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Opinião

O Sapateiro de Bruxelas, o Fim do Universo e o Voo da Galinha

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Alcides Mandelli Stumpf.
Por Alcides Mandelli Stumpf
Foto Rodrigo Finardi

O Sapateiro de Bruxelas revela a seus amigos de cafezinho uma interessante constatação durante o período da pandemia: descobriu que é um ser alado que veio para esta vida sem asas. Nem por isso deixou de voar. Às vezes, é verdade, como ele mesmo afirma, não voa longe, - voo de galinha, diz galhofeiro.

Por cautela e comodismo não se arrisca a maiores distâncias. Prefere referências bem conhecidas: serras, coxilhas, planícies e galáxias mais próximas. Não ultrapassa os cento e dez mil anos luz de forma alguma. Não anda afoito, flutua leve e contorna os buracos negros com a suavidade necessária ao bem-estar. Não questiona a antimatéria e, desacompanhado, definitivamente concluí, aprecia o silêncio e a noite.

Por voar, o Sapateiro se diz avoado. Distrai-se a toda hora e, ao andar vagando no espaço, não percebe as mudanças terríveis, milimétricas, que ocorrem na Terra firme.

Conta o artesão que num desses seus voos caseiros foi acometido por grande surpresa. Enquanto zapeava na internet, deparou-se com uma notícia realmente revolucionária à época: a conceituada revista científica britânica Nature publicara estudo de sábios cientistas italianos, afirmando que o Universo está em permanente expansão.

Ora vejam - diz o camarada belga, - nem eu e nenhum de vocês, que eu saiba, havíamos percebido tão relevante fato. Pelo informado, os mestres itálicos foram à Antarctica (ou ao Ártico) para chegar a tão radical conclusão. Expedição nada convidativa devido à falta de atrativos turísticos e ao clima glacial, mas de resultados surpreendentes e inquestionáveis.

O Sapateiro acredita e afirma solenemente que tal descoberta só pode ser comparada à invenção da roda na pré-história ou da pólvora, mais recentemente, pelo monge alemão Bertold Schwarz.

E convida ao grupo de amigos a perceber as poderosas consequências advindas da dita novidade: doravante todos os seres mais ou menos bem informados, deste singelo planeta do Sistema Solar, serão sabedores que os corpos celestes – todos, sem exceção – estão gradualmente se afastando entre si, numa marcha sem volta. E pior: com fim definido e inexorável.

A teoria reveladora informa que está ocorrendo uma permanente expansão do mundo, infinito adentro - ou afora, de acordo com o ponto de vista do observador.

Diferente do que pensavam até há pouco as vis mentes antiquadas, o Universo não voltará jamais a um mesmo ponto único inicial. Em momento algum acontecerá a densa massa, início de tudo e de todos, o núcleo comum. Não ocorrerá um novo Big Bang – nem em dezenas, centenas ou em milhares de bilhões de anos. Portanto, após tamanha revelação, fica determinado que todos os astros estão a afastar-se definitivamente. Assim está estabelecido e assim será. Acredite quem quiser.

A mais atual verdade matemática indica que não mais ocorrerá o movimento de contração e muito menos a implosão do Universo no grande reencontro festivo. Tão pouco haverá a descontração sequencial que viria a seguir, no espreguiçar dos céus ou alongamento sideral.

Os princípios de ida e volta, do puxa e empurra, do aperta e solta tão presentes no pulsar vivo da vida terráquea, não mais se aplicam ao soberano e imensurável Cosmos. Resta apenas a angustiante e única alternativa da viagem sem retorno, da estrada de mão única, do caminho infinito. Tudo e todos distanciar-se-ão até o momento em que a energia da última estrela se esgote ao grande apagão universal. Sobrará somente a distância, a saudade, o frio, o silêncio, a escuridão da noite eterna. A morte enfim.

É, portanto, de bom alvitre – segundo o bruxelense -, ter ciência que todos os corpos celestes e terrestres - os primeiros por destino e os segundos por consequência - em um lapso de tempo, estarão definitivamente distantes uns dos outros.

Portanto, com o andar da carruagem, não acontecerão mais contatos de qualquer tipo ou em qualquer dimensão. Não existirá brilho nem olhar; nem vozes, músicas nos ouvidos. Muito menos existirá tato, afago, troca de cheirinhos e fluídos; não haverá o whiskinho antes e o cigarrinho depois – como acontecia em sua distante mocidade. Tão pouco existirão os bafos mornos das manhãs precoces, ou mesmo os pés gelados das noites frias de Erechim.

Há outro importante aviso: os mapas astrais deverão passar por revisões periódicas, a cada três ou quatro bilhões de anos, visando a não ocorrência de desencontros corporais ou confusões com extravio de bagagens nas futuras viagens intergalácticas.

Reforça ainda o belga, que ademais, os cientistas italianos, colocaram um ponto final em uma das mais antigas discussões da humanidade e instauraram de forma definitiva, com peso de um grande queijo parmesão, a metafísica religiosa.

Explica o Sapateiro que até então, os materialistas retrógrados, eram adeptos da teoria do retorno. Aquela história do vai e vem. No entretanto, com o recente achado científico ficou provado que doravante a coisa só vai e não vem. E, se só vai, é por que houve um fabuloso arranque, o famoso pontapé inicial, o ato singular, criacional, deflagrado naturalmente por algum ente absolutamente superior e poderoso.

A breve e rude explicação, dada um tanto às pressas, é péssima para os ateus e definitivamente vencedora para os crentes.

De qualquer modo, do jeito que as coisas andam, depois da calculadora eletrônica, do telefone celular, do computador de mesa, dos laptops, da internet, Google, além de milhares de aplicativos e outros que tais, não será surpresa nenhuma se aparecer algum japonês ou assemelhado provando com imensos números a grande verdade (ou seu inverso). Provavelmente, o velho Albert Einstein ainda será comparado a um cágado ultrapassado e chegar-se-á à fórmula do início, da origem (ou será do fim?). Quem viver verá.

Mas como ninguém sabe direito o que vai acontecer amanhã, nem na terra como no céu, o Sapateiro recomenda que por enquanto todos voem com ele, pois o fim, o fim mesmo, com ou sem fenômenos metafísicos ou metáforas desprezíveis, continuará sendo o mesmo: a distância infinita, a solidão total, a amargura da ausência.

Assim sempre foi, ainda é, e eternamente será – e nem é preciso se ir longe. Fica cada um com a sua própria experiência. Seu voo próprio de galinha.

 

 

Médico e membro da Academia Erechinense de Letras

 

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