A realidade nos hospitais de todo país, é extremamente desafiadora. Na região de Erechim, isso não é diferente. Com a pandemia causada pelo Coronavírus, muitas são as dificuldades observadas nas diferentes áreas da saúde. No que se refere às doações de órgãos e realização de transplantes, os impactos são ainda mais expressivos, sendo que, há mais de um ano, ocorre uma diminuição significativa nos procedimentos.
O transplante é um procedimento de alta complexidade que é realizado em poucos centros no país, mas que tem muitas chances de devolver ao paciente sua qualidade de vida e uma sobrevida considerável. Considerado seguro, pode durar muitas horas e exigirá um período de internação para o paciente após a realização da cirurgia, para que ele possa ser acompanhado de perto por especialistas.
Realidade em um hospital de referência
Na Fundação Hospitalar Santa Terezinha houve uma doação de órgãos neste ano. Ao mesmo tempo, a direção e a Comissão Intra-Hospitalar (CIHDOTT) voltada à área específica, relatam que as filas de pacientes com complicações de saúde, só aumentam e o cenário é muito preocupante. "Percebemos que, do ano passado para cá, abrimos menos protocolos de morte encefálica e diminuíram os acidentes e alguns traumas que antes da pandemia eram registrados com mais frequência. Acho que o isolamento social contribui nesse sentido, o que é muito positivo. Ao mesmo tempo, diminuíram as doações de órgãos", observa.
Os potenciais doadores também devem passar por exames. "Em relação a covid-19, por exemplo, na região dependemos do RT-PCR que vai a Porto Alegre. Não é aceito todo tipo de exame para identificar ou não o contágio pelo Coronavírus. A pessoa também não pode estar com qualquer tipo de sintoma respiratório que possa sinalizar para a doença”, explica a integrante da Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos Para Transplantes, a psicóloga, Luana Fontanella.
Nos grandes centros de atendimento em saúde, como o foco no atendimento também se refere os pacientes com complicações da covid-19, também diminuiu o número de transplantes. “Por isso, as filas prosseguem e em aumento. Os hospitais estão sobrecarregados e o paciente que realiza um transplante, precisa de uma estrutura específica, inclusive com leito de UTI, caso necessário. Não é possível expor o paciente a riscos, principalmente em uma fase em que é necessário utilizar respiradores e oxigênio para pacientes com covid. Sendo assim, é complicado fazer um transplante”, relata, citando que casas de saúde do Norte do País, por exemplo, cancelaram todo tipo de procedimento em razão da expressiva demanda de atendimentos de pacientes com complicações provocadas pelo Coronavírus.
Em Erechim, a doação de órgãos aconteceu no dia 22 de abril.
Em todo o País
Segundo informações da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), em comparação ao primeiro trimestre do ano passado, houve queda de 26% na taxa de doadores. No caso de transplantes de pulmão, a diminuição foi de 62%; rim - 34%; coração - 34%; fígado - 28% e pâncreas - 5%. Do mesmo modo, diminuíram as taxas de transplante de medula óssea e córnea. “São dados muito expressivos e que preocupam, principalmente as pessoas que estão na fila, no aguardo por um órgão. Nem sempre as pessoas têm a dimensão sobre essa realidade”, declara Luana.
No caso do transplante renal, a lista cresceu 4,4% e o óbito em lista, aumentou 40% enquanto na especialidade de fígado, o índice foi de 21%.
Já os transplantes de pulmão diminuíram nas regiões Sul e Sudeste, 78% e 47%, respectivamente.
Falta de recursos
Ela reitera, ainda, que a falta de recursos voltados à medicação, oxigênio e respirador, não interfere somente nos serviços prestados aos pacientes com a covid-19. Se uma pessoa sofre um acidente ou um AVC, por exemplo, e necessitar de um suporte mais especializado, pode não ter à disposição. “Vivenciamos um período muito desafiador. A questão do oxigênio também exige uma atenção constante. Seguidamente recebemos um aviso: “pode ser que falte”. Diante disso, é preciso redobrar o foco e torcer para que isso não se confirme. Vale lembrar que há pacientes que necessitam de oxigênio na UTI neonatal, na UTI geral, nos quartos e nas alas covid. É algo amplo”, destaca a psicóloga.
Os pacientes que estão na fila para o transplante e aguardam a avaliação, também tiveram algumas consultas suspensas. No setor de Hemodiálise do Santa Terezinha, 11 pessoas estão na lista de espera e 10 aguardam a consulta para ingressar nesse cadastro.
O diretor técnico da Fundação Hospitalar Santa Terezinha de Erechim, o médico neurologista, Celso David Lago, salienta que desde o ano passado, com a pandemia causada pelo Coronavírus, houve uma significativa redução de pacientes que poderiam se credenciar para os transplantes. “As pessoas que podem estar aptas a doar os órgãos são, geralmente, aquelas que enfrentaram politraumatismo, sendo vítimas de acidente de carro, motocicleta ou quedas. Outra circunstância são os traumas cranioencefálicos graves que ocorrem, também, por ferimentos de arma de fogo”, pontua o especialista, ao observar que, em 2020, diminuíram de forma expressiva os acidentes de trânsito. “Isso é muito bom, afinal, são menos famílias sofrendo a perda de seus entes. Ao mesmo tempo, percebo que vivenciamos uma situação transitória em relação ao transplante de órgãos e que, no futuro, não lidaremos mais com o sistema intervivos, pois haverá uma metodologia na medicina que poderá criar órgãos específicos à doação. Não podemos somente “depender” dessas circunstâncias, pois a fila está lentamente crescendo. Esse sistema atual é um modelo que não irá nos servir para o futuro”, afirma.
