21°C
Erechim,RS
Previsão completa
0°C
Erechim,RS
Previsão completa

Publicidade

Saúde

Pandemia: as muitas faces da tragédia

Mesmo para os profissionais que vivenciam a morte, diariamente, no trabalho, a covid-19 rompe com todos os limites, pelo número de óbitos, os cuidados que exige no tratamento e, principalmente, por privar as pessoas do convívio familiar , conforme relatos de quem está na linha de frente

teste
Relatos de profissionais na linha de frente
Cleide e Jocelaine
Taisa e Luana
Por Igor Dalla Rosa Müller
Foto Divulgação

A pandemia exige cada vez mais superação dos profissionais no combate à covid-19. E um dos componentes principais, nesta batalha, é a presença, esforço e dedicação das pessoas que atuam nas mais diferentes áreas da saúde, e que compõem uma rede de ações que se complementam com um único objetivo: salvar vidas.

Em Erechim, no Hospital Santa Terezinha, referência para toda a região, há em torno de 100 mulheres envolvidas, diretamente, com a covid-19 entre alas, UTIs e pronto-socorro. A seguir, relatos dessas profissionais que há um ano estão na linha de frente, e, mesmo para elas que vivenciam a morte, diariamente, no trabalho, a covid-19 rompe com todos os limites, pelo número de óbitos, os cuidados que exige no tratamento e, principalmente, por privar as pessoas do convívio familiar.

Vocação  

Segundo o diretor executivo do Santa Terezinha de Erechim, Rafael Ayub, dos 647 profissionais da saúde do hospital 482 são mulheres. “A importância das mulheres está diretamente relacionada à vocação delas em cuidar, ouvir, orientar e ter empatia com os pacientes, repassando esses valores a toda equipe”, disse.

“Em um ano vi muita tristeza, mas também superação”

A higienizadora, Jocelaine Pedroso, que trabalha no Santa Terezinha há 8 anos está desde o primeiro dia da pandemia atuando na UTI e Ala Covid. “Em um ano vi muita tristeza, mas também muita superação por parte dos pacientes, familiares, que tinham alguém internado, e de toda a equipe de saúde, enfermagem, equipe de apoio, do pessoal do hospital em geral”, disse.

Jocelaine comenta que o trabalho na saúde é como uma engrenagem em que uma peça precisa da outra para funcionar. “Todos são responsáveis por uma parte do trabalho e todas as ações se complementam”, disse. Ela acrescenta que se sente fortalecida e agradecida pela força que a equipe vem recebendo. “Oro todos os dias pedindo que isso passe logo”, disse.

“Quando tem óbito a gente sente muito, mas vamos continuar fazendo o nosso melhor, porque no outro dia tem que vir trabalhar de novo, já que virão outros pacientes e outras pessoas vão precisar de nós”, observa.  

“Doença solitária”

A enfermeira, Taisa Racoski, que trabalha no Santa há 17 anos, e há um ano no pronto-socorro na linha de frente da covid-19, disse, emocionada, que a doença desperta muitos sentimentos.

“Um dos meus sentimentos é a impotência, no sentido de usar todos os recursos disponíveis para atender os pacientes e não conseguir salvar todos que procuram por atendimento”, disse.   

A enfermeira Taisa afirma que a covid-19 é uma doença muito solitária, que tira o convívio dos familiares. “E isso é muito triste. Por mais que eu esteja acostumada a lidar, todo o dia com a morte, a covid deixou nós da saúde muito mais tocados, porque as pessoas não conseguem se despedir de suas famílias, ver pela última vez o familiar, não conseguem fazer isso”, explica.

Por outro lado, a enfermeira se sente feliz em poder ajudar, com o seu trabalho, quem procura atendimento. “Eu e todos os meus colegas fizemos isso com muito amor, muita dedicação, colocando em prática tudo que aprendemos, todos os ensinamentos, pra atender da melhor forma possível”, disse.

Outra preocupação da enfermeira é levar o vírus para a família. “Embora use todos os equipamentos de proteção individual, não se está livre de levar a doença para casa, e isso é muito preocupante”, relata.

Segundo ela, a pandemia também afeta a identidade e o jeito de ser das pessoas. “Sempre fui uma mulher vaidosa, e agora não consigo mais ser, por causa da máscara, touca, de toda vestimenta para proteção. Como mulher deixei isso de lado pra prestar o melhor atendimento a quem precisa”, afirma.    

Taisa desabafa e diz que é muito triste ver as pessoas morrendo e não poder fazer mais. “A gente vai até o limite e as pessoas se vão. Por isso se pede tanto para se prevenir, evitar aglomeração, usar máscara, isso é muito importante, isso não é bobagem, porque ninguém está livre desta doença, e a situação está bem difícil”, comenta.

Guerreiras  

A técnica de enfermagem, Cleide da Rosa, trabalha no Santa Terezinha há 18 anos. “Mas antes disso sou mãe, filha e neta”, diz. Segundo Cleide, estes últimos dias vieram pra mostrar o quanto as mulheres são fortes e guerreiras. “E, principalmente, o amor que temos pela profissão. Estamos passando por um grande desafio”, disse.

Ela comenta que os pacientes estão chegando muito mal até o hospital, e isso gera apreensão, medo, angústia nos profissionais. Contudo, ela ressalta que a equipe está prepara, treinada e sabe que esta é a sua missão, que envolve um trabalho constante de toda a equipe. “Nosso apelo é que fiquem em casa, evitem aglomerações, preservem a vida de vocês e de seus familiares”, observa.

“Exausta, mas que não mede esforços”

A psicóloga, Luana Gasparetto Fontanella, que atua no Santa Terezinha há cerca de 12 anos, viu, neste ano de pandemia, muitas situações de medo, insegurança, ansiedade, mas também de alegrias e vitórias. “Vejo uma equipe que está exausta e sobrecarregada, mas que não mede esforços pela recuperação dos pacientes. “E cada vida que se salva é uma vitória de toda a equipe”, afirma.

Luana comenta que por durante muitos dias e até semanas, a equipe de profissionais da saúde se torna a família do paciente internado. “Porque esta doença é muito solitária, infelizmente, em função da contaminação restringe muito o convívio e o contato com outras pessoas e a família”, explica.

Ela ressalta que os próprios funcionários têm que deixar suas famílias de lado em função do medo de contaminá-las. “Ao mesmo tempo, percebo como a gente tem recebido carinho das pessoas da comunidade, que tentam amenizar este sofrimento, e fazendo isso, eles conseguem dar força e um gás a mais para que os nossos funcionários e pacientes continuem lutando dia após dia”, observa.      

Leia também

Publicidade

Blog dos Colunistas

;