Neste momento que a guerra entre Rússia e Ucrânia completa um ano, a coluna entrevistou o erechinense Vitelio Brustolin, que é professor de Relações Internacionais da Universidade Federal Fluminense no Rio de Janeiro e pesquisador de Harvard e que ao longo dos últimos 365 dias emprestou seu conhecimento para os principais veículos de comunicação do país, analisando cada etapa da guerra e suas consequências.
Vitelio prospecta vários cenários sobre o conflito e as variáveis sobre os possíveis desfechos da guerra.
Uma das possibilidades é a vitória da Rússia. Como seria esse desfecho?
Vitelio: Sim, com ofensivas decisivas após forte mobilização com equipamentos suficientes. A consequência da vitória russa seria a necessidade de reformas no Sistema Internacional (Direito e Organizações Internacionais). E países como Moldávia e Geórgia seriam os próximos a serem invadidos.
E em caso de vitória da Ucrânia? E as consequências para a Rússia?
Vitelio: A vitória do país onde está ocorrendo a guerra pode se dar com o uso de armas modernas e contra-ataques, expulsando os russos de seu território. Por efeitos das sanções e do prolongamento da guerra na economia russa, com (improvável) mobilização interna com deposição do Putin. E a consequência disso são as decisões sobre o que aconteceria com Putin, e o julgamento de alguns russos por crime de guerra.
É possível uma guerra terminar empatada?
Vitelio: Lógico, mas pela via diplomática, o que pode criar um impasse com o congelamento ou prolongamento insustentável da guerra por longo período. Um final de guerra nestas condições seria propício para ambos os lados criarem narrativas para seus públicos. Neste cenário, num futuro próximo é provável uma nova guerra na Ucrânia, além de possíveis ondas de terrorismo.
Outro cenário é o ingresso de exércitos de outros países em território ucraniano.
Vitelio: Isso pode ocorrer caso a Rússia use armas nucleares táticas. A consequência desta ação é a expansão da guerra, apenas na Ucrânia, com tropas da OTAN atuando diretamente no conflito.
O conflito pode se estender para Belarus, país vizinho à Ucrânia?
Vitelio: Acho improvável que o exército de Belarus ingresse na guerra. Mas se isso acontecer é inevitável que o conflito se expanda por seu território.
Existe uma apreensão mundial com a possibilidade de uma Terceira Guerra Mundial. Em que circunstâncias isso pode ocorrer?
Vitelio: Um dos estopins para uma Terceira Guerra Mundial seria o ingresso da China no conflito, o que acho improvável. Outra situação que poderia deflagrar uma guerra mundial seria um ataque proposital da Rússia contra membros da OTAN. E ainda, por parte da Rússia, uso de armas nucleares estratégias, que praticamente formaliza a Terceira Guerra Mundial com Destruição Mútua Assegurada (DMA), que tem uma premissa simples: “se você me atacar, eu o atacarei de volta”. Trata-se de uma estratégia militar, de intimidar o adversário e evitar o uso das armas nucleares, onde todos saem perdendo.