21°C
Erechim,RS
Previsão completa
0°C
Erechim,RS
Previsão completa

Publicidade

Mundo

Não é preciso rei ou rainha, basta gestão comprometida com a ciência

Lockdown, vacinação em massa e auxílio financeiro estão na chave do recente sucesso do Reino Unido no combate à covid-19 - que viu o número diário de mortos desabar de 1,3 mil para 36 em dois meses. A gaúcha Ananda Kuhn, que mora em Bristol, Inglaterra, conta como está a vida por lá

teste
O casal de artistas gaúchos, Ananda Kuhn e Glauco Caruso, enfrenta o terceiro lockdown em Bristol, m
Por Salus Loch
Foto Arquivo pessoal

Em março de 2020, o Reino Unido demorou para encarar o coronavírus com a gravidade que a doença merecia. Resultado: o país foi um dos mais castigados pela doença nos primeiros meses do ano passado, conforme relato exclusivo para o jornal Bom Dia da artista visual porto-alegrense Ananda Kuhn, que mora há um ano e meio em Bristol, na Inglaterra, ao lado do marido, o músico e biólogo Glauco Caruso.

Pressionado pelos números, Ananda lembra que o governo do premiê conservador Boris Johnson teve que correr atrás do prejuízo, adotando medidas mais restritivas. Aos poucos, a vida parecia voltar ao normal - até que, em razão de afrouxamentos excessivos e o ‘cansaço’ da população, as coisas degringolaram de novo entre o crepúsculo de 2020 e o raiar de 2021.

Em 19 de janeiro, o Reino Unido registrou o pico diário de óbitos em toda a pandemia. Morreram 1.359 pessoas - cerca de 30% a mais (considerando proporcionalmente as populações) do que acontece hoje no Brasil, que tem média diária de mortes próxima a 3 mil.

Mais uma vez sob pressão, Johnson precisou (re)agir e, desta vez, apostou todas as fichas na ciência sem dar espaço a negacionistas (de dentro e fora da administração). Acertou! Em apenas dois meses os súditos da rainha viram o número de vítimas despencar de 1.300/dia para menos de 40. Em Londres, no dia 28 de março, nenhuma morte pela doença foi registrada pela primeira vez em seis meses.

 

Mas, afinal, o que foi feito por lá?

Conforme a BBC destaca em longa reportagem, o caminho para saída passou por duas medidas principais: lockdown restrito e grande investimento em vacinação. Somado a isso, o governo tratou de viabilizar auxílios financeiros a fim de estimular que as pessoas ficassem, de fato, em casa (sem precisar trabalhar e se expor ao vírus).

 

Terceiro lockdown

O esforço para diminuir o impacto da covid-19 começou um mês antes do fatídico 19 de janeiro. Nos dias anteriores aos feriados de Natal e Ano Novo, as autoridades observavam o agravamento acelerado da pandemia. Em apenas duas semanas, o número de casos havia duplicado, de 12 mil para 25 mil por dia.

A população já havia enfrentado dois lockdowns e não havia mais ânimo para um terceiro, contam Ananda e Glauco, que durante o tempo de reclusão forçada, além de receberem 80% do salário para ficarem em casa, se mantiveram produzindo arte e ensaiando para o lançamento de um disco 7’’ (vinil compacto). “Por dependermos de nossa arte e do processo criativo, nunca paramos de trabalhar, embora tenhamos ficado sem a possibilidade de nos apresentarmos em pubs, nos cinemas alternativos ou, até mesmo nas ruas (buskin)’, pontua o casal.

Ananda lembra que o confinamento decretado em novembro havia contribuído para derrubar os números temporariamente e foi usado como uma espécie de "barganha" do governo com o povo — se a população enfrentasse mais esse sacrifício, poderia ter um Natal e Ano Novo mais relaxado, inclusive com a possibilidade de viajar e confraternizar com seus parentes.

Todavia, o plano fracassou.

Assim que as restrições foram levantadas no começo de dezembro, os números dispararam. Boris Johnson não manteve sua promessa de relaxar as medidas e restringiu viagens e a interação de pessoas durante as festas de fim de ano.

