Pare por cinco minutos e pense: e se um dia eu precisar de um transplante? Difícil se imaginar nessa situação? Com certeza é algo delicado, um assunto que todos querem evitar, porém, a reflexão é fundamental e pode mudar algumas opiniões e, até mesmo, posturas da sociedade, como um todo.
Várias lutas e inúmeros desafios até a vitória
A pedagoga, Francine Brambatti Bagestan, de 41 anos e que reside em Getúlio Vargas, comemora a nova etapa da vida após o transplante. Em uma conversa com a reportagem do Bom Dia ela relata um pouco mais sobre os desafios enfrentados nos últimos anos, os momentos difíceis compartilhados com familiares e amigos, e a luta pela recuperação. Uma história especial e inspiradora de uma jovem forte que agradece, a cada momento, a oportunidade de viver. Isso só foi possível, graças ao ato generoso de uma família em Santa Catarina. Confira!
Em meio aos problemas, a marca do otimismo
Francine celebra a fase atual, aproximadamente 11 meses após realizar um transplante de fígado. Contudo, os desafios iniciaram há mais de cinco anos. Ela comenta que sempre foi uma pessoa focada nos estudos, trabalho, casa e família, sem considerar em primeiro plano a qualidade de vida saudável. “Acabei me tornando uma pré obesa e recorri a uma cirurgia bariátrica aos 27 anos de idade”.
Ao conviver com doenças autoimunes e esteatose hepática, precisou de muitas cirurgias (neurológica, gastrointestinal) para amenizar outros problemas que surgiam a todo momento. “Também realizei tratamento contra a Leptospirose, que adquiri em uma viagem à praia; enfrentei fissuras esofágicas, catarata sinil, hematoma subdural, anemia hemolítica, alterações na tireóide, descompensação metabólica, disritmia cardíaca, encefalopatias (que me levaram a ficar por muitos dias em UTIs), entre outros graves problemas”, pontuou, citando que o dano maior foi no fígado. “Os problemas hepáticos são silenciosos, quando os sintomas começam a aparecer, já pode ser tarde demais, sendo que evoluem pouco a pouco a danos irreversíveis”, alerta Francine.
Mais ou menos um ano antes do transplante, ela enfrentou episódios de sangramento severo no esôfago. Naquele momento, precisou de cuidados intensivos e foi organizada uma campanha de transfusão de sangue a favor de todos que necessitavam: ‘Gotinhas de amor’. “Foi esplêndida a repercussão e a quantidade de pessoas que se dispuseram a doar no Hospital São Vicente em Passo Fundo”, salienta.
Contudo, mesmo com o esforço da equipe médica, a doença evoluiu em pouco tempo e foi feita uma reunião para avaliar o caso, sendo que a decisão foi pela necessidade do transplante, sendo que o fígado já não funcionava como deveria. “Ao mesmo tempo, meu corpo sentia mais essa ineficiência e tive muitos sintomas, comecei a emagrecer dia a dia, chegando aos 44 quilos”, declara.
A ideia do transplante nunca assustou Francine, que afirma: “sabia que aquilo iria fazer eu melhorar e o que mais me incomodava era a fraqueza, náuseas e a recente falta de vigor. Aliás, eu não parei de fazer minhas atividades, mas não conseguia me dedicar como eu queria. Algumas vezes tinha que pedir desculpas por não atingir os objetivos da empresa, até que fui afastada. Mais uma grande frustração”, recorda.
Mesmo diante desse cenário desafiador, ela nunca perdeu o otimismo. “Em relação ao transplante não foi diferente, sempre estive confiante, com minha fé inabalável, especialmente no Cônego Stanislau Olejnik e na Santa Maria Elizabeth de Oliveira. Não era para esconder o sofrimento, eu apenas aceitei que essas situações acontecem e que pelo menos eu tinha saídas para elas. Após ter meu filho Stéfano, esse momento foi também o mais esperado”, destaca.
A espera e a criação de vínculos
Curiosa, a jovem sempre procurou se inteirar de tudo que se relacionava ao assunto ‘transplante’. Desse modo, conheceu muitas pessoas fora do Estado, como os membros da Associação ‘Viva Transplante’, de São Paulo. “Eles me ajudaram tanto, que serei eternamente grata. A Ong ‘Mãos Solidárias de Ourinhos/SP’ me amparou em muitos momentos, enfim, criei vínculos fabulosos e ainda os mantenho, afinal somos da Família Tx (Sigla de transplantados)”, ressalta.
