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Saúde

Saúde mental: aumento de 30% nos atendimentos e alerta para utilização de medicamentos

O psiquiatra Ramiro Ronchetti fala sobre o assunto e os impactos que a pandemia está gerando nas pessoas

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“Quando não conseguimos traçar um planejamento ou uma visão de futuro há maior possibilidade de se e
O psiquiatra Ramiro Ronchetti ressalta que a pandemia e as suas repercussões nos deixaram mais fragi
Por Nathan Breitenbach
Foto Ilustrativa

A Covid-19 não apenas desafia autoridades na gestão pública, que precisam conciliar as ações com os impactos econômicos e sanitários, mas também a saúde mental das pessoas. Diante disso, a busca por atendimentos nos consultórios de psiquiatria e SUS aumentou cerca de 30%, tanto de novas consultas – primeiro atendimento – como de pacientes que estavam estáveis e apresentaram piora nesse período. “O papel da pandemia tem sido central e várias questões, porém a incerteza com relação ao futuro, a preocupação com a saúde e o isolamento/distanciamento tem trazido grandes impactos para a saúde mental de todos”, afirma o médico psiquiatra Ramiro Ronchetti que também é professor do Curso de Medicina da URI  e Coordenador do Departamento de Saúde Coletiva e Humanidades. .

Quando consultar

Os motivos para procura de um profissional da área são diversos e vão além das demandas que observamos durante a pandemia. O médico explica que quando a pessoa não se reconhece mais, seja por sentimentos de tristeza, ansiedade, angústia, irritação ou isolamento, estamos diante de um momento de avaliação de que alguma ajuda possa ser muito importante. Graduado pela Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFSCPA), Ronchetti pontua que em geral sintomas de sofrimento psíquico que traduzem uma mudança de comportamento em que o indivíduo não mais se reconhece ou que pessoas próximas percebem uma mudança de postura ou jeito de ser, já seriam indicativos de algo não está bem.

 

Média de idade e atendimentos

Estabelecer uma média de idade aos pacientes que procuram o atendimento é muito difícil. Porém, o médico relata que a maior busca de pessoas na adolescência ou adultos jovens e também na terceira idade. “Tradicionalmente a busca era entre adultos na faixa de 30-50 anos, porém tem sido observado uma nova distribuição nestes outros períodos da vida”, esclarece. Dia ainda o profissional que quanto antes o tratamento for estabelecido, mais cedo o tratamento trará resultados e muitas vezes resultará em um período mais curto de tratamento.

 

 

Realidade diferente

O cenário de pandemia e a necessidade do distanciamento social trouxe consigo uma realidade diferente em relação aos atendimentos. De acordo com o especialista em Psicoterapia de Orientação Analítica pelo Centro de Estudo Luís Guedes/ HCPA, alguns atendimentos têm sido realizados de forma remota, se utilizando das plataformas online. Porém, sempre que possível e observada as condições, tenta conduzir o tratamento presencialmente para torná-lo mais próximo e pessoal.

 

Medicamentos controlados

Procurada pela reportagem, uma farmácia de Erechim relatou que não só aumentou a demanda por medicações controladas- com média de quatro clientes por semana- como também por medicamentos alternativos do tipo fitoterápicos e florais. O especialista em Psiquiatria pelo Hospital São Lucas da PUCRS, alerta que as medicações controladas (do tipo benzodiazepínicos) são muito importantes no tratamento de quadros de ansiedade e depressão.

 

Procura de forma desordenada

Devido ao potencial de abuso e dependência, a orientação geral é que se tratam de medicações de uso temporário, em geral no início do tratamento, devendo ser suspensas gradualmente. “O que estamos observando é um aumento pela procura de forma desordenada, muitas vezes com o paciente se automedicando, ou iniciando um tratamento e mantendo sem orientação médica, algo que deveria ser suspenso. O risco está nesse tipo de situação, em um tratamento que inicia de forma legítima e se torna um abuso ou dependência pela falta de seguimento adequado com o médico especialista”, enfatiza Ramiro.

 

Riscos da automedicação

Segundo o Mestre em Psicologia Clínica pela PUCRS, os medicamentos para ansiedade e depressão em sua maioria não são tarjas preta e não induzem ao risco de abuso e dependência. Porém, a avaliação e condução do tratamento deve ser conduzida por um especialista. Ronchetti explica que na maior parte das vezes são pacientes que iniciam o tratamento, mas não fazem o seguimento, conduzindo por conta própria, o que acaba ocasionando esta maior possibilidade de automedicação, em que se obtém receitas por outras vias – amigos, conhecidos ou mesmo médicos que fornecem a receita, mas não conduzem o tratamento como um todo.

Prejuízos cognitivos

Em alguns casos existe o repasse do receituário médico entre as pessoas. Conforme o médico psiquiatra, neste sentido, além de serem medicamentos que aos poucos se tornam prejudiciais ao sono, também trazem prejuízos cognitivos – piora da memória, atenção e concentração. “A maior parte dos quadros de abuso deste tipo de medicamento possui tratamento com medicações mais seguras e tranquilas no uso do dia a dia, porém mediante avaliação do especialista”, avalia.

 

Regramento da vida

Uma das questões frisadas pelo doutor, é a preocupação com a saúde e o risco de necessitar de uma hospitalização. Todavia, lembra a importância de observar os quadros de isolamento e distanciamento social – necessários para reduzir as taxas de transmissão – mas que trazem consigo angústias frente ao trabalho, renda e outras situações. “Quando não conseguimos traçar um planejamento ou uma visão de futuro há maior possibilidade de se entrar em um quadro de ansiedade pela perda do controle ou mesmo da sensação de falso controle que precisamos criar para manter um regramento sobre as nossas vidas”, alerta.

 

Sensação de impotência

Para o psiquiatra, a pandemia e as suas repercussões nos deixaram mais fragilizados pela sensação de impotência diante de um novo cenário, até então desconhecido. Diante disso, ele acredita que as consequências psíquicas de um cenário pós pandemia irão residir principalmente em quadros de ansiedade ou humor em que se tenta de alguma forma retomar o controle da própria vida.

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