sem maldade alguma.

Pensei em construir uma escola onde os estudantes usassem uniformes. Mesmo que as meninas precisassem usar saia vermelha e gravata da mesma cor. Ou talvez, a saia das meninas fosse azul marinho e tivesse quatro pregas.

Queria que todas as mãos, grandes e pequenas, se juntassem para orar antes de iniciar a primeira aula; que o Hino Nacional fosse cantado em alta voz e em posição de sentido.

Um dois! Esquerda, direita! Fosse a batida mais forte no asfalto da avenida. Que o diploma de formatura fosse o quadro mais precioso na ornamentação de todos os lares.

Dou um suspiro profundo. Abro os olhos e vejo que o tempo e o vento se encarregaram de roubar meu projeto.

Agora mudei de ideia. Abri uma janela para a alma e iniciei meu novo trabalho. Estou construindo um asilo bem no cantinho do meu coração. É o lugar onde vou asilar Erechim, meu “avozinho”, pelo resto de todos os dias de minha vida.

E pela janela da alma, em dias de céu azul, contemplarei as pegadas que meus passos deixaram marcados neste chão.

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