O período marcado por temperaturas elevadas pode reacender o sinal de alerta em relação às pragas urbanas. Na região Alto Uruguai, o assunto envolve, principalmente, a possibilidade de uma significativa proliferação de insetos e ratos, por exemplo. Contudo, vários aspectos precisam ser considerados e vale ressaltar que algumas medidas podem ser aliadas na prevenção.
A professora do curso de Ciências Biológicas, doutora em Ecologia e Recursos Naturais, Rozane Maria Restello, alerta que, para as pragas urbanas são necessários quatro ‘As’: Acesso, Alimento, Abrigo e Água. Por isso, medidas como: acondicionamento adequado dos alimentos, do lixo, descarte de resíduos sólidos (para que não acumule), além da limpeza e conservação de todas as áreas, sejam públicas ou privadas, são essenciais. “As temperaturas elevadas sempre propiciam melhor desenvolvimento para qualquer animal. Com o verão e períodos mais secos, o ciclo de vida de ovo para a fase adulta, principalmente dos insetos, diminui muito e isso faz com que a proliferação fique muito acentuada. Desse modo precisamos tomar algumas atitudes para impedir isso. Temos, ainda, a falta de inimigos naturais, a exemplo das rãs e aves, que atrelada ao aumento da temperatura, desmatamentos, incêndios, colabora para esse aumento”, explica Dra. Rozane, citando, ainda, que todos os resíduos domésticos vão para as chamadas ‘bocas de lobo’: um local escuro, úmido e com alimento, muito propício para baratas e ratos, principalmente.
Impactos à saúde
Algo que chama a atenção e preocupa é o fato de que esses animais podem ser, direta ou indiretamente, agentes transmissores de doenças e, ao mesmo tempo, se proliferam rapidamente. “Ao pensarmos nas baratas, elas podem chegar nas casas pela janela, voando, e muitas se deslocam pelos ralos da pia, do tanque e do banheiro. Como estão nesses locais onde há muita matéria orgânica em decomposição, as baratas carregam muitos microrganismos, como bactérias, fungos, ovos de protozoários, de vermes e acabam entrando nos armários. Se houver um alimento que não estiver bem acondicionado, para ela será um alimento também e, ao fazer uso, alguns microrganismos podem ficar ali no alimento que será consumido por humanos. Entre os problemas estão as infecções, entre outras doenças”, destaca a especialista.
Outro ponto frisado pela doutora em Ecologia e Recursos Naturais, é o cuidado em azulejos ou lajotas quebradas ou rodapés com folga, espaços que podem se tornar abrigo diurno para as baratas que são ativas à noite. “Elas podem ficar sem se alimentar por até 15 dias e, entre os insetos, é a espécie que consegue se adaptar às condições mais adversas, são extremamente resistentes, é um grupo difícil de exterminar, podem viver até três anos, são onívoras (se alimentam de tudo, inclusive papel) e cada fêmea pode gerar até 800 filhotes”, pontua Dra. Rozane.
Limpeza e desinsetização
Se, mesmo com a limpeza constante e cuidado redobrado, for detectada a presença de qualquer espécie, a orientação é que seja realizada a limpeza constante dos ambientes e, em casos mais graves, busque-se a desinsetização por meio da escolha de uma empresa de confiança, que siga todas as normas exigidas por lei. “As medidas devem ser permanentes, inclusive no inverno, com atenção especial ao verão”, acrescenta.
A bióloga enfatiza que a atenção é necessária, do mesmo modo, para o combate aos ratos que podem gerar a leptospirose, por exemplo. “Por isso, é essencial haver o controle, pois é uma questão de saúde pública. Assim como as baratas, no caso dos ratos, há produtos que podem ajudar, como a desratização com profissionais especializados. No entanto, a limpeza é imprescindível, além da vedação dos espaços”, salienta.
De quem é a responsabilidade?
