Durante a construção de um artigo, deparei-me com o seguinte asserto de Richard Cox: “onde quer que vamos deixamos para trás um rastro de provas em forma de documentos” (COX, 2017, p. 185), a partir disso passei a refletir sobre a relação sobre o lugar da memória de papel perante a consolidação das memórias digitais.
Nossa proposta é debater sobre a documentação preservada em papel e formas de preservar os documentos digitais devido as tendências atuais de sustentabilidade e economicidade que buscam diminuir impressões, e a produção de documentos em papel. Nesta coluna, nos debruçaremos sobre documentos preservados por meio de apontamentos teóricos e metodológicos, e na próxima sobre os mesmos elementos, mas voltados para os documentos digitais.
Primeiramente, podemos trazer ao debate a concepção de que “ao se inventariarem os documentos preservados, é possível refletir sobre outros significados dos papéis escritos/guardados que passam do espaço privado para a visibilidade pública. Ao iluminarmos esses papéis “ordinários” podemos pensar na importância de uma memória de papel para o reconhecimento de diferentes práticas, costumes, rituais, ações e sociabilidades como ponto de partida para reinventar outros presentes [...]” (CUNHA, 2018, p. 22).
A escola Rankeana “ditou” as regras de como o historiador deveria se portar perante as fontes que estava pesquisando e que elementos valorizar para construir a historiografia desta fonte. A história dos grandes homens, das grandes batalhas e dos heróis, a partir dos documentos oficiais. Esta premissa engessou os estudos históricos e estigmatizou a primeira leva de historiadores alemães.
Todavia, esta história factual, e essencialmente documental, foi se reinventando com o advento da Escola dos Annales na França a partir de 1929. Esta escola trouxe ao debate elementos que outrora não eram consideradas fontes fidedignas. A inserção destes novos atores e autores sociais, abriu o debate para um corpus documental que era até então desconsiderado como fonte de pesquisa e produção intelectual.
Neste contexto, temos a consolidação dos Arquivos Históricos e Centros de Memória (a partir de 1970 – no Brasil), mesmo durante o regime militar. Em que se pese, que o Brasil ficou durante boa parte do século XX buscando formar um sentimento de brasilidade e por consequência narrativas para consolidá-lo. Não à toa, os Arquivos passam a atuar na coleta, tratamento e sistematização dos documentos históricos que consolidam as narrativas oficiais.
Aqui, cabe um ponto de inflexão, pois a consolidação das narrativas oficiais se dá sob uma perspectiva mais Rankeana que dos Annales, e isso influencia a constituição dos Arquivos e Centros de Memória. Assim, os documentos que foram triados literalmente geraram silenciamentos. O corpus documental daqueles grupos que não detinham “a caneta” foi relegado ao ostracismo. E, o processo de busca, reconstituição e desvelamento é complexo. A memória destes grupos está em constante ameaça de silenciamento, devido a dificuldade de acesso à documentos, depoimentos orais e fotografias.
Referências
COX, Richard. Arquivos Pessoais: um novo campo profissional – leituras, reflexões e reconsiderações. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2017.
CUNHA, Maria Teresa Santos. Entre Netuno e Clio: primeiras aproximações às cartas do Almirante Henrique Boiteux (Santa Catarina/Século XX). Revista Brasileira de Pesquisa (Auto) Biográfica, v. 3, n. 9, p. 900-911, set./dez. 2018.