Com avanço da vacinação e queda nos índices de contaminação e mortes pelo coronavírus, o governo da Alemanha anunciou essa semana a prorrogação até 28 de março do lockdown que está em vigor no país desde 16 de dezembro, estabelecendo, porém, um plano de flexibilização das restrições em cinco etapas. Uma das principais medidas envolve a reabertura de parte do comércio não essencial.
É diante desse cenário, um pouco mais otimista, que a gaúcha natural de Passo Fundo, Milena Beledelli, 30 anos - que cursou o ensino médio no Barão do Rio Branco, em Erechim -, conversou, via redes sociais, com a reportagem do Bom Dia, direto de Hockenheim, no sul do país.
Durante o bate-papo, Milena, que mora na Alemanha há dez anos e trabalha de casa há 12 meses, revelou algumas de suas rotinas e o que tem feito para manter a saúde física e mental durante a pandemia - uma das saídas, aliás, foi a criação de dois podcasts. Confira:
Viver em lockdown
“Não é fácil viver confinado, com quase tudo fechado desde o fim de 2020. Não podemos sair de casa depois das 20h, nem visitar mais do que um adulto de outra família. Para se ter uma ideia, só agora cabeleireiros e floriculturas podem reabrir. Felizmente, o governo está dando auxílio para quem não pôde trabalhar. No meu caso, como sou analista de gerenciamento de projetos de uma empresa americana de Tecnologia da Informação, trabalho em home office e não precisei do auxílio. Aliás, em março faz um ano que trabalho de casa”.
Disciplina alemã
“De modo geral, os alemães estão cansados de lockdown. Culturalmente , reclamam bastante, mas ainda seguem as regras. Dificilmente tem alguém fazendo festinha e aglomerações. Os que fazem, na maioria, são adolescentes”.
Podcasts para motivação e inspiração
“Durante a pandemia, decidi investir mais tempo em coisas positivas. Não adiantava ficar reclamando ou só ficar em cima de notícias negativas. Então, comecei a meditar, cuidar mais do meu corpo e de minha saúde. Passei a ler mais. Enfim, com o que aprendi, e ciente do quanto melhorei psicologicamente, achei que seria uma boa compartilhar com mais pessoas algumas experiências no intuito de ajudar alguém que pudesse estar precisando. Nasceram, então, dois podcasts: o ‘Minspira’, sobre desenvolvimento pessoal, produtividade e espiritualidade; e o ‘Highlights’, em língua inglesa, onde todo mês eu e uma colega discutimos sobre um livro que lemos no nosso clube do livro. Ambos estão disponíveis no Spotify”.
Vacina antecipada
“O primeiro anúncio indicava que meu grupo de idade seria vacinado a partir de dezembro de 2021, porém, agora, talvez sejamos imunizados já em setembro”.
Receio à Astra
“Algumas pessoas demonstraram receio à vacina da Astra, inclusive minha sogra é enfermeira e ficou um pouco preocupada, mas ela recebeu as duas doses e não aconteceu absolutamente nenhuma reação. No geral, a maioria das pessoas não vê a hora de ser vacinada”.
Como o alemão vê o Brasil
“Eles gostam do povo brasileiro e veem o país como um lugar mais exótico. Em geral, porém, não falam muito do Brasil... Muitos também falam que nossa situação política é sempre complicada, independente de quem está no poder”.
Retorno
“No momento, não penso em voltar ao Brasil. Meu marido é alemão e estamos bem. Se tivermos filhos, será na Alemanha. Aliás, a licença maternidade aqui é de até 3 anos; e uma curiosidade que talvez nem todos os brasileiros saibam: a licença maternidade é de um ano, com pagamento de 60% do salário. Tem, ainda, o chamado “kindergeld”, que é uma ajuda de custo que o governo dá para todos aqueles que têm filhos (independente de classe social). Talvez quando me aposentar, possa pensar nessa probabilidade de retornar ao Brasil - ou, então, caso surgisse um contrato de emprego irrecusável. Mas, hoje, financeiramente e em relação a segurança, não faria sentido voltar”.
O peso da guerra
“Na Alemanha, existem movimentos e partidos de extrema direita e extrema esquerda, como em todos os países. Avalio, contudo, que é bem menos polarizado que no Brasil. Eles ainda sentem o peso da guerra, do holocausto e tudo mais... e se sentem mal por terem isso na história. Até com as gerações atuais é um assunto meio complicado. Eles têm uma espécie de vergonha de falar que são alemães, em determinados momentos, porque quem é ‘de fora’, ainda associa episódios da Segunda Guerra ao presente...
Saiba mais
# As primeiras medidas de flexibilização na Alemanha passam a valer a partir de segunda-feira, dia 8. Numa primeira etapa, floriculturas, livrarias e lojas de jardinagem poderão reabrir, desde que observadas medidas rígidas de higiene. Já a abertura do comércio varejista dependerá da situação epidemiológica numa segunda etapa.
# Regiões com incidência inferior a 50 casos vão poder reabrir museus, zoológicos e galerias. Lojas vão poder permitir um certo número de clientes dependendo da área do estabelecimento. Regiões com incidência entre 50 e 100 poderão reabrir esses espaços, mas com hora marcada.
# Se os números continuarem em queda, a Alemanha permitirá a reabertura de restaurantes com áreas externas, museus e instalações esportivas. Cada nova etapa da flexibilização ocorrerá a cada 14 dias, se os números permanecerem em baixa.
# Na quarta-feira (3), a Alemanha registrou 418 mortes associadas à covid-19, elevando o total para 70.881 desde o início da pandemia.
# O governo alemão planeja, a partir da próxima semana, implementar um enorme programa nacional de testagem rápida para covid-19, como medida fundamental para que o país possa, aos poucos, levantar as restrições de movimentação. Segundo o plano, cada pessoa no país terá direito a um teste por semana gratuitamente, que poderão ser feitos em centros de testagem, no consultório médico ou no local de trabalho.