A questão da imigração na região norte do Alto Uruguai foi amplamente debatida academicamente e resultou em obras que retratam estes processos por diversos ângulos. Todavia, um novo processo tem ocupado um lócus na sociedade regional, abordei a temática nos artigos “Fronteiras Simbólicas e as (i)migrações no Alto Uruguai Gaúcho” (I, II e III), em 07, 14 e 21/03/22 e nos artigos “Imigração, desenvolvimento e políticas públicas” (I, II e III) em 04, 11 e 13(14 e15) /08/2022.
Em abril, devido ao aniversário de emancipação política e administrativa de Erechim a temática volta à cena. Neste sentido, compreender os fluxos (i)migratórios do século passado deveria proporcionar a compreensão dos movimentos ocorridos no século XXI. Afinal, os objetivos são praticamente os mesmos: trabalho, qualidade de vida, abrigo e acumulação de capital.
Volta e meia, lembro do romance estadunidense “As Vinhas da Ira autoria de John Steinbeck, publicada originalmente em 1939, e se passa em 1929, durante a crise que sacudiu o mundo e freou o “American Way of Life” A crítica especializada considera a obra mais debatida ao longo do século XX nas escolas e universidades.
Afinal, a obra narra a história de Tom Joad, um ex presidiário que após sete anos de, encontra o ex pregador Jim Casy no caminho para sua antiga casa. Ao chegar, surpreende-se que a fazenda que foi dos seus pais estava abandonada, e recebe o aviso que sua família estava na casa do “tio John” e caminha até lá, deparando-se com os preparativos para uma mudança.
Sua família está partindo de Oklahoma para a Califórnia em busca de empregos, já que os bancos fecharam as fazendas. A família vende tudo por alguns dólares e parte busca de um futuro melhor. A chegada a Califórnia demonstra algo comum nos fluxos (i)migratórios: o estreitamento das relações entre aqueles que se encontravam em estado de penúria.
A narrativa de um grupo social em busca da “terra prometida”, de um “el dorado”, de reconstruir a vida, nos soa familiar, pois é a base da compreensão de qualquer fluxo (i)migratório. Os europeus e descendentes de europeus nascidos nas colônias velhas que vieram para oficializar a ocupação da terra na Colônia Erechim receberam apoio das políticas governamentais que excluíam deste processo negros indígenas e caboclos. Ao contrário dos senegaleses, haitianos e venezuelanos que vieram e vem para cá com os mesmos objetivos, mas sem políticas públicas capazes de suprir todas as necessidades básicas.
A complexidade de discutir os fluxos (i)migratórios é exatamente esta, os pesos e as medidas distintas. Mesmo considerando as alterações socioeconômicas de um século para outro. Pensar no outro, sendo ele culturalmente diferente exige compreensão, respeito e empatia, o que anda em falta ultimamente.