Dr. Lago assinala que a população, de um modo geral, está vivendo mais, as doenças estão sendo melhor controladas e, portanto, muitos indivíduos apresentam falência de órgãos, fato que deve ampliar as filas já existentes.
Atrasos nos diagnósticos
Conforme o neurologista, ao mesmo tempo, a pandemia provocou um atraso nos diagnósticos. Um exemplo seria uma pessoa com um problema em algum órgão, que, caso não tiver um tratamento adequado, poderá, mais precocemente, apresentar uma insuficiência nos rins ou no fígado, uma falência do coração, enfim, uma situação que, caso não houvesse a pandemia, poderia demorar mais tempo para isso acontecer e levar à necessidade de um transplante. “Desse modo, o reflexo dessa diminuição da doação de órgãos e da realização de transplantes, vai repercutir nos próximos anos, em uma curva ascendente”, avalia o médico de Erechim.
Nesse sentido, vale mencionar que o tempo é muito importante e pontual para a recuperação dos pacientes. “Deve-se monitorar o quadro de saúde para que não se agrave progressivamente e ele não perca o momento adequado para o transplante”, alerta.
O maior número de pessoas que aguardam por um transplante, está entre os pacientes renais; na sequência, as maiores demandas são para fígado; coração; pulmão e pâncreas. “No caso do rim, a hemodiálise é um suporte que auxilia os pacientes nesse período de aguardo. Os outros órgãos não contam com um equipamento que possa substituir o que um rim artificial faz”, acrescenta o diretor técnico do Santa Terezinha.
Fale sobre o assunto
Dr. Lago e a psicóloga Luana reforçam que é fundamental que as pessoas conversem sobre a doação de órgãos como uma forma de estimular esse gesto que pode salvar muitas vidas. “A doação depende da comunicação do doador. Sempre vai valer a decisão do familiar. Por isso, é importante falar com a família sobre o assunto e verbalizar sobre o desejo de ser doador. É um momento muito delicado, mas quando há informações a respeito, os familiares sentem-se mais confiantes fazendo parte daquele processo, de modo participativo”, orientam.
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Em paralelo
Pós transplante e a rotina ampliada de cuidados
Em um cenário de pandemia, para as pessoas que realizam algum tipo de tratamento contínuo e especializado, é importante intensificar a necessidade da criação de protocolos de segurança.
Do mesmo modo, os pacientes que passaram recentemente por algum procedimento como o transplante, devem seguir direcionamentos específicos.
Após um ano e oito meses do procedimento hepático, a pedagoga que reside em Getúlio Vargas, Francine Brambatti Bagestan, comenta que a pandemia exige uma atenção ainda mais especial e que a rotina precisou ser adaptada às necessidades e cuidados para evitar o contágio pelo Coronavírus.

Emocionada, ela mencionou que, durante o processo de aguardo pelo transplante, a estimativa era o êxito do procedimento e, num futuro próximo, o retorno às atividades do cotidiano. No entanto, o que ninguém imaginava, era o início de um processo pandêmico. Diante disso, alguns planos precisaram ser adiados e, ao mesmo tempo, o foco permanente é a segurança e a proteção de sua saúde diante do Coronavírus. “Ainda hoje, continuamos, eu e meus familiares que são meus pilares de sustentação, seguindo todos os parâmetros de cuidados diários. Sendo transplantada, os valiosos e comprovados comportamentos que seguimos à risca são: evitar sair de casa sem os devidos aparatos, como máscara, álcool gel, manter o distanciamento social e evitar saídas a locais públicos (mercados, farmácias). Inclusive, sou grata pelos estabelecimentos por serem nossos parceiros, visto conhecerem minha história de vida e estão à disposição para atender minhas demandas domiciliares, sem ter a necessidade de eu sair”, ressalta.
Francine afirma que opta pelas saídas em locais isolados, em meio a natureza. “Não parei minha vida por conta da pandemia, mas não me preocupo apenas comigo mas com meus amigos e meus pais que são idosos com comorbidades leves. Então, todas as questões do dia dia e os cuidados são administrados por mim. Digamos, um certo “monitoramento” das saídas seguidas de casa”, revela, mantendo sempre o bom humor.
Segundo ela, a expectativa é que essa pandemia chegue ao fim, ou pelo menos que seja controlada o mais breve possível.
A pedagoga recebeu a primeira dose do imunizante da Oxford e a reação foi leve, mas a alegria e gratidão foram fortes. “O que me deixa frustrada é que muitas pessoas com graves comorbidades ficarão em décimo ou mais planos para serem vacinadas”, disse.
Para a getuliense, o momento é de reflexão sobre temas como: será que somos solidários? Somos unidos? Temos empatia? “A pandemia além de cruel e triste, expôs, ainda mais a realidade das diferenças sociais e algumas lideranças subestimaram a pandemia. Espero que um dia o Brasil se livre do pior vírus que já existiu!”, reiterou.