Conciliar o trabalho hospitalar com o dia a dia fora da linha de frente no combate a pandemia, têm sido um desafio. A reportagem conheceu três mulheres, profissionais da saúde, que trabalham na Fundação Hospital Santa Terezinha de Erechim, e mostra a rotina delas por trás das máscaras.
Trabalha até seis noites por semana
Com o trabalho na escala 12 por 36h, a técnica em enfermagem da UTI Geral do Hospital Santa Terezinha de Erechim, Luciana Batista Nunes, se dedica para conciliar a rotina hospitalar pesada, com o convívio familiar e afazeres de casa. Com 37 anos e dois filhos, uma pequena e um que está na graduação em SC, acaba por vezes fazendo horas extras em noites de folga, trabalhando até seis noites direto, dormindo somente do meio dia até 13h20min. “Chego em casa e vou diretamente para o chuveiro. Deixo tudo separado o que uso para ir até o trabalho, pois tenho minha filha de três anos acordada me aguardando já para brincar. Quer atenção devido a pandemia ela não está indo à escola por eu ter bastante receio. Brincamos, faço o serviço de casa, almoço, e seguimos o dia muitas vezes não consigo sentar pois a canseira chega e não posso dormir e deixar uma criança sozinha pois muito raramente ela dorme durante o dia”, conta a profissional, que conversa com os filhos por chamada de vídeo a cada 15 dias por meio das redes sociais.
Formada há 10 anos, diz que seu maior desafio dentro do hospital foi atuar na UTI Covid, pois quando iniciou a pandemia todos tinham pânico em ir parar na linha de frente. “Víamos muitos colegas chorando quando tinham que ir trabalhar lá pelo medo da contaminação e muitas vezes de contaminar familiares. Muitos de nós têm crianças pequenas, pais, avós, e o medo de contaminar quem amamos com certeza era e é bem pior que o medo de nos contaminar até hoje”, afirma.
A primeira morte por Covid-19
Entre um plantão e outro, o que mais lhe chamou a atenção foi o primeiro paciente que veio a óbito na UTI Covid. Ela conta que teve que arrumar ele, deixar com uma fralda, tamponar e colocar em um saco com uma etiqueta de risco, para, finalmente, ir para o caixão fechado. “Isso com certeza ainda é uma imagem que só quem vivencia sabe o que estou falando”. Após a experiência, já na UTI Geral, relata que nunca mais uma UTI foi como era, pois, recebe paciente pós-covid que muitas vezes depois de 30 a 40 dias de internação saem do Covid.
Segundo ela, na maioria dos casos dá pra ver no rosto a expressão de desespero dos pacientes, pois se veem em uma cama sem conseguir mexer nem as mãos, e pior que “muitas vezes eles saem do hospital e acabam indo a óbito mais tarde por complicações geradas pela doença”.
A motivação da equipe
Responsável pela UTI Geral que possui 10 leitos, UTI Covid com 24 leitos e Ala Covid com 30 leitos, Anderlise Augusta Viero de Mattos, de 29 anos, trabalha no mesmo hospital desde junho de 2020. Desde janeiro deste ano, ocupa o cargo de Gerente dos Serviços de UTI. Trabalha de segunda a sexta-feira no horário comercial, atendendo sobreaviso em alguns finais de semana e também algumas noites. Realiza intervalo das 12h às 13hs.
Devido às ocupações, precisou reorganizar a rotina de casa em parceria com o esposo, que tem sido um apoiador incansável. “Como não temos filhos ainda não tive dificuldades em me organizar para atender as demandas de trabalho bem como da minha vida pessoal”, relata. Formada em janeiro de 2015, conta que o maior desafio está em gerir o setor hospitalar mais crítico atualmente. Dispõe de uma equipe com aproximadamente 100 colaboradores da área da enfermagem, os quais estão sob sua responsabilidade. O que mais lhe motiva, é ver a equipe mesmo que por vezes cansada, sempre empenhada e comprometida em oferecer a melhor assistência aos pacientes.
“Esperança vai junto com o paciente”
Por outro lado, o que lhe desmotiva muito é ver que parte da população muitas vezes não colabora para a não propagação do Coronavírus, promovendo aglomerações, não fazendo uso correto das máscaras e demais cuidados (simples, baratos e fáceis), como higienização de mãos, não compartimento de chimarrão entre outras ações que são efetivas para não disseminar o vírus. “É muito triste ver o paciente antes de ir para intubação pedir por favor para que prometamos não os deixar morrer, ‘eu tenho filhos pequenos, pais idosos para cuidar’. Cenas assim são comuns em nosso dia a dia, e quando perdemos esses pacientes, um pouco da nossa esperança vai junto com ele”, afirma, fazendo um apelo à comunidade em relação aos cuidados.
O propósito de Anderlise é ver a família feliz, com saúde e conforto, sempre junto dela. Na área profissional, pede ao Criador saúde e força todos os dias para que possa continuar se dedicando cada vez mais a esta profissão linda que escolheu e que ama tanto.
Decisões: “tudo é debati entre todos”
Com uma rotina nada fora do normal, de afazeres domésticos, Rosângela Basse Tomazin, de 33 anos, consegue fazer tranquilamente. Desde 2019 trabalha no Hospital Santa Terezinha e, a partir do ano passado, é enfermeira na UTI Covid. Não faz horários fixos, e sim conforme possibilidade, além de não parar um procedimento por que está na hora de jantar ou fazer intervalo. “Tenho costume de dizer que a rotina do hospital e de um escritório tem o mesmo impacto na vida pessoal. Quem trabalha fora tem que saber conciliar casa com trabalho para que ambos fiquem lado a lado e não um interferindo no outro”, conta.
Formada há 11 anos, tem um filho de quatro anos e vê ele 12hrs no dia que trabalha e o dia todo quando está de folga. Para ela, o maior desafio é lidar com a impotência diante a algumas doenças. O que lhe motiva é ver os pacientes internados saindo bem e reencontrando seus familiares. Entretanto, sente-se desmotivada ao ver o trabalho incansável da equipe, a luta do paciente e ainda assim a perda dele. “Queremos que todos nossos pacientes saiam bem, mas infelizmente não é assim”.
O que mais chama a atenção, e que poucos sabem, é que existe sim uma hierarquia para a tomada de decisões. Segundo ela, não tem nada imposto, tudo é debatido entre todos para buscar o melhor para a equipe toda. “Fala-se muito sobre quem manda em quem e não é exatamente assim. Somos todos parceiros, trabalhamos juntos. Somos equipe multiprofissional”, reconhece. Dispõe de uma equipe com um enfermeiro (ela), seis técnicos em Enfermagem, um médico e um higienizador. Outrossim, entende que pode ter 20 pessoas numa equipe e ainda assim não prestar um bom atendimento. “O bom atendimento está mais relacionado a qualidade das pessoas que compõem a equipe do que a quantidade”, finaliza, contando que o que lhe representa é ‘fazer o bem sem olhar a quem’.