No enfrentamento das pragas urbanas, além do poder público, que também possui competência diante dessa questão, a responsabilidade deve ser compartilhada com cada cidadão. “Cuide de seu quintal (pode ser uma vez por semana), com recolhimento de resíduos sólidos e atenção aos mosquitos que se proliferam muito no verão, principalmente com umidade, e são uma praga. Evite tampas de vasos e outros recipientes que possam armazenar água parada”, declara.
Erechim conta com programas de combate
A chefe do Serviço de Controle de Vetores e Pragas Urbanas da Prefeitura de Erechim, Francieli Arsego, destaca que a Vigilância em Saúde tem programas específicos de combate ao borrachudo (que hoje não causam doenças mas incomodam) e às baratas, ratos e moscas. “Estudos mostram que os borrachudos podem voar até 500 quilômetros. Desse modo, o alerta é para o campo e a cidade. Já no caso das baratas são feitas aplicações de produtos inseticidas, em momentos específicos, nas bocas de lobo”, pondera.
Normalmente isso ocorre em um intervalo médio de 90 dias e ao anoitecer. “Como nas bocas de lobo, originalmente, há água, não é possível aplicar aleatoriamente veneno nesses locais. Algumas pessoas questionam e solicitam, também, a aplicação de produtos nas residências, contudo, nosso acesso acontece nas ruas. Buscamos desenvolver um trabalho preventivo e, desse modo, é imprescindível que a comunidade colabore e cuide a questão de lixo e limpeza das áreas”, explica.
Após a aplicação é desenvolvido um relatório com várias informações, tais como: quantidade e tipo de produto, entre outros dados relevantes à preservação ambiental.
Como a comunidade pode proceder?
Os munícipes que identificarem algum problema podem fazer a solicitação de desinsetização e desratização, por meio de protocolo no setor da Ouvidoria da Prefeitura de Erechim. “A demanda será inclusa num cronograma. O município possui um setor com uma equipe de controle de pragas e os servidores também realizam o chamado ‘bloqueio de transmissão’ para o mosquito Aedes”, reforça Francieli.
Prevenção de doenças e foco no combate ao Aedes
O diretor da Vigilância em Saúde, Paulo Henrique Saldanha Botton, ressalta que o papel da Vigilância em Saúde é atuar, entre outros campos, na prevenção de doenças. Ele comenta que, nessa questão de pragas, há um trabalho evitar uma pressão no sistema de saúde. “É algo muito importante e envolve uma equipe multidisciplinar com biólogos, médicos veterinários, agentes de combate às endemias e fiscais com diferentes formações. As ações são contínuas e com algumas especificidades sazonais”, diz, mencionando que, nesse momento há um foco especial em relação ao mosquito Aedes aegypti que registrou uma epidemia de dengue no ano passado e resultou em três óbitos e mais de 3 mil confirmações.
Paulo Henrique explica que foi alterada a estratégia de distribuição dos agentes de combate às endemias, os quais ficavam concentrados no centro e faziam um roteiro nos bairros. “Hoje estão nas localidades, nos diferentes pontos, integrados às equipes das UBS’s e mais próximos da população”, completa.
Fiscalização e controle
Edison Alves da Rocha acompanha diretamente as equipes à campo e atua na área de fiscalização sanitária e ambiental. “Quando há problemas ou identificação de possíveis criadouros de mosquitos, é feita uma orientação aos moradores e após, inspeção para verificar se foi resolvida a questão. Percebemos que a maioria das pessoas está mais preocupada em observar os cuidados nos terrenos, contudo, ainda há bastante focos. Lembramos que o município está infestado desde 2007. Por isso, é necessário controlar a população desse mosquito. Uma dica é: reserve 10 minutos para vistoriar o pátio”, evidencia.
Atualmente, de acordo com Rocha, o maior problema se refere a algumas caixas de água para coleta da chuva que são mal armazenadas, sem tampa e sem tela. “É importante que sejam colocadas, ainda, pastilhas de cloro”, cita.
Nesse período do verão, em torno de 70% das coletas de larvas que são realizadas no município, são de Aedes aegypti.