Tratamento em Santa Catarina
A partir da necessidade de transplante, Francine entrou no Cadastro no Sistema Nacional de Transplantes e com ele as expectativas do enfrentamento de uma fila de espera. “Muitos meses de uma fase angustiante e desgastante, associada aos sofrimentos físicos e psicológicos. Foi, então, sugerido pelo médico-chefe do setor de Transplantes de Passo Fundo, a inscrição no Cadastro Estadual no estado de Santa Catarina e fui encaminhada para o Hospital Santa Isabel, em Blumenau. Para minha alegria, no dia 13 de novembro de 2019, às 18 horas, fui comunicada de uma oferta de doação de um fígado e que deveria internar. Dia 14, às 16h48min, entrei no bloco cirúrgico para o transplante a cargo do Dr. Julio Cesar Wiederkehr”, relata.
Em relação a possibilidade de tratamento em Santa Catarina, o motivo foi a maior agilidade com que os transplantes são realizados no Estado, que figura como o terceiro do Brasil onde mais ocorrem os procedimentos. “Tudo devido as campanhas permanentes, veiculadas em todos os meios de comunicação e a humanitária consciência do povo catarinense pela doação de órgãos e tecidos”, completa.
Ensinamentos após o transplante
Francine afirma que nunca irá esquecer das primeiras palavras que ouviu de um grande amigo e médico Tx: “Fran, você vai ver, quando transplantar, sua cabeça vai mudar, você vai pensar diferente”. Ela ficou ainda mais reflexiva e agora pode dizer que o primeiro ensinamento foi: ter calma e aprender a esperar. “A UTI não é fácil, mas tem o tempo necessário para que você se estabilize. O retorno pra casa demorou a acontecer, pois meu transplante foi realizado com sucesso. Fixei residência em SC por sete meses. Tive limitações na dieta, que fez com que toda minha família mudasse a rotina para se adaptar à minha, precisei de cuidados intensos quanto às medicações, diariamente, medir temperatura, pressão, oxigenação, peso, glicose, trocar curativos. Diante disso tudo, era necessário tentar se manter animada, arranjar coisas para passar o tempo e suportar dores nas costas, no dreno, nos curativos, os efeitos dos imunossupressores e muitas vezes ainda passar por alguns sustos como infecções intestinais e outros problemas. Isso faz com que eu tenha certeza de que amor de família é mesmo incondicional, e que eles só estão bem quando nós também estamos. É um misto de sentimentos”, salienta, reforçando que procurou seguir todos os cuidados, pensando em voltar logo para casa e seguir com os planos junto a todos os familiares, especialmente ao lado do filho Stéfano, do esposo Vinicius, dos pais Jandir e Cleci Maria e do irmão Marcel.
Um nova etapa: aprender a viver novamente, sem medos
Na avaliação da getuliense, essa fase foi a mais difícil (em termos psicológicos). “Agora posso usar a roupa que eu quero, não tenho mais hematomas para esconder. Hora de colocar em prática os planos de vida. Planejar, alavancar, pois, mesmo diante de muitas limitações ainda, eu posso, eu quero e eu vou fazer. Mas aqui tive que pensar que a vida nova era a minha e os outros continuavam a viver a deles, como sempre viveram. Eu já não tinha aquele problema enorme que era o transplante, parecia que eu já não tinha mais um objetivo, era apenas viver, e por incrível que pareça, me incomodou muito. Eu tornava os probleminhas do dia a dia em coisas enormes, estava muito instável em meus pensamentos e chegou o momento do desapego. Desapeguei de coisas, de pessoas, consegui colocar pra fora tudo o que eu sempre quis expor, meus sentimentos com muita autenticidade em várias situações e isso foi muito bom. Consigo saber o que eu quero e o que – e quem – é bom pra mim”, enfatiza.
Segundo ela, depois veio a fase da calmaria e ela ficou feliz com o rumo que as coisas estavam tomando. “Ainda não posso ir pra onde eu quero mas penso que não preciso de muito, nem de muito dinheiro, nem de muitos amigos, muito sucesso, preciso do suficiente pra poder fazer as coisas que me fazem bem, como meditar todos os dias, me dedicar a coisas nobres como passear com meu filho no parque. Do mesmo modo, fazer os artesanatos que tanto gosto, poder trabalhar menos caso não esteja me sentindo bem. Diante disso, penso: só sou insubstituível para os que me amam”, reforça.
