Muito além da missão de cuidar e curar, uma instituição de saúde compartilha conhecimento, condutas, processos, boas práticas e identifica pontos de melhoria.
Nesse propósito cujo foco é salvar vidas, várias pessoas estão envolvidas, desde os profissionais de saúde até os familiares.
Ao encontro dessa ideia, um programa do governo federal, denominado ‘Saúde em Nossas Mãos - Atitudes que salvam vidas’, possibilita melhorias no que se refere ao aumento da segurança aos pacientes por meio do controle de infecção. A Fundação Hospitalar Santa Terezinha de Erechim integrou o trabalho junto a outras 114 instituições do País que foram assessoradas por hospitais de excelência e desenvolveram planos específicos durante três anos. Os resultados surpreenderam, inclusive, os profissionais de saúde.
A líder do projeto, farmacêutica-bioquímica e presidente do Núcleo de Segurança do Paciente no Hospital Santa Terezinha, Lucila Veleda dos Santos, explica que o projeto segue os princípios do Programa Nacional de Segurança do Paciente (PNSP) e do Programa de Prevenção e Controle de Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde (PCIRAS), conforme à realidade de cada hospital beneficiado. “Além disso, os profissionais dessas instituições são capacitados e treinados e um robusto sistema de indicadores é utilizado para monitorar o progresso das ações e resultados”, salienta.
Como foi a integração do Santa Terezinha ao projeto?
Lucila ressalta que no fim do ano de 2017 surgiu a oportunidade de inscrição no projeto. Entre os critérios, a instituição deveria ser pública, atendendo principalmente o Sistema Único de Saúde, ter uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI), entre outros indicadores. “Fomos contemplados com a inscrição pelo Ministério da Saúde. Para desenvolver as ações, foram reunidas instituições de excelência no País, como o Hospital Albert Einstein, Hospital Alemão Oswaldo Cruz, Hospital do Coração – HCor, Hospital Moinhos de Vento e Hospital Sírio-Libanês, que, em parceria com o Institute for Healthcare Improvement, ajudaram nesse processo. Cada um reuniu um grupo de hospitais para fornecer assessoria. Desse modo, o Santa Terezinha é uma entidade “afilhada” do Hospital Moinhos de Vento no projeto”, comenta.
Objetivos
O foco era desenvolver um plano que focasse no processo seguro nas UTI’s, seguindo seus protocolos, incluindo a equipe multiprofissional (médicos, enfermeiros, técnicos, farmacêuticos, fisioterapeutas, dentistas, profissionais de higienização, nutricionistas). “Cada um, na própria área, exerceu funções que fizeram a diferença, contribuindo na prevenção de infecções. O objetivo era reduzi-la em 30% no período de 18 meses e em 50% na fase de três anos. Foram coletados os indicadores do cenário de 2018 e buscamos formas de diminuir os índices”, pontua a líder do projeto, citando que a intenção do hospital é contribuir com a sociedade, possibilitando que todos os procedimentos gerem melhorias na qualidade de vida e bem-estar da população. “Sabemos que, atualmente, o ambiente hospitalar é um dos três locais mais inseguros, no que se refere às infecções. Em contrapartida, projetos como esse, reforçam uma preocupação a mais com esse cuidado, é um investimento em saúde pública”, reitera Lucila.
Os desafios em um ano atípico
Nesse ano as ações precisaram ser intensificadas em razão do novo coronavírus. Segundo a farmacêutica-bioquímica, um trabalho extra em relação ao que vinha sendo desenvolvido até o fim de 2019. “Como as alas covid sempre foram separadas dos outros espaços (a exemplo da UTI e UTI covid que estão em locais diferentes), utilizamos as medidas do projeto nas unidades covid também”, destaca, observando que, os índices de mortalidade e internações, comparados com outras regiões próximas, não estão muito altos.
Ações implementadas
Considerando três tipos de infecção: Pneumonia associada a ventilação mecânica; Infecção Primária de Corrente Sanguínea associada ao cateter venoso central e Infecção do trato urinário associada ao cateter vesical de demora, foram implementadas ações como: reforço nos cuidados de higienização oral rotineira nos pacientes; cabeceira elevada (de 30 a 45 graus); tentativas de redução da sedação precoce (tirar o paciente da sedação o quanto antes); verificar a possibilidade de retirar o tubo (ventilação mecânica) o quanto antes; entre outras. “Em 2020 as visitas ficaram mais restritas por conta da covid-19, mas nos outros anos, procuramos trabalhar a questão da inclusão do familiar no cuidado do paciente. Pelos números que acompanhamos, quanto mais contato do paciente com seus familiares, mais rápido ele melhora”, pondera.
De acordo com Lucila, em 2018 foram iniciadas essas práticas e ampliado o tempo de visita. Além disso, a equipe buscou, também, informações sobre a alimentação que o paciente mais gosta, o hobby, enfim, tudo que possa agregar no tratamento e recuperação. “Uma de nossas metas é, quando conseguirmos equilibrar essa questão da pandemia, retomar os trabalhos com a família. Isso pode favorecer, inclusive, a recuperação do paciente no momento que ele retornar para casa, pois haverá mais conhecimento sobre o que deve ser seguido, o auxílio com a alimentação, entre outros cuidados”, comenta.
Em meio a todas essas medidas, Lucila frisa que não há gasto financeiro. “Quer dizer, é uma forma de fazer com que o paciente melhore antes, saia logo da UTI, o que poderá gerar, ainda, uma economia à instituição. O custo benefício é muito alto”, enfatiza.
Os profissionais também foram treinados para que houvesse uma observação entre os próprios colegas. “Em cada procedimento são analisadas as possibilidades que tivemos em relação à prevenção e quantas foram efetivadas. Com isso, avaliamos nossas práticas. A intenção é que todas as prevenções sejam aderidas com percentual maior que 95%. Com isso, se necessário, são sugeridas melhorias e trocadas ideias sobre como é possível agregar avanços à rotina do cotidiano”, aponta.
Mérito de todos

A líder do projeto no Hospital Santa Terezinha aproveitou para enaltecer o trabalho da equipe de profissionais da UTI, sendo que cada um é responsável por essa conquista: salvar vidas.
Conforme Lucila, a partir de agora, a ideia é expandir as práticas para outros setores do hospital.

Observação: No país, 6.927 infecções foram evitadas, 2.430 vidas foram salvas e gerada uma economia de R$ 320 milhões.