Quem já testou positivo para a covid-19, apresentou vários sintomas e até mesmo precisou de internação hospitalar, reconhece, ainda mais, que o processo de recuperação é geralmente demorado. Isso porque o tratamento não termina logo após alguns dias, e dependendo da situação, pode prosseguir por meses.
Nesta semana, a reportagem do Bom Dia conversou com o diretor técnico da Fundação Hospitalar Santa Terezinha de Erechim, o médico neurologista, Celso David Lago, que explicou um pouco mais sobre o assunto e, principalmente, reforçou o alerta quanto a necessidade de os pacientes manterem suas consultas com os especialistas, por no mínimo, meio ano.
Segundo o especialista, as pessoas podem receber alta, não transmitirem mais o vírus, porém, há risco de carregarem consigo, complicações a partir do contágio pelo Coronavírus. “A covid longa ou os sintomas pós covid podem se estender por um período de, em média, seis meses. As sequelas mais frequentes são as neurológicas e as neurocognitivas ou neuropsiquiátricas. A casa cinco pacientes, quatro podem apresentar alguma queixa relacionada a essas áreas”, observou Dr. Lago.
Nas neurológicas, pode haver perda do olfato, paladar, dores de cabeça, cansaço fácil, dor no corpo, fraqueza muscular, dificuldade de equilíbrio e perda da potência muscular.
Nas neurocognitivas, há o déficit de memória, dificuldade de raciocínio, de encontrar as palavras mais adequadas para alguma frase que queira proferir, tonturas, diminuição do interesse pelas atividades e até mesmo, depressão.
Conforme o médico, tais complicações acometem, principalmente, os pacientes mais fragilizados, que possuem mais comorbidades, que tiveram a carga viral mais forte e que necessitaram ficar mais tempo internados, principalmente nas Unidades de Terapia Intensiva UTI, com o uso de ventilação mecânica por tempo prolongado. “Aqueles casos mais graves, de derrame cerebral e encefalite, são poucos, felizmente”, pontuou.
Mais exposição para outras doenças
O diretor técnico do Santa Terezinha frisou que, o fato de uma pessoa ter passado pela covid-19, pode aumentar a exposição para outras doenças, como infarto, derrame, câncer, entre muitos problemas, que podem levar a morte, caso não houver um acompanhamento médico regular. Por isso é essencial manter as consultas com o seu médico e lembrar que o tratamento não termina com a saída da casa de saúde. “Ele recebe alta do hospital, mas não a “alta médica”, especificamente. Pode voltar para casa, trabalhar, enfim, mas precisa manter o contato e o monitoramento com o profissional, por no mínimo seis meses. Já existe, inclusive, uma preocupação mundial nessa questão do prosseguimento do atendimento a essas pessoas em recuperação”, reiterou Dr. Lago, citando que a Medicina não conhece completamente a covid e as equipes de saúde estão aprendendo, a cada momento. “Vai demorar para que possamos conhecer toda a fisiopatologia dessa doença”, completou.
Quanto aos medicamentos utilizados durante o tratamento dos pacientes, o especialista salientou que o hospital segue o padrão de orientação nacional e internacional. “Entendemos a manifestação e o desejo de representantes da sociedade, inclusive médicos, sobre a discussão para a introdução de terapêuticas alternativas, mas seguimos o padrão oficial”, comentou.
Complicações a partir de outros problemas
A orientação principal, disse Dr. Lago, é: “ao ir para casa, se perceber qualquer intercorrência, e que não faz parte da sua normalidade do dia a dia, volte ao médico. Quando digo isso, me refiro a todas as especialidades. As complicações não serão mais da covid, mas de novos problemas que podem surgir”, alertou.
O especialista explicou que os rins, por exemplo, são os órgãos que mais sofrem com a covid. Desse modo, não está descartado que, em alguns meses, o paciente possa apresentar uma perda da função renal. Por isso, precisa ser monitorado. “Os rins não apresentam sintomas no início das complicações, somente quando já está com insuficiência, o que pode causar, ainda, anemia, mudança da coloração da pele, da cor e volume da urina, pressão alta e inchaço. Sendo assim, é preciso se antecipar a esse quadro”, ressaltou, acrescentando que a facilidade com que pode ocorrer distúrbio de coagulação sanguínea nas veias, vasos e artérias, pode levar ao entupimento de uma coronária, causando infante ou derrame. Outro ponto é que há risco de comprometimento de uma artéria do intestino, levando ao mau funcionamento do órgão, ou problemas circulatórios que atingem os membros inferiores ou superiores”, mencionou.
Uma doença sistêmica
Por fim, Dr. Lago enfatizou que a covid-19 é uma doença sistêmica, que afeta todo o corpo humano. Desde o campo neurológico, visual, pulmonar, linfático, circulatório, renal, gastrointestinal, hepático, até outros. “O vírus passou por todo o conjunto de órgãos e sistemas que formam o nosso organismo e pode deixar uma marca que precisa ser acompanhada”, esclareceu.
Central de atendimento em Erechim
O município de Erechim iniciou, há poucos dias, com os atendimentos na Central de atendimento Pós-Covid, localizada ao lado do Hospital Santa Terezinha, no Centro Acadêmico de Práticas da Saúde e Ambulatório de Medicina da URI.
As pessoas atendidas são encaminhadas pelos hospitais e pelas Unidades Básicas de Saúde (UBS’s), sempre após o período de isolamento da doença. Neste primeiro momento, os atendimentos estão sendo realizados nas terças e quintas-feiras, nas especialidades de Psicologia, Nutrição, Fisioterapia, Neurologia, área Vascular, Psiquiatria, Cardiologia e Pneumologia.