A vacinação contra a covid-19 está em andamento nos municípios brasileiros, em meio a uma enxurrada de desinformações, divulgadas, principalmente, por meio das redes sociais. Mas a ciência já ensinou que só se combate doenças infecciosas com a imunização das pessoas.
“A vacinação é a forma mais eficaz de controlar as doenças infecciosas e, por isso, é importante as pessoas se vacinarem”, afirma o aratibense, Odir Dellagostin, professor titular da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), que trabalha há muitos anos com pesquisa e desenvolvimento de vacinas. Atualmente, é presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (FAPERGS), integrante do comitê científico que assessora o governo do Estado e da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio).
Plano
Odir explica que o Brasil participou ativamente dos estudos clínicos para comprovar que as vacinas são seguras e eficazes. “Tanto a vacina da Coronavac e a da Oxford foram testadas aqui no Brasil. Foram feitos estudos e os dados gerados aqui permitiram concluir que as vacinas são seguras. Não houve efeitos colaterais graves nas pessoas que receberam as vacinas, que são eficazes”, afirma.
Percentual
Ele comenta que a vacina de Oxford é um pouco mais eficaz, com uma eficácia geral de pouco mais de 70%, e a da Coronavac um pouco mais de 50%. “O que isso quer dizer, a vacina da Coronavac reduz em 50% o risco de contrair a doença, e no caso da Oxford a redução é de 70%”, observa.
Diferenças
“As duas vacinas usam tecnologias diferentes para serem produzidas. A Coronavac, que está sendo produzida pelo Butantan, é uma vacina convencional, ou seja, é constituída pelo próprio vírus que causa a covid-19. No entanto, o vírus morto (inativado). Portanto, a vacina não tem risco nenhum de causar a doença nas pessoas porque está morto. O vírus em contato com o sistema imune é capaz de induzir a produção de anticorpos e consegue proteger a pessoa”, explica.
No caso da vacina de Oxford, observa Odir, é bem diferente, é uma vacina recombinante, transgênica, produzida usando outro vírus, chamado de adenovírus, e que causa resfriado em chimpanzé e não em humanos. “Esse vírus não se replica em humanos, não causa nenhum problema, e é destruído pelo organismo”, diz.
Efeitos colaterais
O pesquisador ressalta que as vacinas, em geral, sempre têm algum efeito, uma dor que dura dois dias, um pouco de febre, mas são efeitos esperados, normais, e que não vão aparecer em todas as pessoas. Algumas pessoas não sentem nada e outras têm esses efeitos colaterais esperados.
“Os efeitos colaterais inesperados são muito raros e podem acontecer em pessoas que tem hipersensibilidade a algum componente da vacina. Nenhum efeito colateral grave foi documentado. Podemos dizer para a população em geral que as vacinas são seguras e os estudos demonstraram que o risco de ter algum efeito colateral é pequeno, e se tiver, vai ser um efeito colateral leve”, disse.
Anvisa
A Anvisa analisou os dados e deu a autorização para uso geral. “A Anvisa vem fazendo um trabalho muito sério, técnico, analisando com bastante critério os dados. Inclusive, a última reunião da Anvisa foi pública e eu acompanhei e pude constatar a seriedade com que os técnicos e diretores tratam este assunto. Portanto, se foi aprovado pela Anvisa a população deve confiar porque é seguro”, afirma.
CTNBio
Ele explica que a população pode confiar nos técnicos, cientistas e nas agências reguladoras, porque lá tem pessoas qualificadas que analisam e entendem do assunto. “E se elas concluírem que é seguro, é porque é seguro mesmo”, afirma.
No caso da vacina de Oxford, como é um organismo geneticamente modificado, além da Anvisa, a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) também analisou a vacina. “Essa comissão é constituída de especialistas em engenharia genética e eu faço parte desta comissão. Sou um dos 27 membros titulares do CTNBio, que analisa, desde plantas transgênicas, até micro-organismos e vacinas. O que for transgênico passa pela comissão, que dá o carimbo de segurança com relação ao organismo geneticamente modificado”, destaca.
Contudo, ele comenta que a CTNBio não analisa a eficácia da vacina, mas somente se há algum risco de que o organismo geneticamente modificado venha a causar problemas às pessoas. “Analisamos profundamente este processo, eu tive acesso a todo documento, que é sigiloso, mas como membro eu tive acesso, que demonstra todos os estudos feitos, desde o primeiro momento até a comprovação da eficácia. E a CTNBio foi unânime em aprovar esta vacina”, explica.
Plano de vacinação
O professor-pesquisador, que faz parte do grupo de elite de cientistas brasileiros, comenta que o Brasil tem bastante experiência em imunização, tem um dos melhores programas nacionais de imunização do mundo. “Os técnicos definiram a lista de prioridades, profissionais da saúde, porque estão mais expostos; e pessoas de mais idade, porque se elas se infectarem o risco de serem hospitalizadas é muito grande. Num primeiro momento, se espera ter uma redução na demanda do sistema de saúde. Depois é preciso vacinar as pessoas mais jovens, que circulam mais, se infectam, e não desenvolvem a doença grave, mas servem de transmissoras”, diz.
Ele acredita que ao longo, deste ano, o país consiga produzir vacinas suficientes e distribuir para que toda população seja imunizada.
Quem não pode tomar a vacina
“Só as pessoas que tem alguma reação alérgica contra algum componente da vacina. E, normalmente, quem tem já sabe. As pessoas que têm problemas de alergia, muito grave, já andam com anti-histamínico no bolso. De modo geral, não tem risco e todo mundo pode se vacinar”, salienta.
Durabilidade
“Não sabemos ainda qual é a durabilidade da proteção conseguida pela vacina. Os estudos estão em execução, estamos ainda acompanhando, não tivemos tempo suficiente para observar e constatar com segurança a duração da proteção ao vírus com a vacina. O que se espera é que seja de pelo menos 6 meses a um ano. A meta pra este ano é imunizar toda a população com as primeiras duas doses. Provavelmente seja necessário re-vacinação anual, mas isso vai ser constatado com os estudos em andamento. Torço pra que este movimento antivacina não prospere, precisamos que o maior número de pessoas se vacinem”, ressalta.
Notícias falsas
Ele comenta que tem pessoas propagando notícias falsas, de que é perigoso vacinar e a vacina pode causar mutações. No entanto, Odir enfatiza que quem recebeu a vacina não tem o menor risco disto acontecer.
Ciência
O cientista ressalta que a produção das vacinas foi um feito inédito da humanidade. “A ciência respondeu de forma muito rápida. É impressionante que em menos de um ano se conseguiu ter uma vacina sendo usada na população em geral”, diz.
O primeiro sequenciamento de genoma foi feito pela China, lembra ele, no início de janeiro do ano passado, alguns dias depois dos primeiros casos. A China disponibilizou as informações da sequência do genoma do vírus e, imediatamente, grupos de pesquisa no mundo todo começaram a trabalhar no desenvolvimento de vacinas.
Transferência de pacientes
Com relação a transferência de pacientes de outros estados, ele afirma que não há maiores problemas, porque os pacientes são tratados em locais onde se usa equipamentos de segurança individual, onde o risco de transmissão desses pacientes para a equipe de saúde é muito baixo.
“E não adiantaria nada ter precaução com os pacientes, já que no país não temos barreiras que impeçam a circulação de pessoas. Então, é mais provável que estas variantes cheguem aqui ao estado por meio de pessoas aparentemente saudáveis ou com sintomas leves do que com pacientes graves”, observa.