Nessa época foi divulgada a existência de uma nova variante do vírus, surgida no sudeste da Inglaterra, que era até 70% mais contagiosa. Ao mesmo tempo, o governo dava início à sua campanha de vacinação — a primeira no mundo ocidental, mas com passos ainda tímidos. Passadas as festas, o primeiro-ministro fez um pronunciamento à nação, consolidando o terceiro lockdown.

O comércio não-essencial e as escolas foram fechados, exames educacionais suspensos e o governo impôs restrições para viagens (o Brasil está na ‘red list’ - lista vermelha, dos indesejados).

Além disso, o governo estendeu o auxílio salarial para mais de 10 milhões de trabalhadores até setembro, com subsídios que podem chegar a 2.500 libras (quase R$ 20 mil) por beneficiado. A oposição a Johnson apoiou as medidas.

 

Compra antecipada de vacinas

Por duas semanas, o número e mortes continuou subindo. Imagens de hospitais operando em capacidade máxima dominavam os telejornais.

Ao mesmo tempo, começaram a surgir os primeiros boletins diários sobre a quantidade de pessoas vacinadas. No dia 19 de janeiro — quando o Reino Unido atingiu seu pico de mortes, e na mesma semana em que a Anvisa liberava o uso da vacinas contra covid no Brasil — 4,6 milhões de britânicos já haviam recebido a primeira dose.

Na semana passada, o Reino Unido superou a marca de 29 milhões de pessoas com a primeira dose da vacina e quase 3 milhões com a segunda.

Mas o caminho rumo à imunização não começou no dia 8 de dezembro, data da aplicação da primeira vacina. Em 30 de janeiro de 2020, antes mesmo de haver confirmação de casos de coronavírus no Reino Unido, os cientistas da universidade de Oxford se mobilizaram para pedir recursos para pesquisa. Dias depois, o governo anunciou investimentos de US$ 750 milhões para o setor, e, logo em seguida, foi assinada a parceria entre a Oxford e a AstraZeneca, para desenvolvimento da vacina aprovada no fim de 2020.

Em agosto, quatro meses antes da aprovação por órgãos regulatórios, a administração britânica havia fechado negócios para compra de 340 milhões de doses — o suficiente para garantir cinco doses por pessoa.

O trabalho em antecipar contratos colocou o Reino Unido na frente de outros países na corrida por vacinas. Hoje, por lá, há duas vezes mais vacinados do que a Alemanha e três vezes mais do que a França - o que está permitindo uma gradual reabertura da economia.

Conforme a BBC, o lockdown definitivamente teve impacto na redução dos números, mas as vacinas ajudaram a acelerar o processo.

 

Para voltar a sorrir e sonhar

Agora, após um longo inverno de restrições, Ananda, Glauco e os britânicos traçam planos para voltar à uma vida um pouco parecida com a que tinham antes da pandemia. Escolas foram reabertas no começo do mês, encontros voltaram a ser permitidos (mesmo que em grupos limitados) e até o dia 15 de abril o Reino Unido pretende ter dado uma dose de vacina para toda a sua população com mais de 50 anos. A meta é vacinar todos os adultos até 31 de julho.

Casal em Bristol

Não acabou

Mesmo com o número de mortes em queda, o Reino Unido está longe de ter se livrado de formas mais rígidas de controle (quanta diferença se olharmos para o ‘país das bananas’!). Por lá, a maioria dos estabelecimentos considerados não-essenciais continua fechada e só reabrirá a partir de 12 de abril, se houver condições.

Um calendário para reabertura da economia prevê que até meados de junho boa parte das atividades já tenham sido retomadas. No entanto, o governo frisou que esse cronograma só será cumprido caso não haja imprevistos — como atrasos na vacinação ou repique nos casos, hospitalizações ou mortes.

"Em todos os cenários, se levantarmos o lockdown muito repentinamente, a modelagem sugere que teríamos um aumento substancial enquanto muitas pessoas ainda não estão protegidas", alerta o principal assessor de saúde do governo, Chris Whitty. "Alguns podem pensar que tudo acabou. É muito fácil esquecer a rapidez com que as coisas podem piorar". Justamente por isso, o Parlamento debate a possibilidade de estender as leis de emergência até o final de setembro.

Leia também

Publicidade

Publicidade

Blog dos Colunistas

;