Iniciou, nesta semana, a colheita da noz pecã em todo o estado do Rio Grande do Sul. Atualmente, a região Alto Uruguai tem cerca de 114 hectares de área plantada com nogueira-pecã destinadas à produção e comercialização.
Os agricultores erechinenses, Júlio Kotliarenko e Fernanda Trombini Jacobus, tem dois hectares plantados de nogueira-pecã. Eles resolveram investir na cultura como complemento de renda. Inclusive tem um funcionário que auxilia na produção. “Sou filho de agricultor e produtor rural com foco na cultura da soja, milho e trigo. Sou engenheiro agrônomo e me dedico a produção agrícola desde sempre”, afirma Júlio.
Início
Júlio conta que plantou as nogueiras a nove anos atrás buscando viabilizar uma área, própria, próxima de Erechim. “O total da área são 5 hectares com um pomar de 2 hectares”, afirma. Ele comenta que o pomar começou a produzir com 7 anos, mas significativamente para ser comercializado com 8 anos.
Características
“A noz pecã é uma cultura como qualquer outra atividade agrícola, que exige cuidado e dedicação para que possa produzir e gerar resultados”, observa.
Colheita
Ele explica que trabalha com a colheita manual, o que dá bastante mão de obra. “Porém, este ano consegui um prestador de serviço de Lajeado, que estava pela região, e colhemos de forma mecanizada 60% da produção. O restante está sendo manual, porque o amadurecimento é desuniforme, já que o pomar tem arvores de variedades diferentes. Tenho quatro variedades. Além do que, a máquina deixa uma parte nas arvores e precisa ser repassado todo o pomar para colher o que fica”, comenta.
Dificuldades
A principal dificuldade é a mão de obra, observa o produtor, além de conhecimento técnico isento, controle de pragas, poda e doenças. “Uma dificuldade muito grande é o controle de pássaros, que se não controlada, compromete toda produção. Precisa ficar uma pessoa de plantão no pomar quando os frutos estão amadurecendo, e espantando com foguetes, principalmente, gralhas e caturritas verdes. Essa ave vem aumentando muito, não só na noz como em outras culturas como a do milho”, diz.
Os custos são altos, principalmente na aquisição de maquinário para pulverização, mão de obra, manejo de pragas e doenças, sem contar com o custo de implantação do pomar pois são mudas caras e precisam ser bem cuidadas para que possam expressar seu potencial produtivo 8 a 9 anos depois, ou seja, não é como uma cultura anual que planta e colhe no mesmo ano. Tem que ter paciência e caixa para esperar que comecem a produzir.
Comercialização
A venda da produção é feita pelo próprio produtor, que vende a noz pecã descascada com entrega a domicilio. “Se for entregar para terceiros ou na indústria o preço pago hoje não cobriria nem os custos de produção anual. A indústria paga muito pouco. O Brasil ainda não tem a papelada legal para exportação, então, na safra, como sobra produto, a indústria paga o preço que quer. Quando conseguirmos exportar, quem sabe esse cenário possa mudar”, explica.
E, acrescenta, “se não inovar descascando e agregando em qualidade do produto, com árvores bem nutridas, e um manejo tecnológico, que vai proporcionar um produto final superior, e agregar valor na venda, hoje, praticamente, inviabilizaria a cultura. Claro, em um pomar como o nosso que tem alto nível tecnológico, desde o plantio a nove anos atrás, e os manejos que fazemos ano a ano”.
Avaliação
Na avaliação de Júlio existem nozes e nozes no mercado local. “Muitos têm aquela árvore no fundo do quintal, que tem 30 ou 40 anos, e produz um volume grande, porém com qualidade inferior, e colocam esse produto no mercado a preços muito baixos”, observa.
“Esse a meu ver é o maior concorrente que tenho. Meu produto tem qualidade superior por ser proveniente de plantas melhoradas, e ser manejado de forma diferente. Utilizamos as melhores tecnologias disponíveis e acessíveis do mercado”, afirma.
O produtor comenta que se tem muito ainda a se aprender com a noz pecã, já que é uma cultura nova para a região. “Existem pesquisadores isentos e competentes gerando tecnologia aplicável à nossa realidade, que fazem com que possamos manejar bem o pomar com redução de custos e melhores resultados”, salienta.
Muito cuidado
“Muito se falou que plantar noz pecã seria uma aposentadoria garantida, que era uma planta de fácil manejo, sem muitos cuidados, de alta produção, e fácil comercialização. Acho importante ressaltar que o agricultor não deve acreditar nestas falsas promessas, pois como em qualquer outra atividade agrícola, as nozes são plantas que exigem cuidados, manejo, aplicação de tecnologia de ponta, custos elevados, e um mercado de comercialização complicado, que exige profissionalismo e dedicação”, ressalta.
Alto Uruguai
O engenheiro agrônomo, Luiz Ângelo Poletto, assistente técnico regional em Sistemas de Produção Vegetal da Emater, ressalta que a pecanicultura, produção de noz pecã, é uma cultura que requer bastante conhecimento e trato para se chegar a uma produtividade, em 10 a 12 anos, de 1500 a 2000 quilos por hectare. “Antigamente, se dizia que dava para atingir uma produtividade bem maior que essa, mas não é a realidade”, disse.
Neste ano, comenta Poletto, começam a surgir as primeiras áreas em produção na região, isso porque, a nogueira-pecã demora em torno de 8 anos para gerar uma renda significativa. “A região tem cerca de 44 produtores que trabalham comercialmente com a noz pecã. Hoje, os pomares em produção chegam a 70 hectares com uma produtividade estimada em 70 toneladas”, afirma.
Valores
Segundo Poletto, hoje, o quilo da noz pecã em casca está R$ 15, multiplicando com a produção estimada de 70 toneladas, geraria cerca de R$ 1 milhão. “Mas muitos produtores estão se organizando para vender a noz descascada, aí o quilo pode chegar a R$ 50 até R$ 60”, afirma.
O engenheiro agrônomo observa que a produção de noz é uma atividade complementar, que serve como opção para aumentar a renda na propriedade. O maior produtor do estado de noz é Cachoeira do Sul seguido de Anta Gorda, Canguçu, General Câmara, Santa Maria e Rio Pardo.
Conforme Poletto, a maior área comercial, na região, está em Itatiba do Sul com 24 hectares, depois vem Erechim com 16 hectares. “Erechim aumentou a área em função do incentivo de programa municipal, com muitas áreas pequenas de meio a um hectare, que irão entrar em produção daqui a três anos”, diz. Por fim, Poletto ressalta que não dá para criar expectativa no produtor de que ele vai ganhar muito dinheiro com essa cultura, porque isso não é verdade.