Especialistas de todo o País reforçam a recomendação para que gestantes já imunizadas com as duas doses da vacina contra o Coronavírus não voltem ao trabalho presencial. Representantes da obstetrícia, da Justiça do Trabalho e do Ministério da Saúde falaram na semana passada, à Comissão Externa da Câmara dos Deputados de Enfrentamento à covid-19. Eles reconhecem as pressões dos empregadores e das próprias gestantes para a retomada do trabalho presencial, mas recomendaram cautela e cobraram meios de transferir atuais encargos financeiros dos patrões para a Previdência Social.
A Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) mostrou dados internacionais do elevado índice de mortalidade por covid-19 entre gestantes e mães de recém-nascidos (puérperas).
Na mesma linha, a médica ginecologista e obstetra, Vanessa Faresin Rodrigues, destaca que é favorável ao não retorno das mulheres grávidas ao trabalho presencial, durante toda a gestação.
Ela explica que o principal motivo é a hipercoagulabilidade - um estado hereditário ou adquirido que aumenta o risco de formação excessiva de coágulos sanguíneos. “A gestação, por si só, aumenta as chances de eventos tromboembólicos, como trombose venosa, embolia pulmonar, e no caso da covid-19, também sabemos que a doença está relacionada a esse tipo de situação, pois os pacientes tem um aumento da coagulação sanguínea”, salienta.
Conforme a especialista, o assunto merece uma atenção especial, pois, no caso da gestação, quando a paciente possui uma complicação, em alguns casos não é possível salvar a vida do bebê. “Por isso, vale um cuidado redobrado, não somente em relação ao trabalho, mas no dia a dia com familiares, visitas, sendo importante, também, a acessibilidade dessas pacientes aos serviços, principalmente quando há mais exposição”, afirma.
Baixa adesão às vacinas
Vanessa pontua que outra preocupação expressiva refere-se à adesão das gestantes à vacinação contra a covid-19. “Muitas pacientes que atendemos estão bem relutantes para receber a dose, pois estão com medo de efeitos colaterais ou adversos. Algumas querem esperar o bebê nascer para fazer a vacina, contudo, o risco maior de problemas a partir da contaminação pelo Coronavírus, é na gestação e no puerpério – 45 dias após o parto”, ressalta.
Segundo a médica ginecologista e obstetra, é fundamental que todas as gestantes recebam o imunizante, pois as unidades de saúde orientam sobre qual é apropriada para o público e qual o prazo que deve ser seguido. “Algo que vem nos animado bastante são estudos que estão sendo realizados em relação aos bebês das mães que são vacinadas contra o Coronavírus, os quais podem estar nascendo imunizados. Isso representa uma esperança a mais a todos, em meio a um cenário tão desafiador vivenciado há mais de um ano”, enfatiza Vanessa.
Óbitos
Segundo o Ministério da Saúde, houve 12.260 casos e 1.090 óbitos de gestantes e puérperas por covid-19 desde o início da pandemia no Brasil. Só neste ano, foram 6.925 casos e 800 mortes. A maior parte das vítimas tinha entre 20 e 39 anos de idade e apresentava outras comorbidades, como hipertensão, diabetes e obesidade.
Integrante do grupo técnico de vigilância epidemiológica da covid-19 do Ministério da Saúde, Priscila Alencar também recomendou cautela na volta do trabalho das gestantes.
Na mesma linha, o presidente da Academia Brasileira de Direito do Trabalho e ministro do Tribunal Superior do Trabalho, Alexandre Agra Belmonte, alertou que o estado de emergência se mantém até que 70% da população esteja imunizada. “O risco persiste e são inúmeros os casos de contaminação por covid-19 com graus variados de enfermidade, inclusive por quem já tomou as duas doses da vacina. Penso que juridicamente seria precoce o retorno, ainda mais acrescentando a questão do transporte coletivo ao qual muitas dessas gestantes vão experimentar”, ponderou Belmonte.