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Opinião

O José de Drummond e os ‘Josés’ da pandemia

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O José de Drummond é de 1942, e os “Josés” da pandemia estão ao nosso lado. Hoje. O tempo passou ráp
Por Rodrigo Finardi
Foto Rodrigo Finardi

Realmente o tempo é implacável, mas nos traz ensinamentos. Em épocas difíceis como a que estamos vivendo, a vida vai fazendo seu curso, a pandemia avançando, milhares morrendo, dinheiro minguando, empregos em falta, perspectiva opaca, redes sociais viscerais, tolerância zero.

Isolamento e divisão

A pandemia nos desafia, nos confunde, nos isola, nos divide. E o tempo passa, abre loja, fecha loja. E o tempo passa, bandeira preta, bandeira vermelha. Os últimos 12 meses foram de aprendizado maior do que em uma década.

As máscaras desmascaradas

Em época de máscaras, o tempo vem desmascarando muita gente. Mas se encarrega, gradativamente de colocar tudo no lugar, mesmo que a travessia seja demorada, árdua e incerta.

Reflexões que o isolamento nos impõe

Essa reflexão de vida que o distanciamento, o isolamento nos impõe, traz repercussões distintas em cada um de nós. Num desses dias, sentado em frente à TV, depois do trabalho, do mercado e da farmácia (não necessariamente nessa ordem), assistindo um programa sobre poesias brasileiras, um ator declamou os eternos versos de Carlos Drummond de Andrade, chamado “E agora José? ”.

Infortúnios e incertezas

José é um homem que se depara com todos os infortúnios e incertezas da vida. Vive um isolamento fora de uma pandemia, por sua condição. Aquela pandemia invisível, que poucos falam, mas acomete milhares, milhões de brasileiros, por questões culturais, sociais, de cor, entre tantos outros, que serve de deleite para o opressor, mas esmagador para o oprimido.       

Os “Josés” do século XXI

O José de Drummond é de 1942, e os “Josés” da pandemia estão ao nosso lado. Hoje. E não vemos a sua solidão, seu abandono, sua falta de esperança, perdido na vida e sem ter a mínima ideia de que caminho tomar. E esses sentimentos povoam os ‘Josés’ do século XXI

Quase 80 anos depois

Veja alguns trechos da poesia de Drumond, que quase 80 anos depois, parece descrever os “Josés” da pandemia: E agora, José?/ A festa acabou,/ a luz apagou, o povo sumiu,/ a noite esfriou/ e agora, José?/ e agora, você?/ você que é sem nome/ que zomba dos outros/ você que faz versos, que ama, protesta?/ e agora, José?

Tempos distintos e realidades iguais

O José de Drummond e os ‘Josés’ de hoje, são os mesmos: “Está sem mulher,/ está sem discurso,/ está sem carinho,/ já não pode beber,/ já não pode fumar/ cuspir já não pode,/ a noite esfriou,/o dia não veio,/o bonde não veio,/o riso não veio,/ não veio a utopia/ e tudo acabou/ e tudo fugiu/ e tudo mofou,/e agora, José?”

 

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