Provavelmente você tem uma “farmacinha” ou outro espaço reservado na sua casa para guardar alguns remédios de uso contínuo ou caso precise em alguma emergência, por exemplo. Agora, você monitora quais itens estão ali, à sua disposição? Qual a frequência que tem contato? Segue as orientações médicas?
Se você ficou com dúvidas ou não parou para pensar sobre esse assunto, cuidado! Vale o alerta sobre o uso racional de medicamentos, que pode interferir diretamente na qualidade de vida e bem-estar.
A farmacêutica e professora titular de farmacologia da URI – campus de Erechim, Dra. Helissara Diefenthaeler, explica que o conceito foi definido pela Organização Mundial da Saúde (OMS), desde 1985 e descreve que o uso de medicamentos deve seguir alguns regramentos, como: ser apropriado ao paciente conforme suas necessidades clínicas; ser administrado em doses adequadas, respeitando a particularidade de cada indivíduo, ou seja, se é uma criança, uma gestante, uma pessoa com alguma comorbidade, enfim, e por um período adequado. Se ele for de uso contínuo, a administração não deve ser interrompida e não deve haver mudança na quantidade de dias. “Do mesmo modo, o mais importante ainda, é que os medicamentos devem ser ofertados ao menor custo possível à sociedade, para que o acesso seja facilitado”, destaca, citando que, em sua avaliação, ainda há muitos problemas relacionados ao assunto. “Temos uma longa trajetória até chegar efetivamente ao uso racional de medicamentos”, acrescenta.

Pesquisas mostram
Helissara, que é mestre em Ciências Farmacêutica e doutora em Nanotecnologia Farmacêutica, atua como docente nos cursos de Medicina, Farmácia, Fisioterapia, Enfermagem, Odontologia, Nutrição e Biomedicina. Ela pontua que há estudos que mostram que apenas metade dos consumidores compram um medicamento para um tratamento completo. Além disso, outras pesquisas assinalam que apenas 50% de todos os medicamentos são prescritos, dispensados ou usados de forma adequada.
Reflexão nas escolas
Em âmbito de Estado, o governo resolveu oportunizar a reflexão e o conhecimento sobre o uso racional de medicamentos nas instituições de ensino público, por meio de uma campanha que integra o Programa Saúde na Escola. Por isso, as inscrições para a 1ª edição do concurso artístico Farmácia vai à Escola/2021 estão abertas até 30 de setembro. Os melhores trabalhos serão premiados com tablets durante o Fórum Brasileiro sobre Assistência Farmacêutica e Farmacoeconomia promovido pelo Instituto Nacional de Assistência Farmacêutica e Farmacoeconomia, em 18 de outubro de 2021, de forma on-line.
O concurso é destinado a estudantes matriculados em escolas públicas municipais e estaduais do Rio Grande do Sul, das séries iniciais do ensino fundamental; séries finais (6º ao 9º ano) do ensino fundamental; novo ensino médio (1º ao 3º ano) e da Educação de Jovens e Adultos (EJA).
Para a professora da URI, essa campanha é muito importante. “Sabemos que tudo que se adquire ainda na infância, é mais fácil de se tornar um hábito. Podemos fazer um comparativo com a alimentação ou exercícios físicos. Geralmente queremos ter uma rotina mais saudável na vida adulta e isso é mais difícil de se tornar um cuidado contínuo”, relata.
Os perigos da automedicação
De acordo com Dra. Helissara, ainda há um alto índice de automedicação na sociedade como um todo, e vários fatores podem estar associados a isso. “Um deles é a cultura da “medicamentalização da saúde”, conceito pelo qual, para ter saúde ou aliviar qualquer sintoma clínico, parece que o uso de medicamentos é o que contribui e nem sempre isso é verdadeiro”, alerta.
A farmacêutica reitera que há muitas pessoas que se medicam por conta própria e buscam comprar medicamentos para aliviar sintomas que apresentam no dia a dia, sem ter conhecimento de diagnóstico. “Nesses casos, muitas vezes, podemos estar “mascarando” um diagnóstico de uma condição clínica mais grave. Se considerarmos o que aconteceu durante a pandemia, quando pensou-se que o uso da Ivermectina poderia prevenir as contaminações pelo Coronavírus, percebemos a busca exagerada por esse medicamento. Isso que não havia comprovação clínica sobre tal eficácia. Estudos recentes mostram que, de fato, a Ivermectina não tem atividade perante a questão da covid-19. No entanto, muitas pessoas utilizaram porque “ouviram falar” que poderia se tornar efetivo”, enfatiza.
Por isso, fique atento, pois muitas vezes, o uso de um medicamento de forma errada pode causar muito mais danos que benefícios, tais como: reações adversas associadas e interações com outros medicamentos que o paciente utiliza. “Por outro lado, também há pacientes que usam os medicamentos de forma adequada, com prescrição médica e adesão ao tratamento”, pondera.
Descarte de medicamentos
Os aspectos relacionados ao descarte de medicamentos também integra a campanha desenvolvida nas escolas e merece um cuidado expressivo. “Toda população quando adquire um medicamento, nem sempre faz o uso por completo. Muitas vezes, temos em casa, itens que foram abertos e deixaram de ser utilizados ou ainda, que já venceram. Diante disso, o que nem todos sabem é que é possível retornar esses medicamentos para um posto de coleta que são as próprias farmácias, as quais darão o destino correto”, salienta Dra. Helissara, mencionando que descartar medicamentos no vaso sanitário, na pia ou no lixo comum, não é correto, pois gera a contaminação do meio ambiente.
Cuidados essenciais na administração de medicamentos
Segundo a professora de farmacologia, há muitos aspectos que precisam ser considerados, entre os quais, está o pensamento: ‘realmente há necessidade de usar o medicamento?’ Se a condição do paciente exigir esse uso, deve ser observada a dose, os intervalos e a via de administração. “O paciente deve saber que, ao iniciar um tratamento podem surgir algumas reações diferentes das esperadas – reações adversas – e se elas alteram a qualidade de vida, deve haver uma conversa com o médico para avaliar a continuidade do uso ou não do medicamento. Outra situação, que nem sempre é levada em consideração, é que, muitos já utilizam alguns medicamentos e, quando iniciam um novo tratamento, pode haver uma interação entre eles e potencializar um efeito de um medicamento ou diminuir a ação farmacológico de outro”, observa.
Por isso, vale ressaltar que o uso de medicamentos é algo mais complexo do que se imagina e por isso, os cuidados são permanentes, desde a escolha até todas as outras etapas que compreendem a administração. “Se utilizar medicamentos, que se tenha um acompanhamento e um monitoramento profissional. Por mais que um medicamento pareça inofensivo para um paciente, pode não ser para outro. Cada organismo e condição clínica é específica”, enaltece a professora e farmacêutica, que acredita que a pandemia possa ter levado a um aumento da automedicação e a uma busca maior por medicamentos, na ideia de buscar prevenir problemas relacionados com a covid-19.
Desse modo, o ideal é sempre buscar um serviço de saúde para esclarecer as dúvidas e receber as orientações específicas que favoreçam a sua saúde.