Gratidão
Após tantos desafios e momentos delicados, a expressão ‘muito obrigada’ a todos que acompanharam a luta, é constante. “Cada um tem a sua parte na pessoa que eu sou hoje, acredito que melhor do que eu era antes e sempre querendo melhorar ainda mais. Quando fiz o transplante Deus estava muito feliz comigo e me concedeu esse sopro de uma nova vida com uma nova missão: ajudar ao próximo para terem a mesma chance que eu tive de continuar vivendo", assinala, pontuando a importância essencial dos 14 profissionais de saúde que a acompanharam nessa jornada. “São os anjos-guardadores dos que procuram aplacar o sofrimento de uma doença”, define.
Após duas internações no Hospital São Roque, em Getúlio Vargas (seis dias), nove longas internações no Hospital São Vicente de Paulo, em Passo Fundo (aproximadamente 120 dias) e mais sete internações no Hospital em Blumenau (31 dias), Francine diz que sente-se abençoada e extremamente agradecida à família da ente querida que partiu, pois, mesmo naquele momento difícil para eles, possibilitaram que eu voltasse à vida e prosseguisse em frente com meus familiares”.
A campanha
No mês de setembro de 2019, o Bom Dia publicou uma matéria sobre a iniciativa de um pai angustiado em razão de problemas de saúde da filha. A mobilização de S. Jandir Brambatti foi expressiva e visou a conscientização da população de Getúlio Vargas e região, sobre a doação de órgãos.
Para tanto, foram divulgadas várias informações por meio de materiais e visitas aos órgãos de imprensa. O Conselho das Secretarias Municipais de Saúde do Rio Grande do Sul (Cosems) também se sensibilizou com a ideia de S. Jandir, “abraçou” a causa e fortaleceu a campanha que prossegue atualmente e, diante da pandemia, precisou ser adaptada para as redes sociais.
Diminuição expressiva de transplantes no Estado
O número de doadores de órgãos e tecidos no Rio Grande do Sul caiu significativamente de janeiro a agosto, em relação ao mesmo período do ano passado, por causa da pandemia causada pelo novo coronavírus. Em consequência, houve uma queda de 24% no número de transplantes de órgãos sólidos (coração, pulmão e fígado, por exemplo) e de 54% no de tecidos (córnea, esclera, osso e pele). Nos oito primeiros meses de 2019, o Estado realizou 467 transplantes de órgãos e 877 de tecidos. Neste ano, no mesmo período, foram 356 e 400, respectivamente.
Período crítico de transplantes em todo o mundo
O médico cirurgião e coordenador da equipe de Transplante Hepático do Hospital São Vicente de Paulo de Passo Fundo, Paulo Roberto Reichert – que integrou a equipe médica no atendimento à Francine -, enfatiza que, historicamente, o momento atual é o mais crítico no que se refere aos transplantes em todo o mundo. “A pandemia do novo coronavírus trouxe uma séria crise, sendo que a saúde ficou voltada ao atendimento das pessoas vítimas da covid-19. Estimamos que tudo isso amenize logo para que possamos atender as milhares de pessoas que aguardam um transplante. Queremos atender a todas”, reitera.
Ele destaca, ainda, que a conscientização da sociedade é muito importante, porém, há outros aspectos essenciais que envolvem essa temática, tais como: “a maior notificação das mortes encefálicas, que muitas vezes não acontece; do mesmo modo, quando há um doador, é fundamental uma estrutura para manter a viabilidade dos órgãos com leitos em UTI, e, também, uma logística mais adequada para facilitar todo esse procedimento, desde aeroportos que ofereçam condições eficientes”, ressalta o médico.
Conforme o especialista, na última visita que fez ao município de Erechim, nos dois hospitais, o consentimento dos pacientes para fazer a doação estava em cerca de 100%. Em Passo Fundo, em média, a decisão fica em 50%. “Existe uma variedade conforme as cidades e regiões. Mesmo em países de primeiro mundo, há em torno de 50 ou 60% de consentimento. A negativa é multifatorial e pode estar relacionada ao próprio atendimento, à insegurança da família, ao não conhecimento dos familiares sobre o desejo do ente querido em doar ou não os órgãos, entre outros aspectos”.
Ao mesmo tempo, Reichert pondera que, diante das dificuldades, é imprescindível agradecer. “Há muitos transplantados e isso só foi possível, graças a decisão de famílias que, mesmo enfrentando a dor pela perda de uma pessoa, optou por auxiliar outras. Isso deve ser reconhecido e valorizado, pois é uma atitude louvável”, acrescenta.